São Francisco de Assis
e a Eucaristia
Frei Hermano Filipe, OFMCap.
Este Ano da
Eucaristia foi uma boa oportunidade
para toda a
Igreja reflectir mais aprofundadamente
no grande
mistério da presença constante e fiel de Cristo
na Comunidade
Cristã, que se junta em seu nome
para fazer
memória do seu nascimento,
paixão, morte
e ressurreição.
Aqui,
proponho-me falar do tema
a partir da
vivência real e concreta
de São
Francisco de Assis,
tendo em
conta a proximidade da sua Festa
no próximo
dia 4 de Outubro.
SÃO FRANCISCO
DE ASSIS (1182-1226)
tinha poucos estudos. Por isso, a sua fé não estava sustentada por
grandes teorias nem foi sua intenção escrever qualquer tratado
teológico. Mas a forma como vivia o sacramento da Eucaristia deixava
transparecer uma grande frescura evangélica, pois tinha percebido a
presença do próprio Cristo, ainda que de forma simbólica, também nas
criaturas, na Palavra de Deus, nos doentes e nos pobres – elementos de
uma Fraternidade Universal conduzida pela presença fiel de Cristo. E
tudo isto, quando certos movimentos heréticos ganhavam força e
conseguiam influenciar negativamente algumas Comunidades Cristãs.
Daí ser importante analisarmos,
primeiro, o contexto histórico-religioso que o influenciou e o levou
procurar uma perfeição evangélica mais exigente.
1.
O contexto histórico-religioso de São
Francisco de Assis
Não é por acaso que o tema da
Eucaristia aparece muitas vezes nos escritos de São Francisco. Por um
lado, amante como é da santa Igreja, sente-se impelido a lutar contra os
movimentos heréticos do seu tempo; por outro, dotado de um profundo
fervor eucarístico, não pode deixar de exortar os seus irmãos a
prestarem cada vez maior reverência ao Santíssimo Sacramento.
A sua época – finais do séc. XII
e princípios do séc. XIII – está cheia de contradições no plano
eucarístico: o povo não compreende a Eucaristia nem participa nela, e a
comunhão torna-se cada vez mais rara; a própria Igreja, mergulhada numa
emergente sociedade mercantilista deixa-se muitas vezes corromper pelo
poder civil e parece mais preocupada com os aspectos disciplinares do
que doutrinais e espirituais. Os cristãos não encontram nem no clero nem
nos monges quem os ajude a sentir desejos de perfeição evangélica.
Perante isso, a Igreja tenta
renovar-se, primeiro com as reformas realizadas pelo papa Gregório VII
(1073-1085) e mais tarde com o quarto concílio de Latrão, convocado em
1215 pelo papa Inocêncio III (1198-1216), no qual Francisco participou.
Com a reforma gregoriana,
assistimos à renovação da vida monástica e ao surgimento de novos
movimentos eremíticos que procuram dedicar-se totalmente à oração e à
penitência como reacção a uma vida demasiado voltada para a sensualidade
e a busca de riquezas e de poder. Mas aparecem também grupos evangélicos
heterodoxos, como o dos Cátaros
que, embora
procurem levar uma vida de austeridade e pobreza, rejeitam diversos
dogmas e disposições doutrinais da Igreja e repudiam a própria
hierarquia eclesiástica.
Francisco, pelo contrário,
percebe que a sua vocação para viver o Evangelho em fraternidade, em
pobreza e como pregador itinerante não se pode realizar a não ser dentro
da Igreja.
A sua adesão à fé e às disposições da Igreja romana é total, ao ponto de
sentir um amor filial pelo papa;
mas o seu modo de pensar e viver o sacramento da Eucaristia constitui
uma novidade na medida em que “parece beber” directamente do Evangelho.
Assim se compreende a confiança que Deus deposita nele, quando lhe
ordena que repare a sua Igreja quase em ruínas.
2.
A
experiência da presença de Cristo
Na narração da última Ceia, São
João deu especial realce ao gesto do lava-pés
(Jo 13,3-1).
Não porque as palavras proferidas por Jesus não fossem importantes
(eram-no, seguramente), mas porque preferiu realçar aquele gesto que,
embora se enquadrasse de algum modo nos ritos próprios da ceia pascal
judaica, primava pela originalidade na medida em que quis lavar aos seus
discípulos não as mãos, como era hábito, mas os pés – uma acção própria
dos escravos, a indicar que o serviço aos irmãos é também um memorial da
sua presença.
Ao escrever a forma de vida que
desejava para os seus irmãos, Francisco vai usar precisamente esta
passagem do Evangelho de São João, convidando-os à menoridade que
se deve traduzir por gestos como o de lavarem os pés uns aos outros.
