|
Viver a pobreza em fraternidade
Sendo
a pobreza
evangélica
um
dos
aspectos
principais
da
nossa
vida
franciscana,
lembrei-me
de a comparar
a uma
casa espiritual
que
devemos
edificar,
no
ambiente
da
nossa
fraternidade.
E
logo
me
ocorreu
o que
disse
Jesus: "Quem
escuta as minhas palavras e as põe em prática é como o homem prudente
que edifica a sua casa sobre a rocha... Quem ouve as minhas
palavras e não as põe em prática é semelhante ao homem néscio
que edifica a sua
casa
sobre a areia"
(Mt
7,24-27).
Se compararmos
esta
casa com
o nosso projecto
de
pobreza
evangélica,
também
podemos
afirmar:
aquele
que
ouve
o convite
do
Senhor
"vem
e segue-Me"
e, na verdade, deixa tudo
e todos
para
seguir
os passos de
Jesus,
esse edifica
a casa do
seu
voto
de
pobreza,
sobre
a rocha!
Aquele,
porém,
que
ouve
o convite
do Senhor:
"vem",
e vai,
mas
sem
partir
da sua
terra,
ou
seja,
sem
abandonar
tudo
quanto
o envolve
-
família,
parentela,
amizades,
posição
social,
a casa
paterna e toda
aquela
teia
das
suas relações
de
cidadão
deste
mundo,
etc.,
esse edifica
a sua
pobreza sobre a areia!
Do
mesmo
modo, aquele
que
ouve
o convite
de
Jesus:
"segue-Me",
e dispõe-se
a segui-Lo
mas sem
deixar radicalmente todos
os seus
bens
e tudo quanto
tem,
quanto
adquiriu,
quanto
herdou,
ganhou
e recebeu,
ou
virá
a adquirir,
a herdar
e a receber,
esse edifica
a sua
pobreza
sobre
a areia.
Assim,
também,
o que ouve o
convite
do
Senhor:
"vem
e segue-me"
mas
não
se resolve
decididamente
a renunciar a si mesmo:
aos
seus
critérios,
aos
seus
pontos
de
vista,
à sua
mentalidade,
à sua
mundivisão,
às suas
inclinações
naturais,
ao
seu
amor
próprio
e à idolatria
do
seu
eu, esse
edifica
a casa da
pobreza
sobre
a
areia.
Aquele,
porém,
que edifica a
pobreza sobre o seguimento da pessoa adorável de Jesus
que ele conhece,
ama, e
a quem se entrega apaixonadamente de alma e coração, esse
resiste a todas as intempéries.
Cai a chuva da
sociedade de consumo que inunda todos os escaparates da nossa
praça.
Engrossam os rios
dos bens supérfluos que nos alagam com a sua abundância. Sopram
os ventos de todas as vaidades e de todas as modas,
e de tudo
quanto reluz e encanta os sentidos.
Mas a casa da
pobreza não cai porque está fundada sobre a rocha.
Aquele que edifica o
seu projecto de pobreza,
unicamente
sobre uma certa simpatia por um estilo de vida pobre que outros
colegas ou amigos já adoptaram e que segundo as leis implica uma
certa renúncia ou parcimónia no comer, no vestir e no habitar,
mas sem uma referência inspiracional e vital,
e profunda à
pessoa de Jesus pobre e crucificado,
esse não
resiste às intempéries e investidas da riqueza.
Cai a chuva
da sociedade de consumo,
e ele
deixa-se tentar por tantas coisas que seduzem aqueles que ainda
são presa fácil dos bens materiais.
Engrossam os rios
da abundância dos bens supérfluos, que estão muito para além das
verdadeiras necessidades e reais carências da vida humana,
e ele
deixa-se enredar por um sem número de objectos pessoais de que
não precisa para viver mas de que não se consegue libertar!
Sopram os ventos
de todas as novidades e curiosidades que vêm rechear o nosso
teor de vida - no comer,
no vestir,
no calçar,
no passear,
no
divertir-se,
no conviver -
e lá somos nós atraídos para dar nas vistas e perdemos muito da
nossa simplicidade e austeridade, devorados pelos últimos gritos
da moda.
E a nossa Casa da
Pobreza desmorona-se e é grande a sua ruína.
