Pelo
Espírito, um crucificado entre dois malfeitores torna-se fonte
de Vida e de Esperança. Pelo Espírito, um grupo de tímidos
discípulos de Jesus de Nazaré transforma-se em Igreja
apostólica, profética, missionária, serva dos pobres.
Primeira e última
necessidade da Igreja
Há 35
anos, Paulo VI, conhecendo bem o mundo moderno –
simultaneamente gigante maravilhoso em ciência e poder, e,
tantas vezes, limitado e cego quanto aos verdadeiros valores
do amor e da vida –, questionava-se sobre qual seria, para a
Igreja, a sua primeira e última necessidade. E respondia:
«Devemos
dizê-lo, mesmo trémulos e orantes, porque é o seu mistério, a
sua vida: o Espírito, o Espírito Santo, animador e
santificador da Igreja, a sua respiração divina, o vento das
suas velas, o seu princípio unificador, a sua nascente
interior de luz e de força, o seu sustento e a sua consolação,
a sua nascente de carismas e de cantos, a sua paz e a sua
alegria… A Igreja tem necessidade de um perene Pentecostes;
tem necessidade de fogo no coração, de palavra nos lábios, de
profecia no olhar.»
(Audiência
geral na quarta-feira de 29 de Novembro de 1972).
Ter o Espírito do Senhor
Francisco
de Assis surgiu na sociedade e na Igreja do seu tempo como um
vendaval do Espírito Santo. Seja como brisa, seja como vento
impetuoso. Nele, tornaram-se realidade as necessidades
apontadas por Paulo VI: «fogo no coração, palavra nos lábios,
profecia no olhar».
Fogo,
palavra e profecia: dons do Espírito a que Francisco se tornou
sensível. Dons que ele abraçou, viveu, partilhou e deixou como
herança aos seus Irmãos e a todas as pessoas de boa vontade.
Ainda hoje, Francisco é fogo
que ilumina, entusiasma, atrai; é
palavra de verdadeiro evangelista a arder no mais
íntimo do nosso ser, como boa-nova que seduz e arrasta; é
profecia
de um Mundo mais fraterno, solidário, espiritual e
justo.
Quando
jovem ambicioso, Francisco de Assis experimentou os valores e
grandezas que a sociedade lhe poderia oferecer. Mas um vazio
interior esmagava-o. Só a reviravolta do Cristo dos leprosos e
do Evangelho preencheram as suas ânsias de infinito.
Por isso,
na sua segunda Regra, aprovada com bula papal, deixou
escrito, como quem aponta a sua própria experiência, para que
os Irmãos presentes e futuros não se perdessem no secundário e
acessório e fossem directos ao essencial da vida: «Atendam
ao que sobre todas as coisas devem desejar: ter o espírito do
Senhor e a sua santa actuação» (2R 10,8-9).
O Evangelho:
coração da vida cristã
A Família
Franciscana prepara-se para celebrar, em 2009, os 800 anos
dessa aprovação da Regra ou «projecto de vida evangélica».
Quando Francisco de Assis, com os seus primeiros onze
companheiros, se dirigiram a Roma, e manifestaram ao Papa
Inocêncio III um estranho desejo, uma inaudita utopia: viver
segundo o Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo!
O
acontecimento vai mobilizar as três Ordens (Franciscanos,
Irmãs Clarissas e Terceiros), os muitos Institutos,
Congregações e movimentos, e todos os amigos e simpatizantes
de São Francisco – homens e mulheres que, dentro e fora da
Igreja Católica, se revêem nos seus valores ou se interessam
pelo seu carisma.
Os
Superiores desta Família Franciscana, a nível mundial,
escreveram uma Carta preparatória da celebração, sobre a
origem do carisma franciscano. E afirmam que o Evangelho é
«o coração da vocação franciscana, é a chave que abre o acesso
ao imenso espaço da ‘boa-nova’ de Deus e de Jesus».
Esta
identidade, que é viver o Evangelho, constitui ainda hoje, na
perspectiva da Carta, um «grande desafio» para a
Família Franciscana, para a Igreja e para o Mundo. E só o
Espírito do Senhor nos conduzirá à descoberta da «novidade
e juventude do Evangelho».
Famintos de Espírito
Em 1979,
na sua primeira Carta Encíclica (Redemptor Hominis, nº
18) João Paulo II constatava que o nosso tempo é um «tempo
particularmente faminto de Espírito, porque faminto de
justiça, de paz, de amor, de bondade, de fortaleza, de
responsabilidade e de dignidade humana». Hoje, a fome é
ainda mais premente.
A prece é
insistente e universal: «Vem, Espírito Santo!»
Francisco de Assis, já «abrasado pelo fogo do Espírito»,
conclui a Carta a toda a Ordem com esta oração: