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Quanto vale uma criança?
“A criança é o
pai do homem”
(William Wordsworth)
Jesus disse que valemos mais do
que muitos passarinhos. São Paulo diz que fomos comprados por um
alto preço: o Sangue de Cristo. Judas comprou o Mestre por 30
moedas de prata (era o preço de um escravo).
Há dias, uma mãe com sete filhos e
desempregada, vendeu um recém-nascido por 3 mil euros. O preço é
variável e pode ainda depender de muitas circunstâncias.
Por
exemplo,
qual será o preço de uma criança que misteriosamente desapareceu
de casa enquanto dormia?
Se a criança desapareceu no
Algarve, quando os pais jantavam no restaurante do resort, num
complexo turístico, se for estrangeira e de um país poderoso, do
sexo feminino, loira e bonita, filha de pais ricos… tem um
preço.
E, a condizer com esse preço: a
polícia judiciária mobiliza centenas de agentes, os media
dão-lhe honras de primeira página em vários meses, é pedida a
colaboração da polícia internacional, milionários põem jactos
particulares ao dispor da família, os pais aparecem na televisão
a chorar, fazer apelos e promessas, percorrem o mundo em
conferências de imprensa, jornais prometem milhares de dólares a
quem fornecer pistas credíveis, promovem-se audiências com o
Papa, rezam-se missas, organizam-se vigílias e concertos.
Mas, se a criança desapareceu em
Tassi-Tolo (zona degradada nos arredores de Díli), se é de
família pobre, de um país subdesenvolvido, sem televisão para
mostrar a fotografia e onde os pais possam fazer apelos, do sexo
masculino, mal vestida e mal alimentada, com cabelo de
carapinha… tem um preço diferente.
E, a condizer com este preço
inferior, nenhum a
entidade oficial a procura, nenhum jornal ou rádio a exibem,
nenhuma tv mostra os pais a chorar, a polícia não intervém
porque não sabe de nada, a UNICEF só um ano depois a coloca na
estatística das crianças desaparecidas.
Ainda assim, há quem diga que a
pessoa humana não tem preço, ou então, tem um preço único porque
somos todos iguais.
De facto.
No Evangelho, Jesus diz:
«vós sois todos irmãos» (Mt 23,8). Também diz São Pedro:
«Deus não olha à qualidade das pessoas» (Act 10,34). E
São Paulo: «Não há judeu nem grego; não há escravo nem
livre; não há homem e mulher» (Gl 3, 28).
A Declaração Universal dos
Direitos Humanos proclama: «Todas as pessoas
nascem livres e iguais em dignidade e direitos» (Artº 1);
com «direito à vida, liberdade e segurança» (Artº 3).
A Convenção dos Direitos da
Criança também reconhece «o direito de todas as crianças a
um nível de vida adequado para o seu desenvolvimento físico,
mental, espiritual, moral e social» (Artº 27,1).
Embora o Algarve e Londres estejam
no mesmo planeta que Timor-Leste e Darfur, no entanto é o genoma
social de c ada
um que determina e qualifica o acesso aos seus direitos
fundamentais.
No auge da guerra entre a África
do Sul e Angola, pelo ano 1980, um comando sul-africano falhou
um acto de sabotagem aos depósitos de petróleo de Cabinda e os
dois terroristas foram gravemente feridos e presos. Havia que
negociar a sua libertação.
Preço: 120 prisioneiros angolanos.
Ou seja, dois sul-africanos valeram 120 angolanos.
Há alguns meses, na Palestina, um
israelita foi trocado por 25 guerrilheiros do Hamas.
Quanto vale
uma criança?
Perguntem aos pontífices dos
areópagos internacionais da hipocrisia. Ou então, ao Evangelho
dos loucos como Pedro da Galileia, Paulo de Tarso ou Francisco
de Assis.
Frei Manuel Rito Dias
Missionário em Díli (Timor-Leste) |