“Era melhor
teres vindo à mesma hora – disse a raposa
[ao
principezinho].
Se vieres, por exemplo, às quatro horas,
às três, já eu começo a ser feliz. E
quanto mais perto for da hora,
mais feliz me sentirei. Às quatro em
ponto já hei-de estar toda
agitada e
inquieta: é o preço da felicidade! Mas se chegares
a uma hora
qualquer, eu nunca saberei a que horas é
que hei-de
começar a arranjar o meu coração, a vesti-lo,
a pô-lo bonito…
São precisos rituais.”
(ANTOINE
DE SAINT-EXUPÉRY: O Principezinho, Edit. Caravela, p. 70)
Sabemos a que
horas o Príncipe dos príncipes e Senhor do senhores deixa as regiões
da morte e vem animar o coração da Humanidade e da Criação com a
Festa da sua Páscoa. Este ano, precisamente a 16 de Abril. É por
isso que estamos a viver o “ritual” da Quaresma, que “faz com que
um dia seja diferente dos outros dias e uma hora, diferente das
outras horas” – segundo a experiente explicação dada pela raposa
ao Principezinho.
Para além do “jejum corporal”
Francisco de
Assis, o Sonhador de uma Páscoa sem fim para todos, sentiu a
necessidade interior de “arranjar o seu coração, de o vestir, de o
pôr bonito” por uma série de Quaresmas. Quem ler a Segunda
Regra que ele escreveu, ficará um tanto perplexo com as suas
palavras:
«E jejuem os irmãos desde a Festa de Todos os Santos até ao Natal do
Senhor. Mas a santa Quaresma que começa na Epifania e se estende por
quarenta dias contínuos, a qual o Senhor com o seu santo jejum
consagrou (Mt 4,2), os que voluntariamente a jejuam, sejam
benditos do Senhor, e os que a não quiserem jejuar, não sejam
obrigados; mas jejuem a outra Quaresma até à Ressurreição do Senhor.
E não têm os irmãos obrigação de jejuar noutros dias, a não ser à
sexta-feira. Mas quando houver manifesta necessidade, não sejam
obrigados a jejum corporal»
(cap. 4).
Destaco alguns
pormenores do texto, dignos de registo:
●
a insistência na palavra / realidade “irmãos”;
●
as várias
Quaresmas na Fraternidade Franciscana;
●
o respeito pela liberdade pessoal;
●
a
abertura de horizontes, para além do “jejum corporal”…
As
várias “Quaresmas” de S. Francisco de Assis
São Francisco
fala de três Quaresmas. Mas ele ainda viveu e propôs outras.
Seis, ao todo:
●
a
Quaresma da Epifania ou “Santa”, porque vivida e
“santificada” pelo Senhor Jesus (7 de Janeiro a 15 de Fevereiro);
●
a
Quaresma da Ressurreição do Senhor (de Quarta-feira de
Cinzas até à Páscoa);
●
a
Quaresma de São Pedro e São Paulo, como manifestação de amor
à santa Igreja (de 20 de Maio a 29 de Junho);
●
a
Quaresma da Assunção de Nossa Senhora (de 29 de Junho a 15
de Agosto);
●
a
Quaresma de São Miguel Arcanjo (de 15 de
Agosto a 25 de Setembro); e
●
a
Quaresma do Advento ou da Encarnação (da Festa de Todos os
Santos até ao Natal) do Senhor.
Vivência, mais do que penitência
Qual o espírito
que animava o Santo de Assis nestes “tempos fortes”?
Não tanto de
penitência, mas de vivência do mistério a celebrar:
●
do
mistério de Cristo,
unindo o Cristo da Encarnação
e o
Cristo da Paixão.
●
do
mistério de Maria,
“Virgem convertida em Igreja”.
●
do
mistério dos Anjos e dos Santos,
nossos intercessores
e modelos
de santidade.
O seu objectivo
não era o afastamento, mas a comunhão. Por isso, o resultado
traduz-se não tanto na austeridade de vida, mas na solidariedade e
na partilha com todas as pessoas e criaturas. Sempre a partir da
solidariedade com Jesus Cristo Crucificado, com quem, durante uma
delas, ficou bem identificado interna e externamente ao receber, a
14 ou 15 de Setembro de 1224, as cinco Chagas impressas no seu
corpo.
