Movimento Bíblico

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«Fraternidade em Missão»

fraternidade_em_missaoDe 13 a 23 de Julho, os jovens Capuchinhos da Fraternidade do Porto, juntamente com os seus formadores, realizaram uma «Missão Popular» em Freixedas, Diocese da Guarda. Reproduzimos aqui o diário da «Fraternidade em Missão».

Os dias passam. Vêm as noites. Também elas são passageiras, dando lugar a novos dias.

Há uns meses, por iniciativa do Mestre e Vice-Mestres, o Pós-Noviciado (= Juniorado) tem vindo a analisar a possibilidade de se fazer uma «Missão popular», aproveitando um tempo de férias. Depois da reflexão, os Mestres, juntamente com o frei Miguel – pelo facto de ter familiares em Freixedas, diocese da Guarda – no dia 16 de Abril, fizeram uma viagem a Freixedas, próximo de Pinhel, para se encontrarem com o Padre Ricardo, pároco de Freixedas e mais meia dúzia de paróquias e outras tantas anexas. Apresentaram-lhe o projecto da «Missão» nas suas paróquias. A proposta foi aceite com as duas mãos e coração apostólico. Mais tarde, haveriam de voltar a Freixedas para ultimar pormenores.

A partir de então começámos seriamente a pensar nesta aventura franciscana e missionária. Como os dias não param, eis que assim se aproximou o dia da Missão!

Analisando as circunstâncias e por causa dos exames, foi fixado o início da Missão, já baptizada democraticamente de «Fraternidade em Missão», para o dia 13 de Julho, uma sexta-feira, com a conclusão no santuário de Nossa Senhora das Fontes, a 22 de Julho.

Chegando já ao aprazado dia, podia notar-se a diferença logo pela manhãzinha: depois das Laudes, ninguém foi para a Missa, pois todos aguardavam ansiosamente a «Missa do Envio». Pelo facto de ter sido o último dia de exames, alguns Irmãos ainda se deslocaram nessa manhã à Universidade do Porto.

Colocar nas bolsas e mochilas tudo quanto fosse necessário para a Missão: era a preocupação do dia! E a azáfama começou bem cedo!

Como o nosso Guardião, frei Avelino, ainda se encontra ausente - também ele em Missão, em Rio Mau – a «Missa do Envio», às 15h00, na capela da Fraternidade, foi presidida pelo frei César e nela participaram todos os «missionários», incluindo o frei Gilson que partirá nestes dias para Cabo Verde. As orações da Missa foram as da evangelização dos povos e proclamámos as leituras do Domingo seguinte. No Evangelho (Mc 6,7-13), Jesus chama e envia os Apóstolos em missão, dois a dois. Uma autêntica «fraternidade em missão»! Depois da Comunhão, dois a dois colocaram-se junto da Bíblia e foram enviados em missão, correndo, como mensageiros, para os carros, já carregadinhos de sacos e mochilas e sobretudo de esperanças.

Para que conste, eis os nomes dos enviados, por ordem alfabética: frei Acílio Mendes, frei Agustinho dos Remédios, frei Aventino Gusmão, frei Flávio de Pina, frei Ilivriano Delgado, frei John Naheten, frei José Garcia, frei José Pires, frei Luís Leitão, frei Manuel Garcia, frei Manuel Ramos, frei Miguel Grilo, frei Odair Gonçalves, frei Rafael Rosa, frei Ricardo Tinoco. Por países: Cabo Verde (7), Portugal (4), Timor-Leste (4).

Duas horas e meia depois chegámos às proximidades do destino. Uma «escala técnica» no Restaurante Moreira, onde a Dona Maria Alice nos tinha preparado a «encomenda» para o jantar desta noite.

Um pouco mais e estávamos em Freixedas. Eram 18h40! Informados de que o Padre Ricardo se encontrava em Lisboa – também ele em exames de Direito – avançámos para Souropires, onde se encontra a nossa «estalagem». É a residência paroquial, «franciscanamente» cedida pelo Padre António Freire. Procedeu-se à organização dos espaços do nosso novo “convento”: escritório, cozinha, quartos…

Tudo a postos, chegou a hora do jantar. Cantámos o «Fraternidade em Missão» e, com estes ares puros da aldeia, “devorámos” o jantar.

Como “sobremesa”, tivemos a agradável visita do sr. Padre Ricardo que nos deu as boas-vindas e afavelmente se disponibilizou para tudo quanto fosse necessário.

Às 21h00, na igreja paroquial de Souropires, mesmo ao lado do nosso «convento», rezámos o Rosário e as Completas. Connosco uma boa participação da população local. Presidiu o frei Acílio, como o nosso «mais velho».

O programa do primeiro dia da «Fraternidade em Missão» foi integralmente cumprido.

A generosidade das pessoas começou a manifestar-se logo depois das Completas: além das palavras amigas, um balde de batatas e um garrafão de vinho do «primo do Barbas».

Sendo um dia marcado pela longa viagem, todos foram mais cedo para o “vale de lençóis”, pois a serenidade da aldeia favorece o ressonar dos Irmãos.

Foi o primeiro dia. E Deus viu que tudo era bom. E nós também…

 

14 de Julho, sábado

(Segundo dia)

Depois do silêncio maravilhoso que tivemos na noite passada, foi verdadeiramente a primeira noite. Tudo correu dentro da normalidade. Parecia que estávamos no deserto. As Irmãs estrelas refulgiam, como convite a louvar o altíssimo e bom Senhor.

Pela manhã, ainda perdurava o silêncio. Quem aqui faz barulho é o «Irmão Sino», mas é um barulho louvável, que até nos ajuda a despertar todas as manhãs com o toque do «Avé de Lourdes». O seu toque de alvorada acontece às 7h00 e o toque de final do dia é às 23h00.

Tudo a postos para continuar o nosso trabalho. As equipas já estão formadas, as tarefas distribuídas e o local determinado.

Assim, a «Fraternidade em Missão» começou o seu segundo dia. Enquanto a equipa responsável pela cozinha preparava o pequeno-almoço, as outras equipas estiveram a organizar as suas actividades.

O dia começou bem. Na igreja paroquial de Souropires, juntamente com o padre Ricardo e alguns paroquianos, celebrámos as Laudes, louvando o Senhor pelas maravilhas que Ele realiza em cada um de nós e em toda a Igreja. Presidiu o frei José Pires.

Após o louvor ao Senhor na Igreja, passámos para um outro louvor, desta feita na cozinha.

Em seguida, saímos em dois grupos para os Centros de dia, ao encontro dos idosos: um em Freixedas e outro em Alverca da Beira. Estivemos lá cerca de hora e meia. Houve convívio, apresentação pessoal, mensagem evangélica a partir das Bem-aventuranças, cotejadas com as «Bem-aventuranças do Idoso». E houve muita alegria e boa disposição e cânticos portugueses e cabo-verdeanos  e timorenses e dança… E ficámos deliciados com a juventude da Dona Guilhermina que, com os seus 97 anos, nos enchia o coração com os seus cânticos.

