A cena passa-se num qualquer dos nossos aeroportos.
Como toda a gente, também eu sou inquirido pela polícia se
levo
comigo algum líquido, água, por exemplo… Respondo, com
calma e alguma ironia, que sim e que é mesmo bastante água a
que transporto comigo. Compreendo a surpresa da fiscal –
nalguns
aeroportos com ares de autêntica paranóia, suspeitando um
terrorista
em cada passageiro. Tranquilizo-a referindo o que todos
sabemos:
mais de 70 por cento do meu corpo (a rondar os 90 quilos!)
é… água!
Em Timor: água ou petróleo?
Penso estas linhas ainda em Timor-Leste. Desde criança que
não me lembro de ta
nta
chuva. Ora torrencial e de rompante; ora miudinha e
persistente. Horas e horas sem parar. Foi assim em quase
todos os dias de Dezembro. Talvez por isso, as montanhas de
Timor se apresentem agora revestidas de um verde sem fim, a
encantar-nos o olhar e o coração. Como provocador convite a
uma pacificação sempre mais consistente entre os timorenses,
com um novo País a construir… Para um Mundo «melhor e mais
verde». Evoco a alegria com que missionários e jovens
timorenses nos encontrámos, a 12 Kms. de Díli, junto ao poço
de Tíbar, em fase de acabamento e onde, a 20 metros de
profundidade, foi localizado o tão almejado líquido. Evoco
ainda aqueles 20 litros de água que pusemos em cada uma das
três simbólicas árvores plantadas por três responsáveis dos
Franciscanos Capuchinhos em três diferentes Continentes: a
Árvore da Vocação (Bahia e Sergipe / Brasil), a Árvore da
Fraternidade (Portugal) e a Árvore da Solidariedade
(Austrália). Porque, sem água ninguém vive: nem as pessoas,
nem os animais, nem as plantas, nem as flores.
A Irmã Água
Água = UHPC. Não. Não se trata de uma nova fórmula química
da água. Todos conhecemos a fórmula científica que define a
composição química da água: H2O. Tão-somente uma sigla
franciscana ainda por desvendar: UHPC.
«Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã água,
que é tão útil, e humilde, e preciosa e casta».
Assim se expande Francisco de Assis no seu famoso Cântico do
Irmão Sol ou Cântico das Criaturas.
O Poeta de Assis louva o seu Senhor pela «irmã água». Porque
ela é Útil, Humilde, Preciosa, Casta.
UHPC: Está desvendado o segredo da nova fórmula da irmã
água.
A irmã água é
Útil:
Já pensaste na fatalidade de, pela manhã, não encontrar
pinga de água no chuveiro? Em Cabo Verde há Ilhas em que se
passaram dezenas de anos sem chover! Recordo com emoção o
«assalto» que os participantes de um Curso Bíblico fizeram a
um «poço» onde ritualmente tinham sido deitados os sete
cântaros de água, a evocar as diferentes águas em que somos
envolvidos, desde o seio materno até à água baptismal… O
alerta vem-nos de um provérbio chinês: «Cava o poço antes
de teres sede».
Celebrar, a 22 de Março, o Dia Mundial da Água, é
proclamar que o acesso à água, como elemento não apenas
«útil», mas essencial para a vida, é um direito universal.
No entanto, cada dia morrem mais de 30 mil pessoas (entre
elas, 6 mil crianças) por falta de água ou vítimas de
doenças provocadas pela água contaminada. O direito humano à
água é indispensável para a concretização de outros direitos
e um elemento chave para o desenvolvimento sustentável e
duradouro… A água é propriedade de todos os seres vivos do
planeta, e não privilégio de alguns. Entretanto, 87% do
consumo mundial de água é feito por apenas 10% da população.
Os contrastes são gritantes: Nestes dez dias, as cheias em
Moçambique já causaram várias dezenas de mortos e dezenas de
milhares de deslocados. Por outro lado, o degelo dos
glaciares ao longo da costa da Antárctica acelerou 75%
nestes últimos dez anos e atingiu os 192 mil milhões de
metros cúbicos em 2006, quantidade de água suficiente para
inundar um país como a Holanda, deixando-a submersa a 4,6
metros de profundidade…
A irmã água é
Humilde:
Quem não lembra aquela gotinha de água que, na Eucaristia, o
sacerdote mistura com o vinho do cálice? E pensar que,
naquela quase despercebida gota de água, está simbolizada
toda a humanidade mergulhada em Cristo! O mundo é salvo por
pessoas que, no escondimento, vivem o amor, o perdão, o
serviço. Fala quem assim viveu: «Por
vezes sentimos que aquilo que fazemos não é senão uma gota
de água no mar. Mas o mar seria menor se lhe faltasse uma
gota» (Madre Teresa de
Calcutá).
A irmã água é
Preciosa: Foi na água que, há cerca de 3.800 milhões de
anos, surgiu a vida na terra. A Bíblia abre com um solene
pórtico: «No princípio, quando Deus criou os céus e a
terra, a terra era informe e vazia, as trevas cobriam o
abismo e o espírito de Deus movia-se sobre a superfície das
águas» (Gn 1,1-2). E conclui, no Apocalipse, com um dos
últimos desafios de Jesus: «O que tem sede que se
aproxime; e o que deseja beba gratuitamente da água da vida»
(Ap 22,17).
Dizem que, no futuro, a actual guerra do petróleo (os tais
«direitos humanos» dos americanos na diabólica guerra do
Iraque!) será substituída pelo conflito com a água. Os
números são da ONU: a escassez de água já atinge dois
biliões de pessoas, números que podem duplicar em menos de
20 anos! Esbanjar este património comum que é a água é um
acto criminoso e assassino! Poupar água (tomar um duche
rápido em vez de banho de imersão) é uma urgência
humanitária. Francisco de Assis, mesmo quando o ardor da
sede o atormentava, limitava-se a beber o estritamente
necessário! (LM 5,1)
A irmã água é
Casta:
«Depois do fogo, S. Francisco amava particularmente a
água, porque simbolizava a penitência e as tribulações em
que se lavam as imundícies da alma; e porque a primeira
ablução da alma se faz pela água do baptismo». A
biografia «Espelho de Perfeição» assim começa o
capítulo 118, sobre o singular amor de São Francisco pela
água, pedras, árvores e flores. Como de toda a criatura,
também da água Francisco escuta uma voz a prolongar os
primeiros versículos da Bíblia: «Deus fez-me para ti, ó
homem!»
Na «castidade» da irmã água, os cristãos renascem pelo
Baptismo para uma vida nova, a vida em Cristo, a nascente de
água viva. Travar a poluição dos rios, dos mares, dos
oceanos é um acto profundamente religioso.
«Nunca perca a fé na
humanidade, pois ela é como um oceano. Só porque existem
algumas gotas de água suja nele, não quer dizer que ele
esteja completamente sujo» (Mahatma
Ghandi).
Na água, o futuro da Humanidade
A nossa irmã Água é útil, humilde, preciosa e casta. Na água
está o futuro da Humanidade!
Com o Salmista, rezamos:
«Por Vós suspiro, Senhor,
como terra árida,
sequiosa, sem água.» (Sl 63,2)