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Bem-vinda
seja a minha irmã Morte!
De 2006 a
2009, a Família Franciscana celebra os 800 anos
da Conversão
e Vocação do jovem Francisco de Assis.
Por todo o
País, serão lembrados alguns marcos mais salientes
neste
acontecimento jubilar, decisivo para a Igreja e para
o Mundo. A
influência do carisma franciscano, da visão franciscana da
vida foi, é
e continuará a ser factor de transformação da sociedade
e de
unificação nas relações humanas e internacionais.
A morte de
cada pessoa projecta uma nova luz acerca de todo o seu viver,
agir, pensar, sofrer e sonhar. Assim acontece com o Pobrezinho
de Assis.
Francisco de
Assis, o “homem do Apocalipse”
À luz da
morte e ressurreição de Jesus, há uma acentuada “diferença” na
interpretação do misterioso complexo da pessoa: o nascer, o
viver, o morrer. Não como ilusão epidérmica ou ópio analgésico.
Mas como fonte geradora de um optimismo sadio e de luta por um
humanismo redentor. O último livro da Bíblia – precisamente o
livro da “Revelação” ou Apocalipse – conclui com a grande
batalha entre as “bestas” da Morte e do Abismo e os seguidores
do Cordeiro, cujos nomes estão escritos no livro da Vida. E
surge a grandiosa visão de um “novo céu e uma nova terra”, onde
“não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor. O
próprio Deus estará com os homens e será o seu Deus” (Ap
21,1-4).
Francisco de
Assis é chamado o “homem do Génesis”, pela sua reconciliação
consigo mesmo, com todas as pessoas e todos os seres da criação,
com o Altíssimo, Omnipotente e Bom Senhor. Agora, ao reflectir
nos últimos momentos que ele passa sobre a mãe e irmã Terra, bem
o podemos chamar o “homem do Apocalipse”, pela sua revelação de
um novo modo de viver, de sonhar e de morrer. Tudo assumido e
transformado em Cristo. É a “revolução” do franciscanismo.
Melhor: é a mais genuína “revolução” do Cristo do Evangelho e
dos seus audazes seguidores.
Tomás de
Celano, o conhecido biógrafo de Francisco, escreve de modo
lapidar:
“Como um dos rios do Paraíso, este novo evangelista dos
últimos tempos inundou o mundo inteiro com as águas vivas do
Evangelho e, com o exemplo, pregou o caminho do Filho de Deus e
a sua doutrina de verdade”
(Vida Primeira, 89,4).
Os dados são
conhecidos. Mas, vale sempre a pena voltar a eles uma e outra
vez, para melhor compreendermos a acção do Espírito de Deus na
vida de Francisco, assim como a influência por ele exercida no
mundo da teologia, da espiritualidade, da poesia, da arte, da
música, da ecologia…
Em Francisco
realizam-se os mistérios de Cristo
Voltemos a
Tomás de Celano. Deixemo-nos penetrar da evangélica descrição
que ele nos faz dos últimos momentos de Francisco:
“Enquanto os
irmãos choravam amargamente e se lamentavam inconsoláveis,
mandou o Pai [Francisco] que lhe trouxessem pão. Abençoou-o,
partiu-o e deu um bocado a cada um. Quis também que lhe levassem
o livro dos Evangelhos e lhe lessem o Evangelho segundo São João
a partir da frase que começa com estas palavras: «Antes da
festa da Páscoa, etc. (Jo 13,1ss). Tinha presente aquela
sacratíssima ceia que o Senhor celebrou pela última vez com os
discípulos. Tudo isto ele o fez, com efeito, em veneranda
memória daquela ceia e para testemunhar a ternura que tinha
pelos irmãos.
Passou em
acção de graças os poucos dias que lhe restaram de vida e
convidou os companheiros mais queridos a louvarem com ele a
Cristo. Ele mesmo entoou como pôde o salmo: “Em alta voz
clamo ao Senhor, em alta voz imploro o Senhor, etc. (Sl
142). Convidou também as criaturas todas a louvarem a Deus e,
com estrofes que já antes compusera, exortou-as a amá-Lo. Até a
própria morte, para todos tão odiosa e terrível, ele exortava ao
louvor, e, saindo-lhe ao encontro com ânimo alegre, convidou-a a
hospedar-se em sua casa: «Bem-vinda seja – dizia – a
minha irmã morte».
Após alguns
apelos ao médico e aos irmãos, Celano conclui em síntese
lapidar:
“Chegou
enfim a sua hora. Realizados nele todos os mistérios de Cristo,
voou ditosamente para Deus” (Vida Segunda, 217,1-11).
“Realizados nele todos os mistérios de Cristo…” Nesta
afirmação está o segredo de toda a vida de Francisco de Assis: a
sua paixão por Cristo e por todas as paixões que Cristo veio
lançar aos que se propõem segui-l’O com o entusiasmo dos
enamorados. Francisco de Assis foi o homem que deixou
realizarem-se nele todos os mistérios de Cristo. Na vida e na
morte, quis ser simplesmente o “cristão”. Viver por Cristo, com
Cristo e em Cristo. Ser um outro Cristo.
Cantar a
Irmã Morte
É fácil
entoar hinos à vida! Francisco ousou cantar a Morte, tratá-la
docemente por “Irmã” e inclui-la na procissão de todas as
criaturas no louvor ao seu Senhor! Ao pressentir que se
aproximava o termo da sua peregrinação sobre a terra, pede os
confrades mais íntimos que lhe entoem o Cântico do Irmão Sol
ou Cântico das Criaturas, que ele mesmo tinha composto um
ano antes. Como homem ressuscitado, já vencedor da morte,
acrescenta-lhe a última estrofe:
“Louvado sejas, ó meu Senhor, por nossa irmã a Morte corporal,
à qual nenhum homem vivente pode escapar.
Ai daqueles que morrem em pecado mortal!
Bem-aventurados aqueles que cumpriram a tua santíssima vontade,
porque a segunda morte não lhes fará mal.”
(Espelho de Perfeição: 123)
“Cumpri a
minha missão…”
Ao
aproximar-se para ele a “hora do triunfo”, Francisco deixa aos
irmãos de todos os tempos o maior desafio da vida:
“Cumpri a
minha missão; Cristo vos ensine a cumprir a vossa”
(Tomás de
Celano: Vida Segunda, 214,9).
Frei Acílio Dias Mendes |