Os idosos receberam-nos com alegria e despediram-se de nós com gratidão, pedindo que voltássemos mais vezes.

De volta a casa, enquanto a equipa da cozinha confeccionava o almoço, as outras equipas ocupavam-se de outros afazeres. Por volta das treze horas estava pronto o almoço, uma excelente refeição. Ninguém se queixou, pois felizmente a “Empresa” não chega a estas terras. Prova provada de como a equipa se esmerou é olhar para a panela: «Limparam tudo!»

Após a refeição, uns atiraram-se à sesta, outros ao convívio e ainda outros aos seus afazeres.

Um dos nossos problemas de hoje tem sido cumprir o horário estabelecido. Assim, tínhamos programado um encontro com os jovens para as 16h30, mas o seu início aconteceu com uns trinta minutos de atraso. O encontro realizou-se no «pátio dos gentios», anexo ao nosso «convento». A abertura e a apresentação do tema esteve a cargo do frei Manuel Ramos, ficando a nossa apresentação entregue ao frei Acílio. O tema foi encontrar Jesus no Evangelho de São João, a partir dos sete «Eu sou…» No final, o frei Acílio realizou o sorteio de três CDs «Notícia de Amor».

A seguir a este encontro, tínhamos programado um jogo de futebol com os jovens, mas, devido ao atraso, a partida de futebol ficou de se realizar noutra altura.

Foram feitos dois grupos para as Missas vespertinas. Um para a paróquia de Prados, que tem como padroeiro o nosso Seráfico Pai São Francisco; e outro para Carvalhal. Em Prados presidiu o frei Acílio e em Carvalhal, o frei José Pires. Além da liturgia própria deste Domingo, houve a apresentação do projecto «Fraternidade em Missão» e foram utilizadas algumas orações do desdobrável «Oremos com São Francisco».

Na Paróquia de Prados, no ano do Senhor de 1984, foi baptizado o frei Miguel, por aqui vivendo alguns familiares seus. Também isto pesou na programação da «Fraternidade em Missão» para estas terras.

Logo a seguir à Missa, fomos para Freixedas para a oração do Rosário.

E assim, o jantar foi convertido em ceia.

Após o jantar, desculpem, a ceia, a equipa formativa reuniu-se para uma necessária avaliação das actividades; enquanto nós convivíamos em espontânea partilha fraterna.

Por fim, o desejado repouso nocturno.

Registamos a ofertas que nos chegaram neste dia: azeite, ovos, feijão verde, cenouras, cebolas, alhos, milho, alface, euros, e uma carrada de géneros alimentícios do «Ecomarché» de Pinhel…

E foi o segundo dia da «Fraternidade em Missão».

E Deus viu que (quase) tudo era bom. E nós também…

 

15 de Julho, Domingo

(Terceiro dia)

… E ao terceiro, o Senhor ressuscitou! E com Ele, o fogo da «Fraternidade em Missão» ateou-se em nossos corações.

A beleza e a simpatia desta gente; o encanto das paisagens; as estrelas que brilham no firmamento, dando vida às noites e o Irmão Sol radiante que nos aquece, ilumina e nos convida a ir ao encontro de quem precisa, são as alegrias que o Ressuscitado nos brinda nesta Missão.

Nesta manhã de Domingo, o repique do sino convida-nos a louvar o Senhor nosso Deus e nosso Pai por tudo quanto Ele nos concede, em especial a graça da «Fraternidade em Missão», o estar próximos das pessoas nestas comunidades beirãs. Por isso, citamos aqui uma parte do Salmo 148, que cantámos na nossa oração matinal:

«Louvai ao Senhor do alto dos céus,
Reis e povos da terra,
Príncipes e todos os juízes da terra,
Jovens e donzelas, Velhos e crianças,

Louvem todos o nome do Senhor, Porque o seu nome é sublime» (Sl 148, 1.11-13)

Todos nós fomos convidados a louvar o Senhor. Na hora habitual, ás 8h00, celebrámos as Laudes na Igreja paroquial de Souropires, sempre com a presença de alguns fiéis.

Hoje é Domingo! Mas também é dia 15 de Julho. Seria a festa de São Boaventura, o Doutor Seráfico. Que ele nos ajude a viver esta «Fraternidade em Missão» como um «itinerário do nosso coração para Deus… e para os irmãos».

Graças à reunião nocturna da equipa formativa, o «guia de marcha» para este terceiro dia da Missão estava todo bem organizado e distribuído, com horários, grupos e actividades…

Por isso, depois das Laudes, saímos para a Missão em três grupos: dois grupos para celebrar a Missa deste décimo quinto Domingo do tempo comum, às 10h00. Um grupo para Ervas Tenras, presidido pelo frei Acílio; e outro, dirigiu-se a Pala, presidido pelo frei José Pires. Os Irmãos das Ervas Tenras vinham contagiados com a alegria e o entusiasmo com que os fiéis participam na Santa Missa dominical.

O terceiro grupo, composto pelo frei Miguel e frei Flávio, foi para Freixedas, com a missão bem franciscana de visitar os doentes e levar a Sagrada Comunhão àqueles que estão mais fragilizados.

Domingo é dia da Eucaristia e Dia de Festa para todas as comunidades! Por isso, às 12h00, o primeiro grupo celebrou a Eucaristia dominical na igreja matriz de Freixedas e o segundo em Souropires.

Após esta manhã, profundamente eucarística e missionária, reunimo-nos no nosso “convento” para a refeição fraterna e agradável convívio.

Depois, enquanto uns dormiam a sesta, outros organizavam as suas actividades e outros ainda foram jogar futebol, concretizando também o convite do Salmo da manhã: jovens e donzelas, louvai o Senhor… com o jogo e a bola!

Pelas 17h25, também divididos em três grupos, saímos para o nosso trabalho missionário. Dois grupos foram para o encontro com os casais. Um em Freixedas, orientado pelo frei Acílio, e outro em Pala, orientado pelo frei José Pires. E ainda um terceiro grupo ficou em Souropires para um encontro com os catequistas, sendo orientado pelo frei Miguel Grilo, conhecedor destas gentes e regiões.

Queremos sublinhar uma das peripécias no encontro de casais orientado pelo frei Acílio em Freixedas. Durante a exposição, e seguindo o dinamismo da Exortação Apostólica «Familiaris consortio» de João Paulo II (1981), na primeira parte apresentavam-se as luzes e as sombras da família de hoje. Mas, querendo aterrar na realidade das famílias destas paróquias, foram apresentando as luzes, os aspectos positivos da família. Quando o frei Acílio perguntou pelas sombras, uma senhora respondeu sem pestanejar: «Ó senhor padre, aqui não temos sombras, porque há muita falta de árvores!»