Concluímos que viver
a pobreza em fraternidade é, antes de mais, seguir a doutrina e
exemplo de Nosso Senhor Jesus Cristo,
que diz:
"Se queres ser perfeito, vai e vende quanto tens e dá o seu
preço aos pobres, e terás um tesouro no Céu, e vem e segue-me".
(Mt 19,2 1; 1 Reg. 1,2).
Continuando a
comparar a nossa pobreza à casa que devemos construir e onde
queremos viver, podemos atender a cinco aspectos
fundamentais da mesma casa: a planta, a cor, as janelas, as
portas e o telhado.
Se a vemos de longe,
é a configuração do telhado que primeiramente nos é dado
observar. Se a vemos de perto,
o que mais
imediatamente nos fere a sensibilidade é a luminosidade da sua
cor: mais clara ou mais escura;
mais viva ou
mais mortiça; mais agressiva ou mais discreta, ou,
então,
a total
ausência de cor!
Em segundo lugar,
damo-nos conta das linhas da sua planta: maior ou mais pequena;
mais linear ou complicada; mais tradicional ou mais ousada; com
ou sem varandas e escadas!
A seguir,
reparamos
nas
suas
janelas:
mais rasgadas
ou menos
abertas;
mais
desenhadas
ou mais rectangulares;
em maior ou
menor número,
em proporção
à medida
da planta.
Finalmente,
detemo-nos
a observar
as portas:
se
largas
ou
mais
estreitas;
mais
altas ou mais
baixas;
mais fortes
ou mais
frágeis;
com
desenhos
de
alto relevo
ou mais
lisas.
Vendo-a de fora,
não
conseguimos
apercebermo-nos
do recheio
e da
mobília.
Mas
tanto
de
fora
como
de
dentro,
há
uma
coisa
que não
conseguimos
ver: os
seus
alicerces.
O mais
fundamental
não se
vê.
E
nos
alicerces
há um
elemento
ainda mais importante:
a pedra
angular.
Se
o mais
fundamental
não se
vê,
nem por fora
nem
por
dentro,
o
mais
precioso
só se vê por
dentro:
a beleza
da
decoração
e
a preciosidade
da mobília.
Comparando
a
pobreza
a esta
casa,
podemos
dizer que a
pedra
angular
que dá coesão
aos alicerces
e firmeza
a todo
o edifício
é a
pessoa
adorável
de Jesus!
É Ele quem
toma
possível
e
dá
fundamento
à
pobreza
evangélica!
Quem
usufruir
da sua
amizade
pessoal
encontrou
o tesouro
escondido
cujo valor
supera
infinitamente
todos
os
outros
valores.
A
decoração
e o recheio
da
mobília que
só
se vêem
penetrando no interior
da casa,
significam
a
pobreza
espiritual com
todo
o recheio
das bem-aventuranças.
É toda
a riqueza
dos dons
do
Espírito Santo.
A
felicidade e
a
alegria
que estes dons
nos
transmitem
fazem
com
que nos
sejam
supérfluas
e incómodas
todas
as
riquezas
materiais.
O
Espírito
de Jesus
que
nos
inunda
e se
nos
oferece
enche-nos
de vida,
e vida em
abundância!
Assim
como
quem se deleita
com
a beleza
e a maravilha
interior
da
casa
aposentos
próprios,
cozinha,
lareira,
dispensa
recheada,
sala
dei
jantar,
sala
de
estar,
conforto
físico
e acolhedor,
alimentação
abundante
e saborosa,
doce
convívio,
ambiente
de
festa,
de
luz e
som,
etc.
-
não
se
preocupa
com o que
se vê no
exterior
da casa,
assim
também,
quem
experimenta
a riqueza
da
pobreza
espiritual
não
se
preocupa
com
a
riqueza
material,
simbolizada
pelo exterior
da
casa.
Na verdade,
quem consegue
desfrutar
da
riqueza interior
da
casa
não
se
importa
com
a configuração
do
telhado,
com
a luminosidade
da
cor
de
fora,
com
as
linhas
exteriores
das
janelas,
com
a
altura
ou largura
das
portas
nem com
as
dimensões
da
superfície
das
paredes.
