ISTO mesmo é proclamado em cada celebração da Eucaristia:
Corações ao alto! Em Latim: Sursum corda! Jesus
contrapõe os que são «cá de baixo» e os que são «lá de cima»:
«Vós sois cá de baixo; Eu sou lá de cima! Vós sois deste
mundo; Eu não sou deste mundo» (Jo 8,23).
Libertar a “águia” que nos habita
São
Paulo alerta-nos que, como ressuscitados, devemos
aspirar «às coisas do alto e não às coisas da terra» (Cl
3,2). Leonardo Boff explanou uma parábola africana,
sobre a condição humana, no livro «A águia e a galinha».
António Damásio ajuda-nos a penetrar nas imensas
possibilidades do Corpo, da Emoção e da Consciência no famoso
livro «O Sentimento de Si».
Não se trata de um exclusivo do cristianismo. Todas as
religiões pretendem dar resposta a esta exigência do ser
humano. Não queremos permanecer na superfície. Temos que
libertar a “águia” que trazemos no mais íntimo de nós mesmos.
Jamais nos resignaremos à condição de “galinha pica-no-chão”!
Nascemos para a Liberdade, e não para a opressão.
Realizamo-nos no Amor e na Partilha, e não no egoísmo ou no
isolamento. Trazemos no coração a vocação das Alturas, do Sol,
das Estrelas, das Montanhas, do Infinito… A teologia diz-nos
que somos “capazes de Deus”.
Jesus entre o diabo e Deus
Nos Evangelhos, deparamo-nos com
Jesus Cristo em múltiplos montes e montanhas. Voltando à
parábola da “águia” e da “galinha”, podemos evocar apenas duas
situações: uma logo no início da sua vida pública (o Monte da
Tentação) e outra nos momentos finais da sua vida sobre a
terra (o Monte da Ascensão). O diabo conduziu Jesus a um
«monte muito alto», a fim de o seduzir com toda a espécie
de tentações (Mt 4,1-11), na pretensão de lhe amputar as asas
de Águia, que o transportam ao seio da Trindade Santíssima.
Jesus mantém a fidelidade inabalável ao projecto do Pai.
Por isso, nos últimos versículos do
Evangelho segundo São Mateus, Jesus Ressuscitado aparece aos
discípulos no «monte que lhes tinha designado»,
revestido de «todo o poder no Céu e na Terra»,
garantindo: «Eu estarei sempre connosco até ao fim dos
tempos» (Mt 28,16-20). Jesus é, assim, a total e
definitiva realização da pessoa, na sua humanidade e na sua
transcendência. Como Filho do Homem e como Filho de Deus.
Francisco de Assis
Francisco de Assis é o protótipo
desta síntese harmoniosa da condição humana. Ele é totalmente
pessoa, a transbordar ternura e vigor, exigência e delicadeza.
E, ao mesmo tempo, uma pessoa totalmente transfigurada pela
transcendência da vida e das palavras radicais de Jesus
Cristo. Francisco é totalmente homem e totalmente cristão,
«o primeiro depois do Único».
Tal como em Cristo, também em
Francisco de Assis encontramos esta predilecção pelos montes e
lugares altos e solitários, «a fim de mais livremente se
poder lançar nos voos da alma para Deus» (1 Celano, 71).
Como os anjos da escada do sonho de Jacob (Gn 28,12),
Francisco subia para Deus e descia para os
irmãos. Evoquemos apenas dois destes lugares mais
significativos: Greccio e Monte Alverne.
Da Humildade à Caridade
O monte em Greccio tinha sido
oferecido a Francisco pelo Conde João de Vellita. Ali,
o Santo «podia entregar-se com
mais liberdade à contemplação, metido numa pequena cela
construída no alto de um rochedo proeminente» (1 Celano,
35). Foi em Greccio que Francisco, no Natal de 1223,
com a colaboração de João, seu amigo íntimo, fez a primeira
“encenação” do Natal ao vivo para «celebrar a memória do
Menino que nasceu em Belém de modo a poder contemplar com os
meus próprios olhos – disse – o desconforto que então
padeceu e o modo como foi reclinado no feno da manjedoura,
entre o boi e o jumento» (1 Celano, 84).
Na síntese do nosso filósofo
Agostinho da Silva: «Tão grande era o seu desejo de
Jesus, de tal modo a figura do Mestre lhe enchia os sonhos e a
vida que decidiu adorar o Menino, como outros pobres tinham
feito na remota noite de Belém» (Biografias I, p. 80). O
povo de Greccio e dos lugares vizinhos participaram
nesta singular celebração, com o coração em festa. Na Missa,
Francisco, como diácono, cantou o Evangelho e fez a homilia,
com palavras doces como o mel, sobretudo ao pronunciar o
santíssimo Nome de Jesus ou do «Menino de Belém», passando a
língua pelos lábios para saborear a doçura de tão abençoados
Nomes.
Do monte de Greccio ao Monte Alverne
Com a altitude de 1.288 metros acima
do nível do mar, este monte, que sobressai entre todos os
outros, foi doado a São Francisco pelo Conde Orlando Catani,
em 1213.
A humildade da Encarnação de Jesus e
a caridade da sua Paixão são o eixo, o alicerce e o horizonte
de toda a vida do Poverello de Assis. Em Greccio,
Francisco experimentou a humanidade de Jesus. No Monte
Alverne, vai ser transformado no próprio Crucificado, o
Amado do seu coração: as mãos, os pés e o lado direito são-lhe
trespassados em incêndio de amor, ficando no seu corpo com as
chagas dolorosas e gloriosas de Cristo. São Boaventura
interpreta: «Um amor autêntico a Cristo transformou o amigo
na imagem do amado» (Legenda Maior, XIII, 5). Francisco é
«outro Cristo».
Estamos em 17 de Setembro de 1224.
Talvez seja a sétima vez que Francisco permanece no seu mais
amado Monte. E de tal modo ele sobe até Deus, que ali
compõe os “Louvores ao Deus altíssimo”, com os seus 32
apaixonados «Tu»: Tu és santo! Tu és beleza! Tu és
doçura!... Mas também desce para junto dos Irmãos
em necessidade, como prova a solicitude com que envia a
bênção a frei Leão: «O Senhor te abençoe e te guarde…»
Somos peregrinos do Sol: escalemos a
montanha da Vida. Coração em Deus e mãos abertas aos Irmãos.
Os pés na Terra e os olhos postos na Cidade santa – onde
habita o Amor e a Justiça – que morada de todos os famintos e
sedentos.