Nem tudo é trabalho na «Fraternidade em Missão». O trabalhador merece… o seu descanso, sobretudo depois de um ano pastoral e académico. Para revitalizar as forças para o próximo ano. Por isso, a seguir aos encontros com os casais, fomos para a casa dos pais do frei Miguel, na «Quinta da Folhinha», para um jantar-convívio. A tranquilidade e o silêncio que reinavam naquele lugar, por um instante transformaram-se numa barulhenta algaravia, mas sempre fraterna e alegre. Depois de um manjar suculento, a música, a dança, o convívio e a boa disposição não faltaram. Nem sequer faltaram as companheiras para um pé de dança a rigor: a Beatriz e a Catarina, sobrinhas do nosso frei Miguel. A Catarina com ano e meio de idade e a Beatriz com cinco anos e meio!

Nota de registo é a emoção com que os pais do frei Miguel viveram este convívio. Há muito tempo que eles sonhavam com um momento assim, tendo com eles, não apenas o seu filho capuchinho, mas uma comunidade de capuchinhos, irmãos do seu filho Miguel. O Senhor, sempre generoso e bom, concedeu-lhes hoje esta graça.

Como as horas não param e cada dia nos traz as suas preocupações, tivemos que regressar ao aconchego do nosso “convento”, mas não sem antes darmos graças ao Senhor pelas maravilhas deste dia, sobretudo pelos pais do frei Miguel, senhor Manuel e Dona Fernanda, e pela nossa vocação de franciscanos capuchinhos, pois, como lembrou o frei Luís: “Se não tivéssemos esta graça de sermos capuchinhos, não estaríamos aqui reunidos”. Cantámos o nosso “hino nacional”: «Desde que sou capuchinho, minha alma vive a cantar»; rezámos, em família, uma dezena do Rosário, orientada pela Beatriz.

Para que conste. Este povo acolhedor vai mostrando diariamente a sua generosidade. Hoje entregaram-me algumas notas de euros.

Para terminar bem o nosso Domingo, eis que veio o saudável repouso nocturno. “Nas tuas mãos, ó Pai, entrego meu espírito”

 

16 de Julho, segunda-feira

(Quarto dia)

Durante estes dias passados aqui, temos recebido logo de manhã, e até mesmo antes de sair da cama, a visita do Irmão Sol e o ressoar das horas e meias e quartos do sino ao som do “Ave de Lourdes”. Mas hoje não tivemos o ressoar do sino, e a visita do Irmão Sol foi já no campo da Fundação em Freixedas. Não podemos negar que, desde o primeiro dia, a «Fraternidade em Missão» tem vindo a contar com a generosidade das pessoas, mas, como diz o Seráfico Pai Francisco no seu Testamento: «Quero que todos os irmãos trabalhem em trabalho honesto. E os que não sabem, aprendam» (Testamento 20-21)

Assim, pelas 05h30 (sim, sim, da manhã!) já calcorreávamos as estradas a caminho de Freixedas. À nossa espera o Padre Ricardo, que nos levou a um vasto campo de… batatas!

Alguns tinham pela primeira vez uma enxada nas mãos! Mas a força do grupo e a actualizada «teologia da enxada» foram acicate para o empenho dedicado.

Como todas as manhãs temos a celebração de Laudes em Souropires, o frei Acílio e o frei Flávio encarregaram-se desse ministério litúrgico, em dia de Nossa Senhora do Carmo. Mas devem ter rezado mais salmos do que o habitual, pois bem levantávamos a cabeça para o lado do Sol poente para ver quando é que o frei Acílio viria ao nosso encontro. Nunca ele foi tão desejado e esperado! Finalmente, por volta das nove e tal foi grande o alvoroço e a alegria em nosso coração. A sua chegada correspondia a uma pausa na labuta das batatas e a um recuperador pequeno-almoço, bem mais consistente que o habitual. Bendito seja Deus!

Os Irmãos estavam de tal modo empenhados no ministério de arrancar as batatas, que o trabalho que estava previsto para duas manhãs (segunda e quarta-feira), foi concluído em cerca de quatro horas!

Eram dezenas e dezenas os sacos de batatas que arrancámos! No fim soubemos que as batatas que tinham sido vítimas da nossa falta de pontaria, ficavam para a nossa cozinha. Grande esperteza essa, a do “patrão”, em nos dizer esta alínea do “contrato” apenas no fim…

Como recompensa, surgiu a feliz ideia de, na manhã de quarta-feira, por falta de batatas para arrancar, irmos em visita cultural à cidade de Pinhel.

Para recuperar as forças do trabalho nada melhor que um almoço caseiro, confeccionado pelos Irmãos.

Às 16h00 um grupo foi a Freixedas para o encontro com os Acólitos, orientado pelo frei Odair. Depois, em dois grupos, partimos para a celebração eucarística: um foi para Sorval, tendo presidido o frei José Pires; e outro para Espedrada, presidindo o frei Acílio.

Hoje é um grande dia! É o dia do início dos tão esperados «Encontros Vida e Bíblia». Realizam-se das 21h00 às 22h30. 

Fomos divididos em dois grupos que permanecem nos três encontros: segunda, terça e quarta-feira. O primeiro reúne no Salão da Irmandade em Freixedas, composto pelos irmãos: frei Ricardo Tinoco – que orienta os encontros – e frei Acílio, frei Aventino, frei Flávio, frei John, frei Manuel Carlos, frei Manuel Ramos e frei Odair. O segundo grupo, reúne (não na capela mortuária, aonde inicialmente se dirigiram), mas na igreja paroquial de Pala, composto pelos irmãos: frei Miguel – que orienta os temas – e frei Agustinho, frei Ilivriano, frei José Garcia, frei José Pires, frei Luís Leitão e frei Rafael.

Estes Encontros têm como destinatários todos quantos quiserem participar. O tema do primeiro “Encontro Vida e Bíblia” é «Construir sobre a rocha» e questiona a influência da Bíblia na nossa vida, a partir de alguns textos do Evangelho de São Mateus. Em Freixedas estavam, além dos irmãos capuchinhos, uns 20 participantes; e em Pala, 33. Um participante especial é o senhor padre Ricardo que permanece um primeiro tempo em Freixedas, seguindo depois, como zeloso pastor, para o grupo de Pala.

Estes Encontros têm também como objectivo o nosso «estágio» pastoral e missionário, como agentes da Nova Evangelização, a partir do dinamismo bíblico iniciado há uns 60 anos pelo profeta frei Inácio de Vegas, colocando a Bíblia nas mãos do povo. E em boa hora. Tanto o frei Miguel como o frei Ricardo desempenharam a sua missão de animadores de tais Encontros.

Graças à nossa Cúria Provincial, a todos os participantes que não dispunham da Bíblia, era entregue o «Novo Testamento» da Difusora Bíblica, assim como o livrinho «Palavras de Vida».

