Nossa irmã, a
mãe Terra
Numa
pesquisa feita recentemente em 19 países da Europa
acerca
da honestidade das pessoas, os portugueses, embora
não
sendo os mais desonestos em tudo, apresentamos índices
verdadeiramente preocupantes. Sintetizo apenas alguns
indicadores.
Assim, 27%
dos portugueses somos capazes de roubar toalhas num hotel; 31%,
viajar de comboio sem pagar; 49%, levar para casa material do
escritório; 23%, estacionar em lugares reservados a deficientes;
21%, passar à frente nas filas; 41%, ocultar rendimentos nos
impostos; 19%, conduzir depois de beber; 75%, copiar
ilicitamente programas informáticos…
Da ecologia da natureza à ecologia humana e social
Perante
estes dados, é urgente o alerta de Bento XVI, na
sua
Mensagem para o Dia Mundial da Paz a 1 de Janeiro, de que a
ecologia não pode limitar-se ao meio ambiente:
«Ao lado da
ecologia da natureza existe uma ecologia que
podemos designar “humana”, a qual, por sua vez,
requer uma “ecologia social”. E isto requer que a
humanidade, se tem a peito a paz, tome consciência cada vez mais
das ligações existentes entre a ecologia natural, ou seja, o
respeito pela natureza, e a ecologia humana. A experiência
demonstra que toda a atitude de desprezo pelo ambiente
provoca danos à convivência humana, e vice-versa. Surge
assim com mais evidência um nexo inseparável entre a paz com a
criação e a paz entre os homens. Uma e outra pressupõem a paz
com Deus. A poesia-oração de S. Francisco, conhecida também como
“Cântico do Irmão Sol”, constitui um admirável exemplo – sempre
actual – desta variada ecologia da paz.»
Por isso,
desprezar ou destruir a natureza, o ambiente, a nossa “casa
comum”, é destruir as possibilidades para uma vida
verdadeiramente humana, pacífica, reconciliada.
Francisco de Assis, Padroeiro da Ecologia
A motivação
profunda desta relação entre o ambiente e a pessoa humana,
apresentou-a João Paulo II a 29 de Novembro de 1979, na
bula «Inter Sanctos», em que proclamou S. Francisco de
Assis como Padroeiro dos cultivadores da Ecologia:
«Entre os
santos e os homens ilustres que tiveram um singular culto pela
natureza, como magnífico dom feito por Deus à humanidade,
inclui-se justamente S. Francisco de Assis. Com efeito,
ele teve em grande apreço todas as obras do Criador e, com
inspiração quase sobrenatural, compôs aquele belíssimo “Cântico
das Criaturas”, através das quais […] rendeu ao omnipotente e
bom Senhor o devido louvor, glória, honra e toda a bênção.»
Estamos
muito longe da pobre oração que, até à reforma do Concílio
Vaticano II, se rezava na festa de São Francisco de Assis, a 4
de Outubro:
«Ó
Deus, que, pelos méritos de São Francisco, enriquecestes a Vossa
Igreja, dando-lhe uma nova família, concedei-nos a graça
de desprezar-mos, a seu exemplo, todos os bens terrenos e
de nos alegramos sempre com a participação dos bens celestiais.»
Soa a
insulto, quase blasfémia, pedir a Deus – o entusiasmado Artista
dos dias da Criação – que, a exemplo (?!) de Francisco de Assis,
o “irmão” apaixonado de todas as criaturas, nos conceda a graça
de as desprezarmos! Quanta aberração maniqueísta numa
espiritualidade desencarnada e descomprometida com as realidades
terrestres!
De tão
preocupados com o Céu, deixávamos os cuidados da contemplação e
transformação da Terra aos indiferentes, agnósticos e ateus.
Esquecendo a Palavra de Deus, do Génesis ao Apocalipse,
agarrámo-nos a filosofias e práticas não evangélicas. Nem sequer
Jesus Cristo, feito homem e mergulhado nas realidades culturais
e sociais do seu tempo, nos abriu os olhos e os ouvidos para
vermos e escutarmos a nossa mãe e irmã Terra…
Com olhos verdadeiramente baptizados
O nosso
filósofo Leonardo Coimbra, em “S. Francisco de Assis e
a visão franciscana da vida” vai por outro itinerário:
«S.
Francisco é o homem espontaneamente cristão, é, pois, o homem
que reencontrará a Natureza paradisíaca, aquele que é o tipo
divino, que é a ideia-acto do pensamento criador.
[…]
Francisco de Assis ardeu nessa fornalha, nela purificou o
coração e os olhos, e é com renovados olhos, olhos
verdadeiramente baptizados, que ele olha a água, o fogo, os
cordeiros, o lobo, a terra, a Lua, o Sol e as aves… […]
Francisco de Assis não via só a Natureza com olhos inocentes,
via-a suspensa do infinito Amor, que a gerou e a sustenta»
(pág. 145-147).
O biógrafo
Tomás de Celano já exprimia esta vertente:
«Em todas
as criaturas ele cantava o Artífice; tudo o que nelas via o
referia ao Criador. Exultava de alegria em todas as obras saídas
da mão de Deus e, através desta visão letificante, remontava-se
Àquele que é a causa e o princípio que lhes dá vida. Nas coisas
belas reconhecia a suprema Beleza, pois a todas ele ouvia
proclamar:
“Quem nos criou é infinitamente bom». Pelas marcas impressas
na natureza, seguia ao encontro do Amado e de tudo se servia
para subir ao seu trono”.» (Vida II, nº 165).
Em todas as
criaturas, Francisco descobria e cantava a sabedoria, o poder, a
bondade e a ternura do «omnipotente e bom Senhor». De olhos
baptizados e coração em sintonia com o Criador.
Frei Acílio Dias Mendes
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Da ecologia à “ecosofia”
Hoje,
torna-se urgente ultrapassar uma simples “ecologia”,
reduzida a um frio tratado racional das coisas, numa
tentativa equilibrista entre o respeito e a poluição do meio
ambiente. Só o Espírito de Deus nos poderá fazer penetrar
numa verdadeira “ecosofia”, uma sabedoria que nos leve a
saborear, com entusiasmo, a beleza e a harmonia do cosmos, o
encanto do mar e das montanhas, o deixar-se encantar com uma
flor ou uma borboleta, com a sinfonia do vento e dos
riachos… E sobretudo, a gozosa descoberta de sabermos que o
Senhor tudo dispôs para uma fraternização universal. Irmãos
da Terra, dos Céus e dos Mares. Irmãos das Estrelas e dos
Átomos. Irmãos dos Homens e das Mulheres. Porque criaturas e
filhos do Pai celeste.
A.M.
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