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PÁSCOA
um Mundo outro é possível!
A Páscoa
é o coração e o centro da Bíblia, do Ano Litúrgico e da vida
cristã. Só a partir da Páscoa podemos compreender e celebrar os
“mistérios” de Cristo: o seu nascimento, vida pública, anúncio
do Reino, paixão e morte… Só a partir do Cristo Vivo da Páscoa
podemos compreender e celebrar a Eucaristia, cada um dos
Sacramentos, o Domingo, a criação, o trabalho, a doença e a
morte… Devemos ao Concílio Vaticano II uma visão pascal
do mistério de Cristo e da existência cristã. Antes dele, até há
40 anos, insistiu-se com excesso e parcialidade nos aspectos
sacrificiais da vida cristã. Foi o Concílio que fez chegar a
todo o Povo de Deus uma percepção bíblica, litúrgica e
existencial mais aprofundada do “Mistério Pascal”.
A partir do
seu encontro com o Crucificado de São Damião, a suprema
originalidade de Francisco foi seguir em tudo e sempre a vida,
as opções e os sentimentos de Jesus Cristo vivo, interpelante,
pascal. Gráfica é a síntese com que Tomás de Celano
encerra o capítulo sobre os últimos momentos de Francisco:
«Chegou, enfim, a sua hora. Realizados nele todos os mistérios
de Cristo, voou ditosamente para Deus» (Vida
Segunda, 217, 11).
Dimensão pascal da vida de Francisco
São
Boaventura aproveita um episódio acontecido em Greccio para
sublinhar esta dimensão pascal da vida do Poverello e dos seus
primeiros seguidores: «Dirigiu-lhes a palavra [aos
Irmãos] para lhes mostrar, segundo as Santas Escrituras, que
eram os verdadeiros Hebreus, a atravessar o deserto deste mundo
como peregrinos e estrangeiros; e que, por isso, deviam
celebrar constantemente em pobreza de espírito a Páscoa do
Senhor, isto é, a passagem deste mundo para o Pai” (Legenda
Maior, VII, nº 9).
A “passagem
deste mundo para o Pai” é precisamente a grande reviravolta que
Francisco sofre e nos conta logo no início do seu
Testamento. Após
falar da sua experiência com os leprosos, diz: «E ao
afastar-me deles, o que antes me parecera amargo, converteu-se
para mim em doçura de alma e de corpo: e em seguida, passado um
pouco de tempo, saí do mundo» (nº 3).
Por graça de
Deus, Francisco saiu definitivamente do “mundo” das
desigualdades e da injustiça e passou para o “mundo” do Pai, de
misericórdia para com todos, especialmente com os “leprosos” de
todos os tempos. Eis a sua verdadeira Páscoa! Eis o Francisco
verdadeiramente pascal!
Viver a Páscoa é tornar-se Irmão menor e servo de todos
Para este
enamorado de Cristo, cada dia é uma verdadeira Quinta-Feira
Santa. Na sua Primeira
Regra, Francisco faz uma ligação imediata entre o ser
irmão menor e o lavar os pés – numa referência explícita a Jesus
Cristo, em Quinta-Feira Santa, uma das imagens que tanto o
impressionou: «Todos, indistintamente, se chamem irmãos
menores. E lavem os pés uns aos outros» (cap. VI, 9).
Outra
ligação que ele faz é entre servir e lavar os pés: «Eu não
vim para ser servido, mas para servir, diz o Senhor (Mt 20,28).
Os que receberam o ofício de mandar nos outros, tanto se gloriem
desse ofício, quanto se gloriariam se fossem encarregados de
lavar os pés aos irmãos» (Exortação
4,1-2).
Assim, ser
franciscano é ser irmão menor, pequenino disposto a servir os
outros, lavando-lhes os pés, enxugando-lhes as lágrimas,
acolhendo os seus anseios de amor e de misericórdia. Este é o
frontispício do Mistério Pascal: a Quinta-Feira Santa.
Viver a Páscoa é continuar em si a Paixão de Cristo Jesus
Para o
apaixonado do Crucificado, cada dia é uma verdadeira
Sexta-Feira Santa. Há uma continuidade e vivência cada vez
mais exigente entre o encontro com o Cristo de São Damião e a
identificação com o Crucificado do Alverne, simbolizada nas
cinco chagas impressas no corpo de Francisco, dois anos antes da
sua morte.
O autor das
“Considerações Sobre as
Chagas” (cap. III) coloca nos lábios de Francisco esta
ousada súplica: «Senhor meu Jesus Cristo, rogo me concedas
duas graças antes de morrer: a primeira é que eu sinta no corpo
e na alma, quanto seja possível, a dor que Tu, doce Jesus,
sofreste no tormento da tua acerba Paixão; a segunda é que eu
sinta no meu coração, quanto possível, aquele excessivo amor em
que Tu, Filho de Deus, ardias quando sofreste voluntariamente
tantos tormentos por nós, pecadores.» Uma graça de dor e uma
graça de amor…
Em plena
Festa da Exaltação da Santa Cruz, Francisco tem a visão do
Serafim com seis asas resplandecentes como fogo… Diz São
Boaventura: «A visão, entretanto, desaparecera, deixando-lhe
o coração a arder em chama viva – e deixando-lhe também o corpo
marcado em chagas vivas. Foi assim que um amor autêntico
transformou o amigo na imagem do amado» (Legenda
Maior, XIII, 3.5).
Contemplar
Francisco é contemplar Cristo – Aquele Cristo que se “apaixonou”
por nós, amando-nos até à loucura da Cruz, para que também nos
amemos uns aos outros até à loucura da cruz e da morte.
É esta
“Paixão” que Francisco canta no seu famoso Ofício da Paixão
do Senhor. Uma “Paixão” que tem o seu clímax no Tríduo
Pascal (I Parte), o centro no Tempo Pascal (II Parte)
e o prolongamento nos Domingos e Festas principais (III
Parte), incluindo o Advento, Natal e Epifania.
Assim, cada
dia é uma nova oportunidade para agradecermos a loucura do amor
de Deus por nós. Cada dia traz-nos a possibilidade de vivermos a
“compaixão” por todos os crucificados e escorraçados pela
sociedade, atraindo-os ao amor, única força que nos torna
verdadeiramente livres, fraternos e felizes.
Viver a Páscoa é sonhar cada manhã como nova Ressurreição
Para
Francisco de Assis, chamado “Cristo redivivo”, cada dia é um
Dia de Páscoa:
● a Festa de Cristo Ressuscitado,
● a Festa da Criação libertada da
escravidão,
● a Festa da Humanidade redimida na
Morte de Cristo,
● a Festa da Vida a jorrar em
abundância do Lado aberto de Cristo,
● a Festa da Luz vencedora de todas
as trevas,
● a Festa do Amor triunfando sobre
todos os ódios…
Para
Francisco e os seus seguidores, a Páscoa é o Tempo do Sonho e da
Utopia: Cristo ressuscitou! Um Mundo outro é possível!
Frei Acílio Dias Mendes |