A solicitude deste bom povo também se traduziu hoje nestas ofertas: alface, garrafão de vinho, dois sacos de batatas, pêssegos…

E “demos ao sono da noite o coração sossegado…

 

17 de Julho, terça-feira

(Quinto dia)

Começámos no dia 13 e já estamos a 17. O tempo corre veloz. Este é o quinto dia da «Fraternidade em Missão». E as nossas actividades têm corrido dentro da normalidade. Os dias vão passando e levam com eles as suas “alegrias e esperanças, tristezas e angústias”. Mas os novos dias também nos chegam carregados de surpresas. O Espírito do Senhor não se esgota na sua criatividade sem limites.

O início deste dia foi diferente. Começámos com o pequeno-almoço e só depois celebrámos as Laudes na igreja de Souropires. Hoje somos animados pelo zelo missionário do beato Inácio de Azevedo, jesuíta, nascido no Porto, e dos seus 39 companheiros que, a caminho das terras promissoras do Brasil, sofreram o martírio ao largo das Canárias. Noutros barcos seguiam mais 30 missionários que avançaram para a evangelização.

Seguindo o nosso calendário, previamente elaborado, hoje todos os caminhos vão dar à Serra da Estrela. Pelas 9h00 saímos do “conventinho” de Freixedas e, guiados pelo Padre Ricardo, dirigimo-nos para a Serra da Estrela, Depois de uma hora e vinte minutos de viagem, chegámos ao início da nossa peregrinação. O Padre Ricardo regressa às suas actividades paroquiais. Deixámos os carros e, a pé e ao sol, somos povo de peregrinos. O objectivo principal da nossa viagem “não é um passeio turístico, mas sim uma verdadeira peregrinação” - recordou o frei Acílio que, a partir daqui nos orientou. Entre as montanhas da Bíblia foram escolhidas apenas cinco para nos ajudar na caminhada: duas do Antigo Testamento e três do Novo Testamento. Em cada paragem proclamava-se o texto bíblico, seguido de uma reflexão do frei Acílio e, em várias paragens, também a partilha espontânea dos Irmãos. Foi evocada a teologia do monte e da montanha em todas as religiões, como símbolo de proximidade de Deus, de silêncio, de encontro consigo, de purificação, de contemplação das obras de Deus… Refrão insistente e apelativo: “Sobe à Montanha… e verás o Senhor”.

Primeira meta: o Monte Horeb (Ex 3,1-12). Na Serra da Estrela, estamos a 1.200 metros de altitude. Horeb é o monte da vocação e da missão. De Moisés e nosso. Por isso, em silêncio, cada um foi meditando no seu itinerário vocacional, amplamente reflectido ao longo deste ano

Segunda meta: monte Sinai (Ex 19,3-8). É a montanha da Aliança de Deus com o seu Povo. Deus propõe. O Povo acolhe: «Faremos tudo o que Senhor disse». Na caminhada, partilhámos, dois a dois, a maravilha do nosso Baptismo: dia, local, pároco, padrinhos…Na chegada à terceira meta, proclamámos o Credo baptismal.

Terceira meta: Montanha das Bem-aventuranças (Mt 5,1-12). Seguindo o dinamismo deste triénio das «Bem-aventuranças da Província», cada um proclamou uma das bem-aventuranças da Bíblia, sendo depois cotejada com as muitas Bem-aventuranças que Francisco de Assis compôs, sobretudo nas Exortações, a “quinta-essência do franciscanismo”. Na caminhada, dois a dois, fomos partilhando os santos e beatos capuchinhos com quem nos confrontámos ao longo deste ano.

Quarta meta: monte Tabor (Lc 9,28-36). Foi feita uma breve reflexão da Exortação Apostólica «Vita Consecrata» do beato João Paulo II (1996), na sua tríplice vertente: Mysterium Trinitatis, Sacramentum Fraternitatis, Servitium Caritatis. O “senhor Papa”, nesta Exortação tomou como ícone a página evangélica da Transfiguração. A Vida Consagrada é uma “vida transfigurada”. Para a reflexão durante a caminhada foi proposto o dia da nossa primeira profissão religiosa, com tudo o que ela envolveu.

Quinta meta: monte da Ascensão (Mt 28,16-20). São Mateus não nos indica o nome deste “monte” na Galileia, como a dizer-nos que em todos os montes e sobretudo nas situações de mais conflito e adversidade somos enviados a testemunhar e a anunciar o Senhor Ressuscitado. O nosso Ministro Geral insiste em que os Capuchinhos são enviados aonde mais ninguém quer ir… Para a reflexão foi proposto a atitude com que cada um de nós assume e vive esta experiência da «Fraternidade em Missão».

Um pouco mais e atingimos as Penhas da Saúde. Estamos a uma altitude de 1.500m. Às 12h45 entrámos com alegria na capela de Nossa Senhora da Saúde, um ambiente agradável, acolhedor, de muita frescura. Como quem entra no Cenáculo, no Monte Sião. Frei Acílio concluiu a sua missão, presidindo à celebração da Eucaristia, com a Oração Eucarística de inspiração franciscana. A Liturgia da Palavra tinha começado há duas horas.

Na casa das Irmãs Servas de Jesus retemperámos as forças com um manjar substancial, sem faltar o famoso queijo, sim, o da Serra… Como “sobremesa”, um diálogo muito instrutivo com o sr. Virgílio, um dos poucos pastores que ainda resistem às intempéries da Serra e do emprego. Nota final: quando o frei Luís se dispunha a fazer contas com as Irmãs, soube que já estava tudo resolvido – mais uma amabilidade do sr. Padre Ricardo.

Um dos objectivos a atingir nesta peregrinação era chegar à Torre, o ponto mais alto de Portugal continental – 2.000m. E chegámos, mas de carro. A montanha, as lagoas, as paisagens são as delícias para o nosso peregrinar. Paragem obrigatória: contemplar a ermida de Nossa Senhora dos Pastores, em plena rocha.

Passámos pelo “Tabor”… Mas resistimos à tentação da construção de tendas. Por isso, a descida foi veloz. Seguindo o dinamismo dos Magos, viemos por outro caminho, passando pelo Sabugueiro. Às 18h00 chegámos ao “convento”, ocupando-nos de vários afazeres, enquanto se preparava o jantar.

Depois do jantar, saímos para os «Encontros Vida e Bíblia», mantendo-se a mesma composição dos grupos e os mesmos dinamizadores: frei Miguel em Pala e frei Tinoco em Freixedas. Hoje com o tema cristológico «E vós, quem dizes que Eu sou?» Marcos foi o nosso pedagogo para nos levar a Jesus, verdadeiro Homem e verdadeiro Deus.

