PAZ e BEM! Bem-vindo à Página dos Frades Missionários Capuchinhos

Página Principal


São Francisco Assis


Espírito de Assis


Porciúncula


Ordem Capuchinhos


Missão em Timor


Onde Vivemos


Espaço Jovem


Música


Apontadores


 
Franciscanismo

Estudos

 

 

Viver a pobreza em fraternidade

 

 

Sendo a pobreza evangélica um dos aspectos principais da nossa vida franciscana, lembrei-me de a comparar a uma casa espiritual que devemos edificar, no ambiente da nossa fraternidade.

E logo me ocorreu o que disse Jesus: "Quem escuta as minhas palavras e as põe em prática é como o homem prudente que edifica a sua casa sobre a rocha... Quem ouve as minhas palavras e não as põe em prática é semelhante ao homem néscio que edifica a sua casa sobre a areia" (Mt 7,24-27).

Se compararmos esta casa com o nosso projecto de pobreza evangélica, também podemos afirmar: aquele que ouve o convite do Senhor "vem e segue-Me" e, na verdade, deixa tudo e todos para seguir os passos de Jesus, esse edifica a casa do seu voto de pobreza, sobre a rocha!

Aquele, porém, que ouve o convite do Senhor: "vem", e vai, mas sem partir da sua terra, ou seja, sem abandonar tudo quanto o envolve - família, parentela, amizades, posição social, a casa paterna e toda aquela teia das suas relações de cidadão deste mundo, etc., esse edifica a sua pobreza sobre a areia!

Do mesmo modo, aquele que ouve o convite de Jesus: "segue-Me", e dispõe-se a segui-Lo mas sem deixar radicalmente todos os seus bens e tudo quanto tem, quanto adquiriu, quanto herdou, ganhou e recebeu, ou virá a adquirir, a herdar e a receber, esse edifica a sua pobreza sobre a areia.

Assim, também, o que ouve o convite do Senhor: "vem e segue-me" mas não se resolve decididamente a renunciar a si mesmo: aos seus critérios, aos seus pontos de vista, à sua mentalidade, à sua mundivisão, às suas inclinações naturais, ao seu amor próprio e à idolatria do seu eu, esse edifica a casa da pobreza sobre a areia.

 

Aquele, porém, que edifica a pobreza sobre o seguimento da pessoa adorável de Jesus que ele conhece, ama, e a quem se entrega apaixonadamente de alma e coração, esse resiste a todas as intempéries.

Cai a chuva da sociedade de consumo que inunda todos os escaparates da nossa praça.

Engrossam os rios dos bens supérfluos que nos alagam com a sua abundância. Sopram os ventos de todas as vaidades e de todas as modas, e de tudo quanto reluz e encanta os sentidos.

Mas a casa da pobreza não cai porque está fundada sobre a rocha.

Aquele que edifica o seu projecto de pobreza, unicamente sobre uma certa simpatia por um estilo de vida pobre que outros colegas ou amigos já adoptaram e que segundo as leis implica uma certa renúncia ou parcimónia no comer, no vestir e no habitar, mas sem uma referência inspiracional e vital, e profunda à pessoa de Jesus pobre e crucificado, esse não resiste às intempéries e investidas da riqueza.

 

Cai a chuva da sociedade de consumo, e ele deixa-se tentar por tantas coisas que seduzem aqueles que ainda são presa fácil dos bens materiais.

Engrossam os rios da abundância dos bens supérfluos, que estão muito para além das verdadeiras necessidades e reais carências da vida humana, e ele deixa-se enredar por um sem número de objectos pessoais de que não precisa para viver mas de que não se consegue libertar!

Sopram os ventos de todas as novidades e curiosidades que vêm rechear o nosso teor de vida - no comer, no vestir, no calçar, no passear, no divertir-se, no conviver - e lá somos nós atraídos para dar nas vistas e perdemos muito da nossa simplicidade e austeridade, devorados pelos últimos gritos da moda.

E a nossa Casa da Pobreza desmorona-se e é grande a sua ruína.

 

Concluímos que viver a pobreza em fraternidade é, antes de mais, seguir a doutrina e exemplo de Nosso Senhor Jesus Cristo, que diz: "Se queres ser perfei­to, vai e vende quanto tens e dá o seu preço aos pobres, e terás um tesouro no Céu, e vem e segue-me". (Mt 19,2 1; 1 Reg. 1,2).

 

Continuando a comparar a nossa pobreza à casa que devemos construir e onde queremos viver, podemos atender a cinco aspectos fundamentais da mesma casa: a planta, a cor, as janelas, as portas e o telhado.

Se a vemos de longe, é a configuração do telhado que primeiramente nos é dado observar. Se a vemos de perto, o que mais imediatamente nos fere a sensibilidade é a luminosidade da sua cor: mais clara ou mais escura; mais viva ou mais mortiça; mais agressiva ou mais discreta, ou, então, a total ausência de cor!

Em segundo lugar, damo-nos conta das linhas da sua planta: maior ou mais pequena; mais linear ou complicada; mais tradicional ou mais ousada; com ou sem varandas e escadas!

A seguir, reparamos nas suas janelas: mais rasgadas ou menos abertas; mais desenhadas ou mais rectangulares; em maior ou menor número, em proporção à medida da planta.

Finalmente, detemo-nos a observar as portas: se largas ou mais estreitas; mais altas ou mais baixas; mais fortes ou mais frágeis; com desenhos de alto relevo ou mais lisas.

