|
MARIA: filha, mãe, esposa
É
conhecido o velho axioma: “A Jesus por Maria”. Nem
outra pode
ser a missão de Maria: apontar para o seu Filho
Jesus, que
é também o Filho muito amado do Pai.
Só Cristo
é «o Caminho, a Verdade e a Vida» (Jo 14,6).
Só em
Cristo escutamos «palavras de vida eterna» (Jo 6,68).
Só por
Cristo nos é oferecido, em abundância,
o “vinho”
da alegria, da salvação e da felicidade.
Vão
neste sentido as últimas palavras de Maria, que a Bíblia nos
transmite, no contexto das bodas em Caná da Galileia.
Dirigindo-se aos serventes, a Mãe de Jesus diz-lhes: «Fazei o
que Ele vos disser!» (Jo 2,5). Mas também podemos dizer: «A
Maria por Jesus.» Quanto mais aprofundarmos o mistério
insondável de Jesus Cristo, na sua realidade humana e divina,
tanto mais nos encontraremos com a vocação e a missão de Maria
de Nazaré.
Assim foi
com os primeiros cristãos: o anúncio, a celebração da fé e o
testemunho missionário centrava-se em Cristo e no seu Mistério
Pascal. Em tudo e em todos, Jesus tinha sempre o «primeiro
lugar» (Cl 1,18). Depois, ao aprofundarem este mistério, é
que foram descobrindo, celebrando e testemunhando a presença e
acção de Maria na vida de Jesus e na vida e missão da Igreja.
Francisco o apaixonado de Cristo
O mesmo
aconteceu com Francisco. Após o encontro inicial com o Crucifixo
de S. Damião, a sua única paixão será por Jesus Cristo: escutar
as suas palavras, seguir os seus passos numa fidelidade
contagiante, amar os que Ele amou, deixando-se transformar
“noutro Cristo”, terminando os seus dias numa total
identificação com Ele e orientando para Ele a vida da
Fraternidade iniciada por si.
Diz o seu
biógrafo Tomás de Celano: «Os irmãos que viveram com ele sabem
muito bem como a toda a hora lhe aflorava aos lábios a
recordação de Jesus e com que enlevo e ternura sobre Ele
discorria. Da abundância do coração falava a boca, e a fonte de
amor iluminado que por dentro o enchia transbordava fora em
fervente cachão. Que intimidades as suas com Jesus! Trazia
Jesus no coração, Jesus nos lábios, Jesus nos ouvidos, Jesus nos
olhos, Jesus nas mãos, Jesus presente sempre em todos os seus
membros!» (Vida Primeira: 115,3-5).
Maria fez irmão nosso o Senhor da majestade
Em Cristo,
Francisco descobre a presença, sempre discreta e eficaz, de
Maria.
Celano
informa como Francisco estabelecia esta profunda ligação entre
Maria e Jesus: «Rodeava de um amor indizível a Mãe de Jesus,
por ter feito irmão nosso o Senhor de toda a majestade. Em sua
honra cantava louvores especiais, erguia-lhe súplicas,
consagrava-lhe afectos, tantos e tais que nenhuma língua humana
os conseguiria exprimir.» (Vida Segunda: 198,1-2).
Destes
“louvores especiais”, dois merecem particular menção: a
Antífona “Santa Virgem Maria”, do Ofício da Paixão do
Senhor, e a Saudação à Bem-aventurada Virgem Maria. Hoje,
apenas transcrevo a Antífona para sublinhar a sua perspectiva
trinitária:
“Santa Virgem Maria,
não veio a este mundo mulher semelhante a ti,
filha e serva do Rei altíssimo, o
Pai
celeste,
mãe de nosso santíssimo Senhor
Jesus Cristo,
esposa do
Espírito Santo,
roga por nós juntamente com São Miguel Arcanjo
e todas as Virtudes do céu e todos os Santos,
a teu santíssimo e dilecto Filho, nosso Senhor e Mestre”.
Merece ser
registada a nota que a acompanha: «Esta antífona diz-se a
todas as Horas, e serve de antífona, de capítulo, de hino, de
versículo e oração, quer a Matinas quer nas demais Horas. E o
bem-aventurado Francisco, em cada uma das Horas, não recitava
mais que esta antífona com os respectivos salmos”. Ou seja:
ele e os seus irmãos rezavam-na pelo menos sete vezes ao dia –
tantas como eram, então, as Horas do Ofício.
Como noutros
casos, Francisco recorreu a uma antiga oração da Festa da
Assunção da Virgem Maria. Transcrevo-a para se verem as
semelhanças e as diferenças, e a riqueza da experiência
teológica de Francisco: “Virgem Maria, não veio a este mundo
mulher semelhante a ti, esplendente como uma rosa, fragrante
como um lírio, roga por nós a teu Filho.”
Maria mergulha na Trindade Santíssima
Na versão de
Francisco, são muitos os títulos e as aclamações com que ele
exalta a Mãe de Jesus: santa, virgem, mulher, filha, serva,
mãe, esposa. Mas, o que mais impressiona é a contemplação de
Maria na sua relação pessoal e familiar com cada Pessoa da
Santíssima Trindade, deixando de lado as alegorias da natureza –
rosas e lírios... Trata-se da genuína e mais actualizada
teologia mariana, sobretudo a partir do Concílio Vaticano II!
●
Maria, “filha e serva do Rei altíssimo,
o Pai celeste”. Na origem de tudo está o Pai celeste,
o Todo-Poderoso que fez maravilhas em Maria para cumprir a
História da Salvação na «plenitude do tempo» (Gl 4,4).
Maria foi escolhida e disse: Sim! – «Faça-se em mim» (Lc
1,38).
●
Maria, “mãe de nosso santíssimo Senhor
Jesus Cristo”. A grandeza de Maria é ter “humanizado”
o próprio Deus, ao dá-lo à luz em Belém. Nela, o Deus do céu
torna-se o «Deus connosco» (Mt 1,23). Como mãe, é chamada
a interceder por nós a seu “santíssimo e dilecto Filho, nosso
Senhor e Mestre”.
●
Maria, “esposa do Espírito Santo”.
Talvez tenha sido Francisco o primeiro a aplicar este ousado
título a Maria, de forma tão explícita e orante. Já o anjo do
Senhor alertara José: «O que ela concebeu é obra do Espírito
Santo» (Mt 1,20).
“Quero ser como tu, Maria”
Hoje
evidencia-se muito a Virgem Maria como “figura” e “ícone” da
Igreja. Francisco já dizia que as maravilhas feitas em Maria
pela Santíssima Trindade podem ser realizadas no coração de
quantos acolhem o projecto de Deus como ela. Por isso, escreveu
a todos os fiéis, com este desassombro: «E são filhos
do Pai celeste, cujas obras fazem; e são esposos,
irmãos e mães de nosso Senhor Jesus Cristo. Somos
esposos, quando pelo Espírito Santo a alma se une a nosso
Senhor Jesus Cristo. Somos seus irmãos, quando cumprimos
a vontade de seu Pai que está nos céus; somos suas mães,
quando o levamos no coração e no corpo pelo divino amor e pela
pura e sincera consciência, e quando o damos à luz pelas santas
obras, que devem brilhar aos olhos de todos para seu exemplo”
(1ª Carta a Todos os Fiéis, 7-10).
Que Maria
nos leve ao colo e nos ajude a mergulhar no mistério da Trindade
Santíssima! A exemplo de Francisco, o apaixonado de Cristo, o
cantor das glórias da Santa Virgem Maria.
Frei Acílio Dias Mendes |