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Mensagem do
Papa Bento XVI
no 20º
aniversário do Encontro Inter-religioso pela Paz
convocado por João
Paulo II.
Castelgandolfo, 2
de Setembro de 2006.
Ao venerado
irmão Dom Domenico Sorrentino
Bispo de
Assis-Nocera Umbra-Gualdo Tadino
Celebra-se este
ano o vigésimo aniversário do Encontro Inter-Religioso de Oração pela
Paz querido pelo meu venerado antecessor João Paulo II, a 27 de
Outubro de 1986, nessa Cidade de Assis. Para esse encontro, como se
sabe, ele convidou não só os cristãos das várias confissões, mas também
representantes das diversas religiões. A iniciativa teve amplo eco na
opinião pública: constituiu uma mensagem vibrante a favor da paz e
revelou-se um acontecimento destinado a deixar um sinal na história do
nosso tempo.
Iniciativas em
Assis.
Por
isso, compreende-se que a recordação do que então aconteceu continue a
suscitar iniciativas de reflexão e de compromisso. Algumas foram
previstas precisamente em Assis, por ocasião do vigésimo aniversário
daquele acontecimento. Penso na celebração organizada, em sintonia com
essa Diocese, pela Comunidade de Santo Egídio, em continuidade com
análogos encontros por ela realizados anualmente.
Nos dias do
aniversário haverá um Congresso organizado pelo Instituto Teológico de
Assis, e pelas Igrejas particulares dessa Região da Úmbria na Basílica
de São Francisco. Por fim, o Pontifício Conselho para o Diálogo
Inter-Religioso organizará ali um encontro de diálogo, de oração e de
formação na paz para jovens católicos e de outras proveniências
religiosas.
Valor da intuição
de João Paulo II.
Estas iniciativas,
cada uma com o seu aspecto específico, realçam o valor da intuição que
teve João Paulo II e mostram a sua actualidade à luz dos próprios
acontecimentos que se verificaram nestes vinte anos e da situação em que
se encontra actualmente a humanidade. O acontecimento mais significativo
neste espaço de tempo foi sem dúvida a queda, no Leste europeu, dos
regimes de inspiração comunista. Com ela terminou a “guerra fria”, que
tinha gerado uma espécie de divisão do mundo em esferas de influência
contrapostas, suscitando a preparação de terrificantes armazenamentos de
armas e de exércitos prontos para uma guerra total.
Aquele foi um
momento de esperança de paz geral, que levou muitos a sonhar um mundo
diferente, no qual as relações entre os povos se teriam desenvolvido
aliviadas do pesadelo da guerra, e o processo de “globalização” se teria
realizado distinguindo-se por um confronto pacífico entre os povos e
culturas no âmbito de um direito internacional partilhado, inspirado no
respeito pelas exigências da verdade, da justiça e da solidariedade.
Infelizmente este sonho de paz não se concretizou.
A religião e a
paz.
O terceiro milénio
iniciou, ao contrário, com cenários de terrorismo e violência que não
parecem dissolver-se. Depois, o facto de os confrontos armados se
verificarem hoje sobretudo no quadro das tensões geopolíticas existentes
em muitas regiões, pode favorecer a impressão de que, não só as
diversidades culturais, mas as próprias diferenças religiosas constituam
motivos de instabilidade ou ameaça para as perspectivas de paz.
Precisamente sob
este perfil, a iniciativa promovida há vinte anos por João Paulo II
assume o carácter de uma profecia pontual. O seu convite aos líderes
das religiões mundiais para um testemunho colectivo de paz serviu para
esclarecer sem possibilidade de equívocos que a religião só pode
ser portadora de paz. Como ensinou o Concílio Vaticano II
na Declaração
Nostra aetate sobre as relações da Igreja com as religiões não
cristãs, «não podemos [...] invocar Deus, o Pai de todos, se nos
recusarmos a tratar fraternalmente determinados homens, criados à imagem
de Deus» (n. 5). Apesar das diferenças que caracterizam os vários
caminhos religiosos, o reconhecimento da existência de Deus, ao qual os
homens só podem chegar partindo da experiência da criação (cf. Rm 1,20),
não pode deixar de predispor os crentes a considerar os outros seres
humanos como irmãos. Portanto, a ninguém é lícito assumir o motivo da
diferença religiosa como pressuposto ou pretexto para uma atitude bélica
em relação aos outros seres humanos.