Vendo-a de fora, não conseguimos apercebermo-nos do recheio e da mobília. Mas tanto de fora como de dentro, há uma coisa que não conseguimos ver: os seus alicerces. O mais fundamental não se vê. E nos alicerces há um elemento ainda mais importante: a pedra angular.

Se o mais fundamental não se vê, nem por fora nem por dentro, o mais precioso só se vê por dentro: a beleza da decoração e a preciosidade da mobília.

 

Comparando a pobreza a esta casa, podemos dizer que a pedra angular que dá coeo aos alicerces e firmeza a todo o edifício é a pessoa adorável de Jesus! É Ele quem toma possível e dá fundamento à pobreza evanlica! Quem usufruir da sua amizade pessoal encontrou o tesouro escondido cujo valor supera infinitamente todos os outros valores.

A decoração e o recheio da mobília que só se vêem penetrando no interior da casa, significam a pobreza espiritual com todo o recheio das bem-aventuranças. É toda a riqueza dos dons do Espírito Santo. A felicidade e a alegria que estes dons nos transmitem fazem com que nos sejam supérfluas e incómodas todas as riquezas materiais. O Esrito de Jesus que nos inunda e se nos oferece enche-nos de vida, e vida em abundância!

Assim como quem se deleita com a beleza e a maravilha interior da casa ­ aposentos próprios, cozinha, lareira, dispensa recheada, sala dei jantar, sala de estar, conforto físico e acolhedor, alimentação abundante e saborosa, doce convívio, am­biente de festa, de luz e som, etc. - não se preocupa com o que se vê no exterior da casa, assim também, quem experimenta a riqueza da pobreza espiritual não se preocupa com a riqueza material, simbolizada pelo exterior da casa.

Na verdade, quem consegue desfrutar da riqueza interior da casa não se importa com a configuração do telhado, com a luminosidade da cor de fora, com as linhas exteriores das janelas, com a altura ou largura das portas nem com as dimensões da superfície das paredes.

 

Assim, quem vive da plenitude gratificante dos valores espirituais, que lhe enchem a alma de gozo e de alegria, não pode entusiasmar-se nem deixar-se prender pelos bens passageiros, superficiais e exteriores. Entre estes bens espirituais, contam-se em primeiro lugar os dons do Espírito Santo (Sabedoria, Entendimento, Conselho, Fortaleza, Ciência, Piedade, Temor de Deus); a ternura do amor de Deus Pai que nos chama a tomar parte na Sua vida divina; a graça, a bondade, a justiça, a amizade, a liberdade e a paz que nos vêm de Jesus, nosso Caminho, Verdade e Vida!

De facto, que vale a esperteza dos que triunfam na vida, comparando-a com a Sabedoria do Espírito, pela qual somos capazes de saborear a vida em plenitude, experimentando como Deus é bom, como é bela a vida e como é agradável e jucundo viverem os irmãos em fraternidade!?

Que vale todo o fulgor da inteligência humana se o compararmos com o Dom do Entendimento que é participação, já na terra, da luz da glória que nos iluminará no Céu?

Que vale toda a cultura dos nossos sábios e toda a experiência dos anciãos, a quem recorremos para pedir opinião e parecer, nos momentos difíceis da vida, comparada com o Dom do Conselho, pelo qual discernimos, a cada hora e momento, qual a vontade de Deus a nosso respeito?

Que vale, toda a força física e moral dos maiores valentes e audazes, que se entregam, sem temor, às mais ousadas façanhas, se a compararmos com o Dom da Fortaleza, pelo qual somos capazes, com o Espírito de Cristo, de levar até ao fim, com a fidelidade dos heróis, a empresa espiritual a que lançamos ombros, quando renovamos as promessas do nosso baptismo, quando fizemos o juramento da nossa profissão de fé cristã, e, quando nos entregamos generosamente à nossa vida consagrada?

Que vale toda a investigação dos iluminados deste mundo que perscrutam os segredos da Natureza e os meandros da filosofia da história, sem conseguirem desvendar o mistério da vida, se a compararmos com o Dom da Ciência, pelo qual conseguimos olhar para o Homem e para o Universo, com a limpidez esclarecido e esclarecedora do próprio olhar de Deus?

Que vale todo o sentimento de consideração, compaixão e pena e até mes­mo de solidariedade e justiça social, entre os seres humanos, se o compararmos com o Dom da Piedade, pelo qual nutrimos, nas nossas relações com Deus transcendente, um carinhoso sentimento de filiação divina, de quem se sente profundamente amado por Deus Pai e Mãe? Dom da Piedade. pelo qual também experimentamos nas nossas relações familiares, sociais e económicas. políticas e religiosas, um sentimento de caloroso afecto para com todo o ser humano, a quem amamos como irmão?

Que vale todo o deslumbramento e todo o espanto perante o belo e o horrível da natureza; perante as forças desencadeados do universo em fúria; perante o poder destruidor das guerras clássicas e modernas; perante o prestígio avassalador dos super-homens, se tudo isto compararmos com o Dom do Temor de Deus, pelo qual nos iniciamos na sabedoria da vida" Pelo qual nos introduzimos na atmosfera do encanto estremecedor de quem contempla a grandeza, o poder, a sabedoria, a glória e a santidade de Deus?

Numa palavra, que valem os bens temporais, materiais ou morais, em comparação com os bens do Espírito, que transcendem o tempo e o espaço e perduram para além da morte?

Quem desfruta a felicidade da riqueza que nos vem da pobreza espiritual não pode deixar-se seduzir pela riqueza material.

 

Concluímos que para viver a pobreza em fraternidade, no tocante aos bens materiais, é necessário deixar-nos antes apaixonar pelos bens espirituais, ou seja, pela riqueza