Verdade, Bondade e Beleza são as três qualidades do Ser.
Infelizmente, ao longo dos séculos, a
Igreja
viveu demasiado preocupada com a Verdade – a Ortodoxia,
a
Doutrina, os Dogmas, os cismas, as heresias. Basta lembrar a
Inquisição, o Santo Ofício, o Índice dos Livros Proibidos
(1559-1966),
a
Congregação para a Doutrina da Fé, o Syllabus (Pio IX, 1864),
o
Juramento anti-modernista (Pio X),
a
censura e a intolerância com tantos biblistas,
teólogos e pensadores…
Tivesse existido o mesmo zelo na
promoção e na defesa da Bondade e da Beleza, e o diálogo entre
a Fé e a Cultura conheceria hoje caminhos bem diferentes e
interlocutores bem mais diversificados e sensíveis!
“Deus,
vendo toda a sua obra, considerou-a muito boa”
Mas, no princípio não foi assim!
Os catequistas que escreveram a Bíblia, gravaram, logo a
abrir, a obra maravilhosa de um Deus que muda o caos em
cosmos; transforma o informe, vazio e tenebroso na gesta
maravilhosa da Criação, e não se cansa de repetir, qual
artista entusiasmado com a sua obra: «E Deus viu que isto
era bom!» (Gn 1,10.12.18.21. 25). Depois de ter criado o
ser humano à sua imagem e semelhança, «Deus, vendo toda a
sua obra, considerou-a muito boa» (Gn 1,31).
Por isso, os sábios da Bíblia
apresentam as criaturas como manifestação e possibilidade de
encontro com o Criador: «Se fascinados pela sua beleza, os
tomaram por deuses, aprendam quão mais belo que tudo é o
Senhor, pois foi o próprio autor da beleza que os criou. E se
os impressionou a sua força e o seu poder, compreendam quão
mais poderoso é aquele que os criou, pois na grandeza e na
beleza das criaturas se contempla, por analogia, o seu
Criador» (Sb 13,3-5).
Em pleno Sermão da Montanha (Mt
6,28-30), Cristo exorta-nos a contemplar os lírios e as ervas
do campo… Em todas as coisas criadas, Deus deixou a sua marca
de verdade, de bondade e de beleza. Mas, só Deus é a Verdade,
a Bondade e a Beleza!
Nas coisas
belas Francisco de Assis via a beleza do Criador
Com razão, de Francisco se diz
que é o “homem novo”, o homem do Génesis. Nascido na
deslumbrante região da Úmbria, e dotado de uma especial
sensibilidade para se extasiar perante a beleza das criaturas
que o rodeiam, vai encontrar-se com a Fonte da Verdade, da
Bondade e da Beleza. São Boaventura – que, no seu famoso
Itinerário da alma para Deus, também apresenta todos os
seres criados como reflexos e vestígios de Deus – diz dele:
«Solicitado por tudo e por todos
ao amor de Deus, exultava em todas as obras saídas das mãos de
Deus, e rejubilando de alegria na presença das criaturas,
subia por meio delas até àquele que é a causa e a razão
vivificante do Universo. Nas coisas belas via a beleza
suprema do Criador, e pelas pegadas que ele deixara impressas
nas coisas, ia seguindo o Bem-amado, de tudo se servindo como
escada para subir e chegar àquele que é todo desejável.
No inefável impulso de devoção,
percebia a bondade infinita de Deus em cada uma das criaturas
como em arroios que brotassem daquela nascente inesgotável.
Nas propriedades dos seres e nas suas interacções descobria
como um concerto harmonioso e celeste, que o levava a exortar
a todos, como fazia o Profeta David, a cantar os louvores do
Senhor» (Legenda Maior: IX,1).
“Tu és
beleza!”
Após receber no corpo as marcas
do Crucificado (Setembro de 1224), Francisco entrega ao seu
amigo e confidente frei Leão um dos escritos mais apaixonados
da literatura mística: os Louvores ao Deus Altíssimo.
Neste conjunto de 35 versos, qual nascente a jorrar louvores,
glórias e aplausos ao ritmo de um coração enamorado, o “Tu”
dirigido ao Senhor Deus transborda 31 vezes, numa ladainha
exuberante de atributos e predicados. E o verso 22 diz assim:
«Tu és beleza!»
Logo a seguir, no Inverno de
1224/1225, após uma longa noite de trevas e sofrimento, ditou
o seu Cântico das Criaturas, ou Cântico do
Irmão Sol. Entusiasmado com o seu «Altíssimo,
Omnipotente, Bom Senhor», irrompe em louvores ao Autor das
maravilhas da Criação. Além de fraternizar todas as
criaturas, adjectiva abundantemente cada uma delas. E a
beleza brota, espontânea, do seu coração de poeta-místico:
o irmão Sol é belo e radiante; a lua e as
estrelas são claras, e preciosas, e belas; o
irmão fogo é belo, e jucundo, e robusto e
forte. Francisco encontra nas criaturas a beleza da
gratuidade, da poesia, do encantamento. Mas “todas”
elas são do “seu bom Senhor”!
Não se trata de meras palavras.
Francisco, apaixonado pelo Deus-Beleza, passará toda a
sua vida a convidar-nos a honrar, adorar, servir, louvar e
glorificar, e sobreexaltar, magnificar e dar graças ao Pai e
Filho e Espírito Santo, Criador de todas as coisas, Salvador
dos que crêem nele (1ª Regra, cap. 23,10). A bondade e
a beleza despertam o amor!
Por outro lado, este espírito do
“Jogral de Deus” transvaza no coração da Irmã Clara, a
‘Plantazinha’ de Francisco. No seu Processo de Canonização, a
14ª testemunha, a Irmã Angelúcia, declarou que, «quando a
santíssima madre enviava as irmãs externas fora do mosteiro,
as exortava a louvar o Senhor pelas árvores belas,
floridas e frondosas e que, ao olhar os seres humanos e as
outras criaturas, sempre louvassem o Senhor, por todas e em
todas as coisas».
Frei Acílio Dias Mendes