As motivações do Santo
São Boaventura,
biógrafo e intérprete espiritual de Francisco, deixou-nos as
motivações profundas dessas Quaresmas:
A imagem de Jesus Cristo Crucificado nunca lhe saía
do espírito, como o ramalhete de mirra da Esposa dos Cânticos; e na
veemência do seu amor extático suspirava por transformar-se
inteiramente em Cristo Crucificado.
Uma das suas devoções particulares consistia em se recolher à
solidão durante
os
quarenta dias que se seguiam à Epifania,
correspondentes àqueles que Cristo passou no deserto: recolhido na
sua cela, reduzindo ao mínimo a comida e a bebida, dedicava-se sem
interrupção ao jejum, à oração e aos louvores do Senhor. Consagrava
a Cristo um amor tão vivo, e o Bem-amado, em troca, mostrava para
com ele uma ternura tão familiar, que o servo de Deus parecia sentir
fisicamente diante dos olhos a presença contínua do Salvador, como
por várias vezes confidenciou a companheiros. […]
Dedicava um amor indizível à Mãe de Jesus, por ter sido ela que
nos deu por irmão o Senhor da majestade, e por meio dela termos
alcançado misericórdia. Depois de Cristo, era nela que depositava
mais confiança, e por isso a escolheu como padroeira para si e para
os seus, e em sua honra jejuava com grande fervor
desde a festa de S. Pedro e S. Paulo até à Assunção.
Também se sentia ligado por indissolúveis laços de amor aos
espíritos angélicos, cujo ardor maravilhoso os lança em êxtase
diante de Deus e inflama as almas dos eleitos. Por devoção para com
eles fazia uma Quaresma de jejum e oração durante
os
quarenta dias que se seguem à Assunção
da Virgem gloriosa. Ao Arcanjo S. Miguel especialmente, por ser ele
o encarregado de fazer a apresentação das almas no céu, dedicava uma
particular devoção, em virtude do zelo que o devorava em salvar
todos os homens”
(SÃO
BOAVENTURA: Legenda Maior, cap. IX, nº 2 e 3)
Destaquemos o início e o final do texto: Jesus Cristo
Crucificado – princípio e motor de toda a vida, oração e acção
de Francisco; e salvar todos os homens – suprema
aspiração deste missionário apaixonado de Cristo e da Humanidade. Só
com estes dois pólos se entende a sua aventura revolucionária.
Sem amor a Cristo e a todos os homens e
mulheres, não se entende nenhuma das seis Quaresmas vividas por
Francisco de Assis! Como tão-pouco se entende a Quaresma que
nos é concedida para viver, mais uma vez, como “o tempo favorável” e
“o dia de salvação”.
Para
a nossa Quaresma
As motivações de
Francisco, na vivência das suas Quaresmas, foram
●
as mesmas
que o Povo de Deus do Antigo Testamento foi descobrindo para
selar uma Aliança com o Deus Libertador;
●
as mesmas
que Jesus viveu e apresentou no Sermão da Montanha (ver Mt
6,1-18);
●
as mesmas
que a Igreja nos propõe: esmola
– como descoberta da partilha e solidariedade com os pobres;
oração – como intimidade com o
Deus do Amor total e da Vida em abundância;
jejum – como ideal de uma vida
simples e respeitadora da Criação.
Nesta Quaresma,
procuremos:
●
ler, com
calma, o Evangelho de Jesus Cristo segundo São Marcos,
como quem saboreia as palavras do Senhor;
●
embrenhar-nos no ‘Ofício da Paixão’, composto por
Francisco de Assis para seguir no dia-a-dia os passos de Jesus Cristo,
uma espécie de “via-sacra” antecipada (ver Fontes Franciscanas).
Tudo isto, para:
●
“arranjar o coração”,
extirpando todo o vírus, corrupção e violência;
●
“vesti-lo”
com os sentimentos de serviço e misericórdia que havia em Cristo
Jesus; e
●
“pô-lo bonito”, com a beleza que nos vem da Páscoa florida do
Ressuscitado.
frei Acílio Mendes