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Era de Noite.
Estava Cego
e Cantou o Sol |
Altíssimo,
omnipotente, bom Senhor,
a Ti o
louvor, a glória, a honra e toda a bênção.
Louvado sejas,
meu Senhor,
com todas as
tuas criaturas,
especialmente o
meu senhor irmão Sol,
o qual faz
o dia e por ele nos alumia.
E ele é belo e
radiante,
com grande
esplendor:
de ti,
Altíssimo, nos dá ele a imagem.
O sol punha-se para os lados de
Rivotorto,
naquele Abril ou Maio de 1225.
Bandos de andorinhas passavam,
dizendo Até amanhã.
No Jardim de São Damião,
dentro de uma cabana de
ramagens,
Francisco, praticamente cego,
rezava a oração da noite.
Noite da Natureza.
Noite dos olhos.
Noite da vida.
Noite da Ordem Franciscana,
já emaranhada no ter, no poder e
no saber:
grandes conventos,
lutas pelos primeiros lugares,
preocupação pelos estudos...
Louvado sejas,
meu Senhor,
pela Irmã lua e
estrelas:
no céu as
acendeste, claras, e preciosas, e belas.
Uma luz ténue,
coada pelas pálpebras
semi-cerradas,
entrava-lhe agora pelo espírito:
Santa Maria dos Anjos,
a Irmã Clara e suas
companheiras,
Frei Leão...
Nem tudo eram agruras.
Louvado
sejas, meu Senhor,
pelo irmão
vento...
O vento soprava.
Ora rijo, como o de Pentecostes,
marcando os Apóstolos com o ferrete do testemunho.
Ora leve, como a brisa chamando
Elias para a escuta de Deus.
«O mesmo Altíssimo me revelou
que devia viver segundo a forma do santo Evangelho», escreverá no
Testamento.
E, voltando-se para o outro
lado, como que afastando um pesadelo: «À letra, sem interpretações, sem
interpretações, sem interpretações!»
Sentia-se novamente embalado
pela voz da natureza:
... e pelo
ar, e nuvens, e sereno, e todo o tempo,
por quem
dás às tuas criaturas o sustento.
O
seu espírito
serenava.
Tentava conciliar o sono com as
dores.
Uma certa frescura repassava-lhe
agora a fronte e o peito,
percorrendo-lhe as veias como
beijo de mãe ao deitar,
ou como pano empapado em vinagre
sobre a testa delirante de febre.
A nascente
que brotara do crucifixo de São
Damião
e do evangelho lido na festa de
São Matias,
saltava agora dentro dele, como
fonte
dessedentando-lhe a ânsia de
vida eterna:
Louvado
sejas, meu Senhor, pela irmã água,
que é tão
útil, e humilde, e preciosa e casta.
Mas, paradoxalmente,
um fogo intenso o abrasava.
O fogo do zelo e amor de Deus.
O fogo do zelo e amor e cuidado
e responsabilidade dos Irmãos
que o tinham querido acompanhar
naquela aventura
de viver o Evangelho de Nosso
Senhor Jesus Cristo.
Tudo à mistura com o fogo físico do seu estômago débil
e o ardor intenso dos seus olhos purulentos,
já sujeitos ao cautério do ferro em brasa aguentado a sangue frio...
Louvado sejas,
meu Senhor,
pelo irmão fogo,
pelo qual
alumias a noite...
(E a dele
tão escura, por fora e por dentro!)
... e ele
é belo, e jucundo,
e robusto,
e forte.
O seu corpo, franzino e febril,
jazia sobre a terra dura.
Teria Clara acendido uma fogueira
para minorar o frio do Irmão/Pai Francisco?
Louvado
sejas, meu Senhor,
pela nossa
irmã, a mãe terra,
que nos
sustenta e governa...
A terra dura e fria.
Mãe e irmã.
Útero e colo.
Leito e sepultura.
Raiz e floração.
Cilício e amplexo.
Familiar da cinza
tantas vezes misturada na
comida.
Onde seria semeado
para florir em ressurreição.
...e produz
variados frutos,
com flores
coloridas, e verduras.
O pequeno jardim de São Damião
ainda lá está,
ilustrando este verso, com placa
dos cegos de Itália
homenageando o cego-cantor do
Sol e das flores.
Mas, ao corpo do poeta havia de
ser roubado o aconchego da terra,
para jazer em túmulo cavado na
rocha. Como o de Cristo.
E, como o de Cristo, bem tapado
com uma pedra.
Igualmente com medo de que o
fossem roubar.
E de perder o seu espírito,
ninguém teve receio?
Felizmente, ele evaporou-se
daquela prisão mais que simbólica
da cripta na Basílica inferior
de Assis,
e anda por aí multiplicado em
frutos,
flores e ervas de puro
franciscanismo.
Assim mesmo.