Registamos algumas ofertas desta boa gente: pêssegos, ameixas, pão, batatas, arroz (para gáudio dos nossos irmãos timorenses!), azeite (e que bom que ele é!) e euros…

Para terminar o dia, nada melhor que um gelado. E a bênção de Deus.

 

18 de Julho, quarta-feira

(Sexto dia)

Como é bom acordar pela manhã e receber, para além de um caloroso Bom Dia dos Irmãos, o abraço do Irmão Sol! É forte este abraço. Mais forte ainda é o espírito que nos anima nesta «Fraternidade em Missão»! Grande é a alegria das pessoas com quem contactamos. É o que sentimos em todas as localidades percorridas, através de palavras, de gestos de proximidade e de generosas ofertas. Mesmo em tempo de crise, a generosidade dos portugueses se eleva.

Houve alteração de programa. Às 8h00 celebrámos as Laudes na igreja de Souropires, animados pelo zelo pastoral de frei Bartolomeu dos Mártires, nosso irmão dominicano, nascido em Lisboa, grande bispo de Braga e grande luzeiro do Concílio de Trento.

Devido ao furor dos trabalhadores do campo das batatas, hoje fomos em visita cultural à cidade de Pinhel, a uns seis quilómetros da nossa residência. Uma cidade que, em tempos idos, foi sede da Diocese de Pinhel. Acompanhados do sr. Padre Ricardo, dedicámos toda a manhã a uma visita guiada, sob a orientação do dr. Laurindo. Começámos pela “sala de visitas” da cidade – uma linda praça, onde se encontra um antigo mosteiro de Irmãs Clarissas –; subimos ao Castelo; rezámos na igreja de Santa Maria; cantámos “Ó glorioso Deus altíssimo” na igreja de nosso Pai São Francisco… Concluindo com uma prova de vinhos na Adega Cooperativa de Pinhel, sendo calorosamente recebidos pelo seu Presidente, sr. Agostinho que, em improvisado discurso, teceu os maiores elogios à nossa presença e acção nestas terras, presenteando-nos com algumas caixas do precioso néctar.

Nota de registo: numa das ruas da cidade, cruzámo-nos com a Dona Maria Alice, Presidente da Junta de Freguesia de Bouça Cova, concelho de Pinhel. Mulher de rasgo, empunhava nas mãos umas cartas, com assuntos urgentes a resolver. Idade da Presidente? Apenas 98 anos e cinco meses!

De regresso a casa, quando já nos preparávamos para confeccionar o almoço, os nossos Mestres foram interceptados no caminho pelo sr. Padre Ricardo e pelo Presidente da Junta de Freguesia de Freixedas. Ordens severas do sr. Presidente: «O vosso almoço é no Restaurante junto da estação de serviço de Freixedas.» E por sua conta. Bem-haja, senhor Presidente!

Dando continuidade ao programa da Missão, pelas 16h00 alguns Irmãos dirigiram-se a Freixedas para, juntamente com os jovens de Souropires e Freixedas realizarem o famoso “Peddy-Paper”. Em grande! Nem outra coisa é de esperar dos Jovens!

Às 18h40 saímos em dois grupos para a celebração da Eucaristia. Um grupo dirigiu-se a Roque, presidindo o frei Acílio. Uma comunidade bem animada, com a surpresa muito franciscano-clariana de ali se encontrarem dois irmãos: o Francisco e a Clara. A primeira leitura foi brilhantemente proclamada pelo pequeno Francisco. No final, uma das animadoras da comunidade desabafou: «Se nós sabíamos que isto era assim, tínhamos preparado uma boa merenda!” Um segundo grupo seguiu para Santa Eufêmia, tendo presidido o frei José Pires.

Este é o terceiro e último dia dos «Encontros Vida e Bíblia». Nos mesmos locais e com os mesmos orientadores: frei Miguel em Pala e frei Tinoco em Freixedas. O tema de hoje está muito ligado ao Concílio Vaticano II, com sonhos de uma nova imagem da Igreja, com a grande interpelação: «Igreja, que dizes de ti mesma?» Fomos ajudados pelo evangelista São Lucas. Com duas rosas na mão, o frei Tinoco foi distribuindo uma pétala a cada participante…Sendo o último dia, notava-se a amizade e a proximidade das pessoas. E até o encontro foi mais prologando que nos dias anteriores. Os participantes mostraram-se muito agradecidos pelo que fizemos, tendo manifestado esses sentimentos com uma estrondosa salva de palmas.

Apesar da hora adiantada da chegada ao “conventinho”, uma excelente sopa nos esperava. Tal como nos Evangelhos: nem há tempo para comer!

Para memória futura: além do almoço, hoje recebemos outras ofertas: vinho, alface, cebola, pepinos (para alegria do frei Luís!), grão-de-bico, feijão, abóboras, azeite e euros… Te Deum laudamus!


19 de Julho, quinta-feira

(Sétimo dia)

… E ao sétimo dia, Deus descansou. Mas confiou-nos a «Fraternidade em Missão». E as actividades continuam, ainda com mais entusiasmo.

Quinta-feira é sempre um dia especial. Os motivos são muitos. É o dia ligado ao Cenáculo e à instituição da Eucaristia e do mandamento do amor fraterno. No Amial (Porto), todas as quintas-feiras são dias da nossa Eucaristia em fraternidade – uma das antecipações teológicas de Francisco de Assis.

Às 8h00, o Senhor brindou-nos com uma surpresa: a adoração do Santíssimo, precisamente por ser… quinta-feira. O canto solene das Laudes foi integrado nesta hora de adoração, contemplação e louvor. Vivemos umas Laudes tipicamente franciscanas, saboreando as maravilhosas orações e cânticos do Pai São Francisco. Presidiu o frei Acílio.

Após esta rica oração matinal, tomámos o pequeno-almoço e aproveitámos uma parte da manhã para arrumações no «Centro Cívico e de Dia» ou «Cine-Teatro» de Souropires, em ordem à representação da peça «O meu Francisco».

A convite dos pais do frei Miguel, o almoço foi na mata da Quinta da Folhinha. À sombra das irmãs árvores, o petisco foi variado e abundante. Mais rico ainda foi o convívio entre todos. O Senhor abençoe sempre estes nossos “pais”.

Para a celebração da Eucaristia, de novo dois grupos: um grupo foi para João Durão e outro celebrou em Pala, presidido pelo frei José Pires. Em João Durão as pessoas prepararam a celebração a rigor. Assim, mal os pés dos primeiros missionários pisaram o chão da igreja, todos – crianças e adultos – desataram em animada cantoria: «Bem-vindos, bem-vindos à nossa terra! Bem-vindos, bem-vindos! / Grande é a vossa missão!  Bem-vindos, bem-vindos ao nosso João Durão!» Com uma entrada destas, já se adivinha o ambiente festivo da celebração. Enquanto o frei Acílio se recolheu na sacristia para a paramentação, foi feito o apelo a todo o povo: «Sejam generosos, porque o ofertório é para os nossos Missionários». Vivemos uma Eucaristia tipicamente «carismática e pentecostal», pois o Padroeiro de João Durão é o Espírito Santo e até celebram a festa mesmo no Domingo de Pentecostes.