Guerras de
religião.
Poder-se-ia
objectar que a história conhece o triste fenómeno das guerras de
religião. Mas sabemos que semelhantes manifesta-ções de violência
não podem ser atribuídas à religião como tal, mas aos limites culturais
com que ela é vivida no tempo. Mas quando o sentido religioso alcança a
sua maturidade, gera no crente a percepção de que a fé em Deus,
Criador do universo e Pai de todos, não pode deixar de promover entre os
homens relações de fraternidade universal. De facto,
testemunhos do vínculo íntimo que existe entre a relação com Deus e a
ética do amor registram-se em todas as grandes tradições religiosas.
Nós, cristãos,
sentimo-nos neste aspecto confirmados e posteriormente iluminados pela
Palavra de Deus.
Já o Antigo
Testamento manifesta o amor de Deus por todos os povos, que Ele, na
aliança estabelecida com Noé, reúne num único grande abraço simbolizado
pelo “arco sobre as nuvens” (Gn 9,13.14.16) e que, definitivamente,
segundo as palavras dos profetas, pretende reunir numa única família
universal (cf. Is 2,2ss; 42,6; 66,18-21; Jr 4,2; Sl 47).
No Novo
Testamento, a revelação deste desígnio universal de amor culmina no
mistério pascal, no qual o Filho de Deus encarnado, num perturbante acto
de solidariedade salvífica, se oferece em sacrifício na cruz por to-da a
humanidade. Deus mostra assim que a sua natureza é Amor. Foi quanto
quis ressaltar na minha primeira Encíclica, que inicia precisamente com
as palavras “Deus caritas est” (1 Jo 4,7).
Esta afirmação da
Escritura não só lança luz sobre o mistério de Deus, mas ilumina também
os relacionamentos entre os homens, todos chamados a viver segundo o
mandamento do amor.
Valor da oração na
construção da paz.
O encontro
promovido em As-sis pelo Servo de Deus João Paulo II realçou
precisamente o valor da oração na construção da paz. De facto,
estamos conscientes de como é difícil e por vezes humanamente
desesperado o caminho para este bem fundamental.
A paz é um valor
no qual afluem muitos componentes. Para a construir, sem dúvida são
importantes os caminhos de ordem cultural, política e económica. Mas, em
primeiro lugar a paz deve ser construída nos corações. De
facto é neles que se desenvolvem sentimentos que podem alimentá-la ou,
ao contrário, ameaçá-la, enfraquecê-la, sufocá-la. Aliás, o coração do
homem é o lugar das intervenções de Deus.
Portanto, ao lado
da dimensão “horizontal” das relações com os outros homens, revela-se de
importância fundamental, nesta matéria, a dimensão “vertical” da relação
de cada um com Deus, no qual tudo tem o seu fundamento. Foi precisamente
isto que o Papa João Paulo II, com a iniciativa de 1986, pretendeu
recordar com vigor ao mundo. Ele pediu uma oração autêntica, que
envolvesse toda a existência. Por isso, quis que fosse acompanhada pelo
jejum e expressa na peregrinação, símbolo do caminho rumo ao encontro
com Deus. E explicou: «A oração exige da nossa parte a conversão do
coração» (Insegnamenti di Giovanni Paolo II, 1986, vol. II, p.
1253).
Entre os aspectos
qualificantes do Encontro de 1986, deve realçar-se que este valor da
oração na construção da paz foi testemunhado por representantes de
diversas tradições religiosas, e isto aconteceu não à
distância, mas no contexto de um encontro. Desta
forma, os orantes das várias religiões puderam mostrar, com a linguagem
do testemunho, como a oração não divide mas une, e constitui um elemento
determinante para uma pedagogia eficaz da paz, baseada na amizade, no
acolhimento recíproco, no diálogo entre os homens de diversas culturas
e religiões.