Assim,
quem
vive
da
plenitude
gratificante
dos
valores
espirituais,
que
lhe
enchem
a alma
de gozo e
de
alegria,
não
pode
entusiasmar-se
nem deixar-se
prender
pelos bens
passageiros,
superficiais
e exteriores.
Entre
estes
bens
espirituais,
contam-se
em primeiro
lugar
os
dons
do Espírito
Santo
(Sabedoria,
Entendimento,
Conselho,
Fortaleza,
Ciência,
Piedade,
Temor
de
Deus);
a
ternura do amor
de Deus Pai
que
nos chama
a tomar parte
na
Sua
vida divina;
a graça,
a
bondade,
a justiça, a
amizade, a liberdade e a paz que nos vêm de Jesus, nosso
Caminho, Verdade e Vida!
De facto, que
vale a esperteza dos que triunfam na vida,
comparando-a
com a Sabedoria do Espírito, pela qual somos capazes de
saborear a vida em plenitude, experimentando como Deus é bom,
como é bela a vida e como é agradável e jucundo viverem os
irmãos em fraternidade!?
Que vale todo o
fulgor da inteligência humana
se o compararmos com
o Dom do Entendimento que é participação, já na terra, da
luz da glória que nos iluminará no Céu?
Que vale toda a
cultura
dos nossos sábios e toda a experiência dos anciãos, a quem
recorremos para pedir opinião e parecer, nos momentos difíceis
da vida,
comparada com
o Dom do Conselho, pelo qual discernimos,
a cada hora e
momento, qual a vontade de Deus a nosso respeito?
Que vale, toda a
força física e moral
dos maiores valentes
e audazes,
que se
entregam, sem temor, às mais ousadas façanhas, se a compararmos
com o Dom da Fortaleza, pelo qual somos capazes, com o
Espírito de Cristo, de levar até ao fim, com a fidelidade dos
heróis,
a empresa
espiritual a que lançamos ombros, quando renovamos as promessas
do nosso baptismo, quando fizemos o juramento da nossa profissão
de fé cristã,
e,
quando nos
entregamos generosamente à nossa vida consagrada?
Que vale toda a
investigação
dos iluminados deste
mundo que perscrutam os segredos da Natureza e os meandros da
filosofia da história, sem conseguirem desvendar o mistério da
vida,
se a
compararmos com o Dom da Ciência, pelo qual conseguimos
olhar para o Homem e para o Universo, com a limpidez esclarecido
e esclarecedora do próprio olhar de Deus?
Que vale todo o
sentimento
de consideração,
compaixão e pena e até mesmo de solidariedade e justiça social,
entre os
seres humanos, se o compararmos com o Dom da Piedade,
pelo qual nutrimos,
nas nossas
relações com Deus transcendente,
um carinhoso
sentimento de filiação divina,
de quem se
sente profundamente amado por Deus Pai e Mãe?
Dom da
Piedade.
pelo qual
também experimentamos nas nossas relações familiares,
sociais e
económicas. políticas e religiosas,
um sentimento
de caloroso afecto para com todo o ser humano,
a quem amamos
como irmão?
Que vale todo o
deslumbramento
e todo o espanto
perante o belo e o horrível da natureza; perante as forças
desencadeados do universo em fúria;
perante o
poder destruidor das guerras clássicas e modernas; perante o
prestígio avassalador dos super-homens,
se tudo isto
compararmos com o Dom do Temor de Deus, pelo qual nos
iniciamos na sabedoria da vida"
Pelo qual nos
introduzimos na atmosfera do encanto estremecedor de quem
contempla a grandeza,
o poder,
a sabedoria,
a glória e a
santidade de Deus?
Numa
palavra,
que valem
os bens temporais,
materiais
ou morais,
em comparação
com
os bens do Espírito,
que transcendem
o tempo e o
espaço
e perduram
para além da morte?
Quem desfruta
a felicidade
da
riqueza
que nos vem
da pobreza
espiritual
não pode deixar-se
seduzir
pela riqueza
material.
Concluímos
que
para viver
a pobreza
em fraternidade,
no
tocante
aos
bens
materiais,
é
necessário
deixar-nos
antes
apaixonar
pelos bens
espirituais,
ou seja,
pela
riqueza
|