A tarde foi muito agitada. Os missionários, à noite, iriam transformar-se em artistas, com palco e tudo. Nas comunidades que animámos ao longo destes dias, fomos entregando o programa com todas as actividades da «Fraternidade em Missão». Todos sabiam que esta noite, às 21h00, no «Centro Cívico e de Dia», em Souropires, se realiza a peça de teatro «O meu Francisco».

Ao aproximar-se a hora, de todas as localidades acorriam as pessoas: crianças, adolescentes, jovens e adultos. Com ar festivo. As 157 poltronas estavam ocupadas, e havia muita gente de pé. O acolhimento e a animação estiveram a cargo de frei Acílio.

A peça retrata algumas das principais etapas da vida de Francisco, sendo relatadas por contemporâneas do Poverello de Assis. Hoje e por ordem de entrada em cena: um confidente de Dona Pica, a mãe de Francisco (frei Agustinho), um companheiro e amigo das farras da juventude (frei Tinoco), o leproso de Rivotorto (frei José Garcia), o capelão da igrejinha de São Damião (frei Luís), dois dos primeiros companheiros de Francisco – frei Bernardo de Quintavale e frei Pedro (frei John e frei Flávio), Pedro Bernardone, o pai do Chiquinho (frei Miguel), o ministro geral aquando da morte de Francisco, frei Elias (frei Rafael), finalmente, o confessor de Francisco e seu confidente de todas as horas – frei Leão (frei Manuel).

Embora já tivéssemos representado esta peça de teatro noutras ocasiões, desta vez houve bastantes adaptações. E para melhor.

A peça concluiu com o cântico a três vozes: «Altíssimo, omnipotente e bom Senhor», música de Leonel Ribeiro. Durante toda a apresentação as pessoas estavam atentas, passando por momentos de profundo silêncio, assim como por outros de grande hilaridade.

A meio da peça, e a cargo de frei Acílio, houve um tempo de animação com cânticos franciscanos e também uma criativa adaptação do Salmo 150.

A terminar, houve a “ameaça” de encerrar esta maravilhosa noite com o Hino nacional. Mas… reinou a tranquilidade e a alegria quando o frei Luís puxou do acordeão e todos os fradinhos em palco começaram a cantar o «Hino nacional»… dos Capuchinhos: «Desde que sou Capuchinho, minha alma vive a cantar…» Os espectadores – sempre participantes e inter-activos – pediam bis, mas o relógio não pára. Em louvor de Cristo e de seus servos Francisco e Clara de Assis. Ámen. Aleluia!

Enlevados com tantas maravilhas, não esquecemos as populações atingidas nestes dias com o flagelo dos incêndios. O inferno das chamas desceu ao Funchal e ao Algarve. Coragem, soldados da paz e da solidariedade!

 

20 de Julho, sexta-feira

(Oitavo dia)

Sim. O «Oitavo Dia». Mas ainda não é o da Pátria celeste. Somos peregrinos, vivendo o “já” e o “ainda não”.

Nas Laudes de hoje, eram mais numerosos os participantes. Sempre em Souropires e às 8h00. Foi uma celebração de louvor, mas também de penitência. A Aliança tem um movimento ternário: a bondade de Deus, o nosso pecado e a misericórdia infinita do Abbá. Foram incluídas algumas orações de São Francisco. O Salmo 51 (Miserere), que aparece em todas as sextas-feiras, foi rezado de joelhos, e partilhámos espontaneamente alguns versículos no fim. Presidiu o frei Acílio.

Logo depois do pequeno-almoço saímos para a cidade dos cinco «F», orientados pelo sr. Padre Ricardo. Grande objectivo: saudar o senhor bispo da Diocese onde nos encontramos em Missão, D. Manuel Felício. Ele recebeu-nos de braços abertos. Referiu que estava muito satisfeito com a nossa opção em termos vindo para estas terras. Recordou e glosou uma frase do papa João Paulo II: «Os religiosos devem manter abertas as portas do seu convento». Para que os leigos possam entrar e beber a sua experiência de Deus. Exactamente o que as nossas Constituições prevêem. O encontro, que durou cerca de meia hora, concluiu com uma oração vocacional e a bênção do nosso Pastor.

Depois, visitámos a Sé Catedral da Guarda, que nos foi apresentada, em largos traços, pelo frei Miguel. Junto do Sacrário, rezámos como Francisco: «Adoramos-Te…» e «Ó glorioso Deus altíssimo…»

Deu ainda para visitarmos as redondezas da Sé, com a ajuda do cicerone frei Miguel. Foram desvendados os cinco «F» da cidade da Guarda: farta, fértil, fiel, formosa e fria.

Regressados a casa, tínhamos à nossa espera um excelente almoço, cuidadosamente preparado pelo frei José Pires e frei Rafael. Connosco a conviver e a saborear tão deliciosos aperitivos e petiscos os párocos que tão amavelmente nos acolheram: o padre António Freire, de Souropires, e o padre Ricardo, de Freixedas. Para confeccionar este almoço, os dois cozinheiros renunciaram à visita à cidade de Guarda.

Uns vão e outros vêm. Logo depois do almoço e quase ao mesmo tempo chegaram três carros com mais missionários. De Lisboa, veio o ministro provincial, frei António Martins; de Fátima, o frei Manuel Rito com três elementos do LCM (= Leigos Capuchinhos em Missão): Rafael Rito, enfermeiro (irmão do frei Rito), Ana Maria (enfermeira, do Barreiro), e Maria Fernanda (professora, de Rio Tinto – Gondomar); de Gondomar, o frei José Maria e o frei Júlio, com os dois Postulantes David Ganilo (da Madeira) e Rui Pedro (de Penafiel). Muitos abraços acolhem estes irmãos. Mas, também há abraços de despedida e saudade: frei José Pires, frei Manuel, frei Flávio e frei Odair partiram rumo ao Porto, a fim de seguirem para outras mais longínquas paragens.

À noite, pelas 21h00, todos os caminhos iam dar a Freixedas. Os participantes nos «Encontros Vida e Bíblia» e quantos quisessem associar-se eram convidados para a «Festa da Palavra». Tudo foi cuidadosamente planeado pelo frei Acílio. Ponto de encontro foi o Salão da Irmandade, junto à capela de Santo Antão. Houve um tempo de preparação, com ensaio e distribuição de tarefas. Após a incensação da Palavra de Deus, iniciou-se a procissão, presidida pelo frei António Martins, nosso Ministro Provincial: à frente, a Cruz paroquial, ladeada pelas lanternas; seguiam-se vários símbolos da Palavra; novidade era o andor da Palavra, belamente engalanado, a destacar a beleza que a Palavra de Deus quer trazer à pessoa e ao mundo. E muita gente. Para transportar o andor foram destacados inicialmente: o pároco, Padre Ricardo, um missionário, frei Agustinho e dois participantes nos Encontros.

