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São Francisco de Assis

Corações ao alto!

 

 

Corações ao alto!

 

Subir para Deus e descer para os Irmãos

 

Nascemos com vocação das alturas. Aos filósofos compete-lhes

o estudo aprofundado do “sum”, do Homem e da Mulher como

seres” dotados da capacidade de viver, de amar e de servir.

O discípulo de Jesus quer dar um passo mais: do “sum” passar ao

“sursum”. Do “ser” do quotidiano, ao “subir” das ânsias de Infinito.

 

 

ISTO mesmo é proclamado em cada celebração da Eucaristia: Corações ao alto! Em Latim: Sursum corda! Jesus contrapõe os que são «cá de baixo» e os que são «lá de cima»: «Vós sois cá de baixo; Eu sou lá de cima! Vós sois deste mundo; Eu não sou deste mundo» (Jo 8,23).

 

 

Libertar a “águia” que nos habita

 

São Paulo alerta-nos que, como ressuscitados, devemos aspirar «às coisas do alto e não às coisas da terra» (Cl 3,2). Leonardo Boff explanou uma parábola africana, sobre a condição humana, no livro «A águia e a galinha». António Damásio ajuda-nos a penetrar nas imensas possibilidades do Corpo, da Emoção e da Consciência no famoso livro «O Sentimento de Si».

 

Não se trata de um exclusivo do cristianismo. Todas as religiões pretendem dar resposta a esta exigência do ser humano. Não queremos permanecer na superfície. Temos que libertar a “águia” que trazemos no mais íntimo de nós mesmos. Jamais nos resignaremos à condição de “galinha pica-no-chão”! Nascemos para a Liberdade, e não para a opressão. Realizamo-nos no Amor e na Partilha, e não no egoísmo ou no isolamento. Trazemos no coração a vocação das Alturas, do Sol, das Estrelas, das Montanhas, do Infinito… A teologia diz-nos que somos “capazes de Deus”.

 

 

Jesus entre o diabo e Deus

 

Nos Evangelhos, deparamo-nos com Jesus Cristo em múltiplos montes e montanhas. Voltando à parábola da “águia” e da “galinha”, podemos evocar apenas duas situações: uma logo no início da sua vida pública (o Monte da Tentação) e outra nos momentos finais da sua vida sobre a terra (o Monte da Ascensão). O diabo conduziu Jesus a um «monte muito alto», a fim de o seduzir com toda a espécie de tentações (Mt 4,1-11), na pretensão de lhe amputar as asas de Águia, que o transportam ao seio da Trindade Santíssima. Jesus mantém a fidelidade inabalável ao projecto do Pai.

 

Por isso, nos últimos versículos do Evangelho segundo São Mateus, Jesus Ressuscitado aparece aos discípulos no «monte que lhes tinha designado», revestido de «todo o poder no Céu e na Terra», garantindo: «Eu estarei sempre connosco até ao fim dos tempos» (Mt 28,16-20). Jesus é, assim, a total e definitiva realização da pessoa, na sua humanidade e na sua transcendência. Como Filho do Homem e como Filho de Deus.

 

 

Francisco de Assis

 

Francisco de Assis é o protótipo desta síntese harmoniosa da condição humana. Ele é totalmente pessoa, a transbordar ternura e vigor, exigência e delicadeza. E, ao mesmo tempo, uma pessoa totalmente transfigurada pela transcendência da vida e das palavras radicais de Jesus Cristo. Francisco é totalmente homem e totalmente cristão, «o primeiro depois do Único».

 

Tal como em Cristo, também em Francisco de Assis encontramos esta predilecção pelos montes e lugares altos e solitários, «a fim de mais livremente se poder lançar nos voos da alma para Deus» (1 Celano, 71). Como os anjos da escada do sonho de Jacob (Gn 28,12), Francisco subia para Deus e descia para os irmãos. Evoquemos apenas dois destes lugares mais significativos: Greccio e Monte Alverne.

 

 

Da Humildade à Caridade

 

O monte em Greccio tinha sido oferecido a Francisco pelo Conde João de Vellita. Ali, Greccioo Santo «podia entregar-se com mais liberdade à contemplação, metido numa pequena cela construída no alto de um rochedo proeminente» (1 Celano, 35). Foi em Greccio que Francisco, no Natal de 1223, com a colaboração de João, seu amigo íntimo, fez a primeira “encenação” do Natal ao vivo para «celebrar a memória do Menino que nasceu em Belém de modo a poder contemplar com os meus próprios olhos – disse – o desconforto que então padeceu e o modo como foi reclinado no feno da manjedoura, entre o boi e o jumento» (1 Celano, 84).

 

Na síntese do nosso filósofo Agostinho da Silva: «Tão grande era o seu desejo de Jesus, de tal modo a figura do Mestre lhe enchia os sonhos e a vida que decidiu adorar o Menino, como outros pobres tinham feito na remota noite de Belém» (Biografias I, p. 80). O povo de Greccio e dos lugares vizinhos participaram nesta singular celebração, com o coração em festa. Na Missa, Francisco, como diácono, cantou o Evangelho e fez a homilia, com palavras doces como o mel, sobretudo ao pronunciar o santíssimo Nome de Jesus ou do «Menino de Belém», passando a língua pelos lábios para saborear a doçura de tão abençoados Nomes.

 

 

Do monte de Greccio ao Monte Alverne

 

Com a altitude de 1.288 metros acima do nível do mar, este monte, que sobressai entre todos os outros, foi doado a São Francisco pelo Conde Orlando Catani, em 1213.

 

A humildade da Encarnação de Jesus e a caridade da sua Paixão são o eixo, o alicerce e o horizonte de toda a vida do Poverello de Assis. Em Greccio, Francisco experimentou a humanidade de Jesus. No Monte Alverne, vai ser transformado no próprio Crucificado, o Amado do seu coração: as mãos, os pés e o lado direito são-lhe trespassados em incêndio de amor, ficando no seu corpo com as chagas dolorosas e gloriosas de Cristo. São Boaventura interpreta: «Um amor autêntico a Cristo transformou o amigo na imagem do amado» (Legenda Maior, XIII, 5). Francisco é «outro Cristo».

 

Estamos em 17 de Setembro de 1224. Talvez seja a sétima vez que Francisco permanece no seu mais amado Monte. E de tal modo ele sobe até Deus, que ali compõe os “Louvores ao Deus altíssimo”, com os seus 32 apaixonados «Tu»: Tu és santo! Tu és beleza! Tu és doçura!... Mas também desce para junto dos Irmãos em necessidade, como prova a solicitude com que envia a bênção a frei Leão: «O Senhor te abençoe e te guarde…»

 

Somos peregrinos do Sol: escalemos a montanha da Vida. Coração em Deus e mãos abertas aos Irmãos. Os pés na Terra e os olhos postos na Cidade santa – onde habita o Amor e a Justiça – que morada de todos os famintos e sedentos.

 

 

 

Frei Acílio Dias Mendes

 

 
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