Tinha compreendido que a Eucaristia, onde o Senhor está «presente de um
modo verdadeiro, real e substancial, com o seu corpo e o seu sangue, com
a sua alma e a sua divindade»,
como havia prometido aos seus discípulos,
deve levar o cristão a um sério compromisso com os pobres.
Francisco percebeu que Jesus
está presente de um modo muito especial sob as espécies eucarísticas,
como se manifesta na reverência que tinha para com o Santíssimo
Sacramento,
as Igrejas
e os Sacerdotes;
mas percebeu também a presença simbólica do mesmo Jesus onde estiverem
reunidos dois ou três em seu nome,
nos pobres, nos leprosos e nos presos, nos mais pequeninos e nas mais
humildes criaturas.
Vejamos.
A presença real
de Cristo na Eucaristia
Depois da fracção do pão,
durante a última Ceia, Jesus convidou os seus discípulos a repetirem
aquele mesmo gesto em sua memória.
Tal gesto foi acolhido com obediência e gratidão por Francisco de Assis,
que dizia:
«O pão
nosso de cada dia, o teu dilecto Filho nosso Senhor Jesus Cristo,
nos dá hoje, para memória, e inteligência e reverência do amor que
nos teve, e de quanto por nós disse, fez e suportou.»
Francisco «jamais deixava de ter
presentes, em aprofundada contemplação, […] a humildade da Encarnação e
a caridade da Paixão»
e exortava os irmãos a acreditarem, pela fé, na presença real de Cristo
na Eucaristia,
que «agora se mostra a nós no pão sacramentado»,
presente «como auto-dom de si mesmo».
Francisco «ardia de amor em
todas as fibras do seu ser para com o Sacramento do Corpo do Senhor e
[…] comungava com tal devoção que tornava devotos os que o viam.»
Queria que os seus irmãos participassem todos os dias na Eucaristia
porque, dizia ele, «ninguém se pode salvar sem receber o santíssimo
Corpo e Sangue do Senhor»;
mas, ao saber que vários sacerdotes celebravam várias missas por dia
apenas por dinheiro, pediu, na Carta a toda a Ordem, que se
celebrasse apenas uma missa por dia em cada comunidade e que nas
comunidades em que houvesse vários sacerdotes os outros se contentassem
em ouvir a missa daquele que celebrava.
Francisco «consagrava a Cristo
um amor tão vivo […] que parecia sentir fisicamente diante dos olhos a
presença contínua do Salvador»,
percebendo que é sobretudo no sacrifício eucarístico, nessa constante
doação do seu próprio Filho ao homem, que Deus se manifesta como
Amor, Sumo Bem.
O Cristo presente na Eucaristia é o mesmo que está nos céus, sentado à
direita do Pai,
«a contemplar os que se aproximam devidamente do seu tabernáculo».
Na comunhão do Corpo do Senhor, Francisco viu o «alimento por excelência
de toda a santidade».
A reverência
para com o Santíssimo Sacramento
Encontramos em quase todos os
escritos de São Francisco o apelo à reverência pelo Santíssimo
Sacramento. Na Carta a toda a Ordem, pede-o especialmente aos
seus irmãos:
«E por isso
a todos vós, irmãos, imploro no Senhor, beijando-vos os pés e com quanta
caridade eu posso, que presteis toda a reverência e toda a honra que
puderdes, ao santíssimo Corpo e Sangue de nosso Senhor.»
A alguns movimentos heréticos
que negam «a presença real de Cristo sob as espécies, fora da
celebração»,
Francisco responde com um amor muito grande ao santíssimo Sacramento.
Esse amor a Cristo, presente em todas as igrejas do mundo,
é que o levava a não suportar vê-l’O em lugares indignos, em igrejas
sujas e descuidadas. Aliás, o «testemunho mais eloquente dessa fé
concreta e realista de Francisco [na eucaristia] é talvez a sua extrema
susceptibilidade para com as faltas de respeito ao Sacramento.»
Ainda no mundo, antes da sua
entrega total a Deus, comprava objectos «que servissem de adorno das
igrejas e fazia-os chegar secretamente aos sacerdotes pobres»;
e quando saía pelas aldeias, levava consigo uma vassoura para varrer as
igrejas e capelas por onde passasse.
O seu respeito para com o
Santíssimo Sacramento era tal que,
«Um dia,
teve a ideia de enviar os irmãos pelo mundo com píxides preciosas, com a
missão de colocarem o mais dignamente possível esse divino penhor da
nossa redenção onde vissem que o conservavam com pouca reverência e
decoro.»
Mas esse respeito não o movia
apenas a um cuidado muito grande com a limpeza das igrejas, das alfaias
sagradas e das píxides; também o levava a preparar-se, por meio de uma
contínua purificação interior, para comungar o Corpo do Senhor do modo
mais digno possível.
Francisco tinha bem presente a
advertência de São Paulo: «todo aquele que comer o pão ou beber o
cálice do Senhor indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor.