Pelo caminho, várias paragens, para interiorizar, cantar e proclamar a verdade fundamental: «Jesus Cristo em cada livro da Bíblia! Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida!»

Na igreja matriz de Freixedas, a Celebração da Palavra, com duas leituras fundamentais: Act 2,42-47 (assíduos à Palavra…) e Jo 6,60-69 (Tens palavras de vida eterna…) Como eco e encarnação dos apelos do Espírito: a homilia do Ministro Provincial, lembrando a importância que o Concílio Vaticano II concede à Palavra e à Eucaristia; um jogral, apresentando a Palavra de Deus como luz, pão, fonte de água viva, força, paz, ressurreição e vida nova, apelo ao anúncio e vivência. Síntese radical: a Palavra é Jesus Cristo!

Momento importante foi o dos testemunhos, começando pelo frei Miguel e frei Tinoco – os dois orientadores dos «Encontros Vida e Bíblia»; seguidos dos testemunhos da Maria Fernanda, dos LCM, e de uma senhora do Barreiro…

Procedeu-se depois à Bênção das Bíblias e dos Novos Testamentos que os participantes tinham em suas mãos, para que se tornassem discípulos, apóstolos e profetas de Cristo Jesus e da sua Boa Nova.

Frei Acílio lembrou-nos que, foi em Pinhel, em Março de 1999, que os Capuchinhos organizaram pela primeira vez uma procissão com o andor da Palavra.

A Festa da Palavra terminou com o desafio a entrarmos na dinâmica que Bento XVI nos propõe na recente Exortação Apostólica «Verbum Domini»: a leitura orante da Palavra de Deus (Lectio divina) a nível pessoal, familiar e de pequenos grupos…Esta é a esperança da Nova Evangelização!

 

21 de Julho – Sábado

(Nono dia)

Com o nono dia, o nosso coração rejubila com a incomparável «Nona Sinfonia» de Beethoven, sobretudo o majestoso Hino da Alegria ou Hino da Liberdade, que temos cantado com insistência: «Cristo Jesus é Boa Nova de Alegria…»

De manhã, fomos alertados com a notícia do «proto-mártir» da Fraternidade em Missão. Mas, comecemos pelo princípio. Ontem à noite, depois da Festa da Palavra em Freixedas, frei Acílio e frei Tinoco aproveitaram a boleia do Provincial rumo ao “conventinho” de São Francisco, em Souropires. Ao chegarem a casa, deparam-se com a porta trancada, sem saber quem teria a chave. A sede apertava, frei Martins queixava-se das diabetes e da necessidade de comer qualquer coisa. Espera-se. Volta-se a esperar. Em vão. Até que o frei Tinoco tem uma ideia luminosa: apercebe-se que está aberta uma das janelas do escritório. Em dois pulos, está dentro de casa! Frei Acílio – como um jovem de 20 anos – arrisca também o salto. Só que o pé esquerdo fica-lhe preso no parapeito da janela e o pé direito, com grande esforço, alcança o chão da sala. Ouve-se um esticão. Feito o diagnóstico, constata-se que se trata de uma muito aguda distensão muscular no joelho esquerdo – coisas próprias de grandes desportistas, como é o caso. Pouco a pouco as dores vieram. Cada vez mais intensas. A noite foi em claro e a aurora não mais chegava. «Mais do que as sentinelas pela aurora, o Acílio espera pelo Senhor… Irmão Sol» (Sl 130).

À hora exacta – 8h00 – os Irmãos foram para as Laudes. E bem solenes, pois celebramos hoje a festa do nosso capuchinho São Lourenço de Brindes, o Doutor Apostólico. Com hino próprio, como convém. Presidiu o Ministro Provincial, frei António Martins.

Como é o Senhor quem conduz a História, dois elementos dos LCM, o Rafael Rito e a Ana Maria são enfermeiros. Chegados ontem, já esta manhã entram ao serviço. O “crime” é reconstituído, e no mesmo local. Tomam nota da ocorrência e, acompanhados do solícito Padre Ricardo, vão pelas farmácias em busca de anti-inflamatórios e de Gel para as massagens, que o Rafael Rito inicia imediatamente. Umas Laudes diferentes. Ainda houve ameaças de que uma famosa «endireita» da região viria repor tudo na ordem… Temos com que nos “entreter”. E lá se vai o precioso fruto da videira, que por estas terras é tão generoso. Quousque tandem?!

Pelas 9h30 os Irmãos saíram para o «Lar Santa Eufêmia» (dizem outros: «Santa Fêmea, porque Eu…Macho»…), em Freixedas. Às 10h00, animação com os idosos, a cargo de frei Luís e frei Ilivriano. Seguiu-se a celebração da Eucaristia, presidida pelo Provincial.

Os redactores destas “crónicas” ficaram retidos em casa. Em trabalho esforçado.

Mais uma vez, os pais do frei Miguel, sempre solícitos e generosos, convidaram os fradinhos e o padre Ricardo e os LCM e mais alguns familiares para a sua casa na rua da Quinta da Folhinha. Frei Acílio também nos acompanhou e, na falta de canadianas, agarrado ao cabo de uma vassoura… E o almoço decorreu de novo no pinhal já nosso conhecido. Assim, vamos dando mais valor e conteúdo à oração que, em todas as tardes, nas Vésperas, fazemos pelos nossos benfeitores.

A tarde foi de descanso. Alguns felizardos ainda arriscaram uns mergulhos na piscina de Freixedas.

Às 19h00, dois grupos partiram para as celebrações vespertinas. Frei António Martins presidiu em Espedrada. Vieram mais carregados de presentes que os Reis Magos…E frei Rito, em Gouveias. Frei Acílio continua em casa, aproveitando a tarde para elaborar um esquema para a Adoração da noite.

Depois do jantar, partiram três grupos para a Adoração do Santíssimo. Frei António Martins presidiu em Freixedas; Frei Rito, em Alverca da Beira. Frei Acílio ficou com o grupo de Souropires – igreja onde se reuniu o maior número de fiéis. Foi uma «hora» de oração, adoração e contemplação muito marcada pela dimensão missionária. Exposto solenemente o Santíssimo Sacramento e após a incensação e algumas preces, houve o primeiro tempo de oração silenciosa. Os mistérios gozosos do Rosário assumiram um cunho missionário, rezando em cada dezena por um dos 5 Continentes: a África (com o verde das matas e da esperança), as Américas (com o vermelho dos peles-vermelhas e o sangue dos mártires), a Europa (a cor branca da raça e do «homem vestido de branco»), a Oceania (a cor azul dos mares) e a Ásia (a cor amarela das raças, berço de culturas e religiões). Riqueza de uma equipa de apenas 5 missionários, e a presença de 4 Continentes: frei Ilivriano (África), David (América, onde nasceu), frei Acílio e frei Tinoco (Europa) e frei John (Ásia – sendo esta última dezena do Rosário rezada em Tétum, uma das duas línguas oficiais de Timor-Leste).