Em masculino e feminino.
Com siglas e sem elas.
Louvado sejas,
meu Senhor,
por aqueles que
perdoam por teu amor
e suportam
enfermidades
e tribulações.
Em quem pensaria Francisco,
naquela noite de insónia?
Nele próprio – não, com certeza.
Tinha-se pelo maior pecador de
todos
e tratava o seu corpo
como o pior carroceiro trata o
seu burro, mesmo doente.
Em quem, pois?
Talvez,
ainda,
no Bispo e no Podestá de Assis.
Talvez
em seu pai (já teria morrido?)
Talvez
nos seus primeiros e verdadeiros Irmãos
enviados a pregar a Marrocos e
lá martirizados,
cujos corpos repousam na Igreja
de Santa Cruz em Coimbra.
Talvez
em frei Leão, seu confessor,
que já vivera dramas de
consciência
e a quem certa vez enviara uma
especial bênção de consolo.
Talvez
nos leprosos.
(Ah, que seria feito do leproso
daquele seu primeiro encontro
com Jesus Cristo
no homem sofredor?)
Talvez
nos cristãos que sofriam
com os pecados da Igreja.
Talvez
nos muitos movimentos nascidos para a renovar,
marginalizando-se dela com
escândalo,
mas com muito sofrimento e
amargura.
Talvez
nos pobres. Em espírito e não só.
Mas que não se revoltavam contra
os ricos senhores feudais.
Talvez
nas vítimas das constantes lutas civis.
E nas vítimas das Cruzadas da
Igreja.
Os ratos iam e vinham, passando
sobre ele,
incomodando-o e não o deixando
dormir.
Mas não era em si, que Francisco
pensava.
Bem-aventurados
aqueles
que as suportam
em paz,
pois por Ti,
Altíssimo, serão coroados.
«Combati o bom combate, terminei
a corrida, permaneci fiel. A partir de agora, já me aguarda a merecida
coroa, que me entregará, naquele dia, o Senhor justo juiz» – pensaria
ele, com o Apóstolo (2 Tm 4,7-8).
Pois, como Paulo, também
considerava tudo o mais um mau negócio, à vista de Cristo, com quem se
tinha já crucificado (Gl 6,14).
Não que se arrogasse qualquer
mérito nisso. Mas porque nessa mesma noite, ouviu em espírito uma voz
que lhe disse: «Alegra-te e rejubila no meio dos teus sofrimentos e
tribulações: de hoje em diante vive em paz, como se participasses já do
meu reino.»
Assim, podia cantar, antecipando
o abraço definitivo com a Cruz:
Louvado
sejas, meu Senhor, por nossa irmã a morte corporal,
à qual nenhum homem vivente pode escapar.
Francisco fizera, naquela noite,
uma autêntica experiência de morte. Como Cristo no calabouço de Anás, à
espera de ir a tribunal:
«Lançaste-me na
cova mais profunda,
na escuridão do
abismo.»
(Sl 88,7)
Ou na cruz, vivendo o drama de
Filho e de Homem que era:
«Meu Deus, meu Deus,
porque me abandonaste?»
(Mc 15,34)
E também:
«Pai, nas tuas mãos
entrego o meu espírito.»
(Lc 23,46)
***
O dia começava a clarear,
por detrás da Rocca Maior.
Bandos de andorinhas passavam,
dando os bons dias.
Na respiração da terra,
Francisco sentia a vida
renascer.
Soerguendo-se, a custo, pensou:
«Os sofrimentos deste mundo nada
são,
comparados com a glória que nos
espera.»
E, encarando o futuro de frente,
quando os olhos voltavam a
sentir o aguilhão da luz,
cantou a oração da manhã,
personalizando o louvor anónimo
de todas as criaturas:
Louvado
sejas, meu Senhor,
com todas
as tuas criaturas,
especialmente o meu senhor irmão Sol,
o qual faz
o dia e por ele nos alumias.
Louvado
sejas, meu Senhor,
pela irmã
lua e as estrelas,
pelo irmão
vento,
pelo ar e
pelas nuvens,
pelo
sereno e por todo o tempo.
Louvado
sejas, meu Senhor,
pela irmã
água, pelo irmão fogo,
pela nossa
irmã, a mãe terra.
Louvado
sejas, meu Senhor,
por
aqueles que perdoam por teu amor
e suportam
enfermidades e tribulações.
Louvado sejas,
meu Senhor,
por nossa irmã,
a morte corporal.
Louvai e bendizei a meu Senhor,
e dai-lhe
graças e servi-o com grande humildade.
___________
Fontes Franciscanas:
Legenda Perusina
42, 43, 48, 100.
Espelho de Perfeição
100, 101, 119, 120, 123.
Tomas
de Celano, Vida
Segunda 213-214, 217.
frei
Lopes Morgado