Temos como nunca
necessidade desta pedagogia, especialmente olhando para as novas
gerações. Muitos jovens, nas zonas do mundo marcadas por conflitos, são
educados para sentimentos de ódio e de vingança, dentro de contextos
ideológicos nos quais se cultivam as sementes de antigos rancores e se
preparam os corações para violências futuras. É preciso abater tais
barreiras e favorecer o encontro. Portanto, sinto-me feliz por que as
iniciativas programadas este ano em Assis sejam nesta direcção e por
que, em particular, o Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso
tenha pensado em fazer delas uma aplicação específica para os jovens.
“Evitar confusões
inoportunas”.
Para que não haja
dúvidas acerca do sentido de quanto, em 1986, João Paulo II quis
realizar, e que, com uma expressão sua, se costuma qualificar como
“espírito de Assis”, é importante não esquecer a atenção que então
foi dada para que o encontro inter-religioso de oração não se
prestasse a interpretações sincretistas, fundadas numa
concepção relativista. Precisamente por isto, desde as primeiras frases,
João Paulo II declarou: «O facto de nós termos vindo aqui não implica
intenção alguma de procurar um consentimento religioso entre nós ou de
negociar as nossas convicções de fé. Nem significa que as religiões
possam reconciliar-se a nível de um compromisso comum num projecto
terreno que as ultrapasse todas. Nem sequer é uma concessão ao
relativismo nas crenças religiosas...» (Insegnamenti, cit., pág.
1252).
Desejo recordar
este princípio, que constitui o pressuposto daquele diálogo entre as
religiões que há quarenta anos o Concílio Vaticano II desejou na
Declaração sobre as relações da Igreja com as religiões não cristãs
(cf.
Nostra aetate, 2). Aproveito de bom grado a ocasião para saudar
os representantes das outras religiões que participam nas várias
comemorações em As-sis. Como nós cristãos, também eles sabem que na
oração é possível fazer uma experiência especial de Deus e receber
estímulos eficazes na dedicação à causa da paz.
Contudo, também
neste aspecto é preciso evitar confusões inoportunas. Por isso,
mesmo quando nos encontramos juntos a rezar pela paz, é necessário que a
oração se realize segundo aqueles caminhos distintos que são próprios
das várias religiões. Esta foi a escolha de 1986, e tal escolha não pode
deixar de ser válida também hoje. A convergência do que é diferente não
deve dar a impressão de uma cedência àquele relativismo que nega o
próprio sentido da verdade e a possibilidade de a obter.
São Francisco de
Assis e a Paz.
Para a sua
iniciativa audaciosa e profética, João Paulo II quis escolher o
sugestivo cenário desta Cidade de Assis, universalmente conhecida
pela figura de São Francisco.
De facto, o
Pobrezinho encarnou de modo exemplar a bem-aventurança proclamada por
Jesus no Evangelho: «Felizes os pacificadores, porque serão chamados
filhos de Deus» (Mt 5,9). O testemunho que ele deu no seu tempo faz
com que seja um ponto de referência natural para todos os que, também
hoje, cultivam o ideal da paz, do respeito pela natureza, do diálogo
entre as pessoas, religiões e culturas. Contudo, é importante recordar,
se não se quiser atraiçoar a sua mensagem, que foi a opção radical
de Cristo que lhe forneceu a chave de compreensão da fraternidade
à qual todos os ho-mens estão chamados, e na qual também as criaturas
inanimadas, do “irmão sol” à “irmã lua”, participam de certo forma.
Portanto, apraz-me
recordar que, em coincidência com este vigésimo aniversário da
iniciativa pela paz de João Paulo II, celebra-se também o oitavo
centenário da conversão de São Francisco. As duas
comemorações iluminam-se reciprocamente. Nas palavras a ele dirigidas
pelo Crucifixo de São Damião “Vai Francisco, restaura a minha casa...”
na sua opção de radical pobreza, no abraço ao leproso no qual se
expressou a sua nova capacidade de ver e amar Cristo nos irmãos que
sofrem, tinha início aquela aventura humana e cristã que continua a
atrair tantos homens do nosso tempo e faz com que esta Cidade seja meta
de numerosas peregrinações. […]
Queira transmitir
a todos também a minha afectuosa saudação, comunicando-lhes a minha
Bênção, que acompanho com os votos e a oração do Pobrezinho de Assis:
“O Senhor vos dê a paz!”
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