A concluir cada dezena, a prece cantada: «Ó Maria, Rainha das Missões, dai-nos muitos e santos missionários!»

Depois de um tempo mais prolongado de oração silenciosa, a proclamação da Palavra de Deus: Jo 15,1-8: «Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós… Se alguém permanece em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto… Sem Mim nada podeis fazer…»

Também neste tempo de contemplação, as Orações de São Francisco foram precioso apoio, sobretudo os ardorosos “Louvores ao Deus altíssimo”, sendo no fim partilhados e recriados espontaneamente.

Após a bênção do Santíssimo, cantámos, com Maria, Mãe da Eucaristia, as maravilhas que o Pai faz em nós e nestas comunidades cristãs e em toda a terra.

 

22 de Julho – Domingo

(Décimo e último dia)

Há oito dias que andamos a suspirar: «Nunca mais é… Domingo!» É hoje! «Este é o dia que o Senhor escolheu para nós o vivermos na alegria…»

Às 8h00, Laudes dominicais. Presidiu o Provincial.

Depois do pequeno-almoço, partiram dois grupos para as celebrações dominicais às 10h00: um grupo para Alverca da Beira, presidindo o frei Rito; e outro grupo, em Pala, presidindo o Provincial, frei António Martins.

Às 12h00, a Eucaristia em Souropires, presidida pelo frei Rito, com a presença dos missionários frei Agustinho, frei Ilivriano, frei Miguel e Maria Fernanda, dos LCM.

O coração dos missionários voa até ao Santuário de Nossa Senhora das Fontes, em Santa Eufêmia, uma das seis paróquias do sr. Padre Ricardo. Também às 12h00 acontece a celebração da Eucaristia, com o encerramento da «Fraternidade em Missão». Nossa Senhora conduz-nos à Eucaristia. Maria é a fonte e a Serva da Palavra; é a fonte e a Mãe da Eucaristia; é a fonte e a Senhora do Pentecostes.

A Eucaristia foi presidida pelo Ministro Provincial, frei António Martins. A animação esteve a cargo de frei Acílio. Na falta de órgão, o frei Luís empunhou o seu acordeão e tentou um registo que lembrasse o som dos antigos «harmónios».

Como todos os santuários, também este se encontra num local agradável, incluindo muitas árvores que nos bafejavam com a sua preciosa sombra. Pois foi Missa campal. Ao lado esquerdo do altar, em lugar de destaque, o grupo coral. Mas todos os participantes dispunham do livrinho «Palavras de Vida». E todos os cânticos ali se encontravam, possibilitando que todos cantassem com arte e com alma.

Ainda na dinâmica dos «Encontros Vida e Bíblia», antes das leituras dominicais, foi feita a aclamação à Palavra de Deus, com o cântico: «Palavra do Senhor – Luz dos meus caminhos! Palavra da Salvação – Guia dos meus passos!»

Não é preciso muita imaginação para situar esta «Fraternidade em Missão» no arco destes dois Domingos do Tempo Comum. No passado Domingo, Jesus «chamou» os apóstolos e «começou a enviá-los» dois a dois. No Evangelho deste Domingo, encerramento da Missão: «Os Apóstolos voltaram para junto de Jesus e contaram-Lhe tudo o que tinham feito e ensinado. Então Jesus disse-lhes: «Vinde comigo para um lugar isolado e descansai um pouco».

O importante é voltar «para junto de Jesus» e «com Ele» descansar um pouco… Porque a Missão urge e do outro lado da margem há multidões à nossa espera!

No final da Eucaristia, procedeu-se à celebração do Envio. Ao longo de 10 dias estivemos aqui os 15 missionários Capuchinhos. Hoje, todos são missionários, enviados a viver e a testemunhar Jesus Cristo e o seu Evangelho. A Bíblia grande, aberta em frente ao altar, apresentada por dois missionários: frei Manuel Carlos e a Ana Maria, dos LCM. Aproximaram-se dois fiéis de cada paróquia: Freixedas, Gouveias, Pala, Santa Eufêmia, Sorval e Valbom (Padre Ricardo) e Souropires (Padre António Freire). Colocavam a mão direita sobre a Bíblia. Um leitor evocava situações a necessitar de uma Feliz Notícia. O Presidente da celebração, em nome de Cristo, enviava-os a anunciar a Boa Nova do Reino. A seguir, o frei Manuel Rito, Vigário Provincial, entrega-lhes uma Bíblia das grandes, oferta da nossa Província dos Capuchinhos, e compromisso de evangelização para toda a Paróquia. O cântico «Ide por todo o mundo…» selava o envio.

Como «extra» da celebração, frei Acílio convidou todos os Missionários para junto do altar. Aí cantámos o lema da Missão: «Fraternidade em Missão». Depois, e a pedido de muitas famílias – pois na noite do teatro «O meu Francisco», no final, as pessoas pediam bis com insistência. Foi agora secundado o seu desejo: voltou o acordeão do frei Luís e todos em festa, ao ritmo das vibrantes palmas da assembleia, cantámos o nosso «Hino nacional”: «Desde que sou Capuchinho, minha alma vive a cantar…»

Nossa Senhora das Fontes, rogai por nós!

Após a celebração, todos se espalharam pelo vasto recinto e deram início ao almoço/convívio, partilhando os bons farnéis.

Alimentados no espírito e no corpo, mesmo sem estarmos no Minho, foi fácil criar ambiente de arraial. Basta soar o acordeão do frei Luís. Foram uns 90 minutos de alegria e de festa e de convívio. Ao redor da Mãe, a Senhora das Fontes. A Fonte da Alegria. E da Fraternidade. E da Missão. E de novo, para concluir esta «Fraternidade em Missão», voltou a soar, de modo vibrante, o “Hino nacional”. E o povo quis aprender a letra e a música. E todos cantavam e dançavam o seu compromisso missionário e franciscano: «Por isso eu vivo feliz / Indo p’la vida ligeiro. / Sei o que Cristo me diz: / Da Paz e do Bem ser mensageiro.»

«Louvai e bendizei a meu Senhor,

Dai-lhe graças e servi-O com grande humildade!»

Programa de amanhã: às 8h00, celebração da Eucaristia, com as Laudes de Santa Brígida, co-Padroeira da Europa. A missão nasce da contemplação! Manhã para arrumos. Depois de almoço, será o nosso regresso ao Porto. Ámen. Aleluia!

Redactores:
frei José Garcia
e frei Acílio Mendes
Foto:

frei Ricardo Tinoco

 

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