Portanto, examine-se cada um a si próprio e só então coma deste
pão e beba deste vinho; pois aquele que come e bebe, sem distinguir o
corpo do Senhor, come e bebe a própria condenação».
Daí não se
cansar de a repetir nos seus escritos, convidando «todos os cristãos,
religiosos, clérigos e leigos, homens e mulheres»,
e ainda «todas as autoridades e cônsules, juízes e reitores, em qualquer
parte da terra»
a fazerem penitência e a receberem o Corpo do Senhor com humildade e
veneração.
Grandemente preocupado com a
ignorância e o pecado de alguns,
escreveu aos sacerdotes que entretanto a ele se juntaram:
«celebrem o
verdadeiro sacrifício do Corpo e Sangue de nosso Senhor Jesus Cristo,
com santa e pura intenção, e não por qualquer motivo terreno, nem
[…]
para agradar aos homens. Ó miséria grande, ó miseranda fraqueza,
terde-lo vós assim presente, e ocupardes-vos de qualquer outra coisa do
mundo!»
O respeito
pelos sacerdotes
Apesar do que se disse acima
acerca do comportamento pouco correcto de muitos sacerdotes no tempo de
São Francisco, uma das grandes novidades do movimento nascido com o
Santo de Assis foi, precisamente, o enorme respeito pelos sacerdotes.
Acreditamos que «foi a fé na
Eucaristia que lhe inspirou uma gratidão profunda para com os
sacerdotes, ministros do inefável sacramento.»
Quando movimentos heréticos como o dos Cátaros, de que já falámos,
questionavam a validade da Eucaristia celebrada por sacerdotes
“indignos”, Francisco mostrou um amor e uma reverência muito grande para
com eles, recomendando aos seus irmãos: «dissimulai as suas quedas,
supri as suas muitas faltas e, quando isto houverdes feito, mais
humildes sereis.»
Era seu desejo que se tivesse
grande respeito pelas mãos do sacerdote. Dizia frequentemente:
«Se me
acontecesse
[…]
encontrar ao mesmo tempo um santo vindo do céu e um sacerdote
pobrezinho, saudaria primeiro o sacerdote, correria a beijar-lhe as mãos
e diria: “Um momento, por favor, São Lourenço, porque as mãos deste
tocam o Verbo da Vida e possuem um poder sobre-humano”.»
Francisco vai ainda mais longe:
segundo a Legenda do Anónimo Perusino, pede aos seus irmãos que,
se encontrarem um sacerdote montado a cavalo, beijem não apenas a mão ao
sacerdote, mas também as patas do cavalo em que ele for montado.
Embora num estilo de “florinha”, essa história revela bem a reverência
que São Francisco tinha para com os sacerdotes, «ministros de Deus».
Conclusão
Viver o sacramento da Eucaristia
ao jeito de São Francisco implica não só a comunhão do Corpo e Sangue do
Senhor, a adoração silenciosa e amorosa do santíssimo Sacramento, o
cuidado com as igrejas e os objectos sagrados e o respeito pelos
Sacerdotes – como também a opção pelos pobres e marginalizados, imagens
do Menino frágil evocado em Greccio, sempre presente no seio de quem
pratica o Bem e anuncia a Paz.
Julgamos esta fé se mantém
actual e pode servir de convite, neste Ano da Eucaristia, a um
aprofundamento da nossa vivência eucarística e da nossa Fé neste
sacramento. Mas será importante fazer um outro estudo para vermos
também, na sua vida, a presença de Cristo por meio da Palavra de Deus –
o fio condutor sempre presente nos seus escritos e na vida da sua
Fraternidade.
Cf. 2 C 10; TC 13; LM 2,1. Utilizamos a edição portuguesa das
Fontes Franciscanas - I, S. Francisco de Assis: Escritos,
Biografias, Documentos. Braga: Editorial Franciscana, 1982.
1363 p.
_______________________
siglas utilizadas:
Escritos de São
Francisco:
1 CCt – Primeira Carta aos
Custódios
1 R – 1ª Regra (Regra não bulada)
2 CF – Carta aos Fiéis (2ª
redacção)
CC – Cântico das Criaturas (ou
do Irmão Sol)
CCl – Carta aos Clérigos
CGP – Carta aos Governantes dos
Povos
Ex – Exortações
CO – Carta a toda a Ordem
PPN – Paráfrase do Pai Nosso
T – Testamento
Biografias:
1 C – Tomás de Celano, Vida
Primeira
2 C – Tomás de Celano, Vida
Segunda
AP – Legenda do Anónimo Perusino
EP – Espelho de Perfeição
Fl – Florinhas de São Francisco
LM – São Boaventura, Legenda
Maior
LP – Legenda Perusina
TC – Legenda dos Três
Companheiros