Capuchinhos

Faleceu o frei Avelino de Amarante

Frei Avelino de Amarante

Fr. AVELINO DE AMARANTE
CARLOS FERNANDES PEREIRA DE CARVALHO
(Amarante, 16 de Maio de 1931 – Porto, 21 de Março de 2018)

Frei Avelino de Amarante (Carlos Fernandes Pereira de Carvalho) nasceu na freguesia da Chapa, concelho de Amarante, em 16 de Maio de 1931. Entrou no Seminário Seráfico dos Capuchinhos, no Porto, a 3 de Janeiro de 1944. Emitiu a profissão religiosa com o nome de Avelino de Amarante a 15 de Agosto de 1947 em Barcelos, a perpétua a 18 de Maio de 1952 no Porto e recebeu a ordenação sacerdotal na Igreja do Carvalhido, Porto, a 2 de Fevereiro de 1954 das mãos do Senhor Dom António Ferreira Gomes, Bispo da Diocese do Porto.

Fez os estudos de Filosofia em Barcelos, de 1947 a 1950, e os de Teologia em Saragoça e Porto, entre os anos de 1950 a 1954. Foi depois para o Seminário de Vila Nova de Poiares como Professor. Em 1955 veio para Barcelos com o ofício de Pregador. No ano seguinte foi integrado na fraternidade do Porto onde, durante quatro anos, se dedicou inteiramente à pregação. Em 1960 foi nomeado Superior dessa Fraternidade. A 16 de Julho de 1963 foi designado Superior da Fraternidade de Coimbra e, em 1966, foi nomeado Superior da fraternidade de Barcelos. Em Julho de 1967 voltou para Coimbra como Superior e em 1969 acumulou esse cargo com o de Superior de Fátima, acumulando também os ofícios de Administrador e Ecónomo desta última fraternidade.

Em 1969, com a elevação do Comissariado a Província Portuguesa dos Capuchinhos realizou-se o I Capítulo Provincial, no qual o Frei Avelino foi eleito 2° Definidor. No triénio seguinte, de 1972 a 1975, foi eleito pelos irmãos capitulares para Vigário Provincial e 1° Definidor. Em 1985 voltou a ser eleito para o Conselho Provincial como Definidor. Entretanto, em 1972, foi nomeado Superior da Fraternidade do Porto e, em 1975, o Senhor Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, nomeou-o Pároco do Amial, Paróquia de Nossa Senhora de Fátima, serviço pastoral que desempenhou até 1981. Nesse ano, em Outubro, partiu para Madrid, onde obteve no ano seguinte, o Bacharelato em Teologia no Instituto Superior de Pastoral. Em 1982, no mês de Outubro, foi nomeado Superior da fraternidade de Gondomar e Vice-Director do Seminário. Em 1984, o VII Capítulo Provincial elegeu-o como Vigário Provincial e 1º Definidor.

No dia 27 de Maio de 1987, o VIII Capítulo Provincial elegeu-o como Ministro Provincial, passado a viver na Cúria dos Capuchinhos em Lisboa. Durante este seu mandato programou e presidiu às comemorações do Cinquentenário da Província dos Capuchinhos de Portugal, efeméride que foi celebrada em todas as fraternidades do país, sendo publicada a obra «Os Capuchinhos em Portugal – Memória de um Cinquentenário (1939-1989)», que ele mesmo prefaciou.

Regressa ao Porto em Junho de 1990, desempenhando, entre outros encargos, o ofício de pregador e ainda o cuidado dos doentes, como Capelão do Hospital de Oncologia do Porto e, em Novembro desse ano, partiu para Roma (cidade de Frascati) a fim de participar no Curso de Formação Permanente destinado aos capuchinhos da Península Ibérica. Em 1993 é nomeado para Superior e Ecónomo da Fraternidade de Gondomar, ofícios que desempenhou até 1999, acumulando ainda as funções de Capelão do Hospital de Oncologia do Porto, e integrando também o Conselho Provincial de Pastoral.

Em 1999 é destinado à Fraternidade do Porto onde, além continuar como Capelão do Hospital de Oncologia, exerce o cargo de Vigário Paroquial. Em Maio de 2001 deixa a actividade de Capelão do Hospital de Oncologia do Porto, por ter atingido o limite de idade para o ofício. Foi uma das actividades que lhe era muito querida e onde granjeou muitas amizades, fruto da sua simpatia entre todo o pessoal hospitalar, médicos, enfermeiros, pessoal auxiliar e doentes. Em 2002 é nomeado para Superior e Ecónomo da Fraternidade do Porto, ofício que desempenha até 2008. Deste ano até 2011, exerce o cargo de Ecónomo da fraternidade do Amial. Há vários anos que também se dedica ao apostolado da saúde no Hospital de Santa Maria do Porto. Em 2014 passa a residir neste hospital, dando assistência religiosa e, ao mesmo tempo, fazer tratamentos da sua saúde que começava a dar sinais de muita fragilidade.

Em 2018, o seu estado geral de saúde foi-se agravando progressivamente, tendo necessidade de um cuidado mais vigilante do pessoal médico hospitalar.

Finalmente, na manhã do primeiro dia da Primavera, 21 de Março de 2018, veio visitá-lo, como cantou São Francisco de Assis, a “Irmã Morte”, através de um “sindrome mielodisplásico”, certificaram os médicos.

Contava 86 anos de idade, 70 de vocação franciscano-capuchinha e 64 de Sacerdócio.

Fr. Avelino, transfigurado pela Páscoa de Jesus Cristo, passou a viver a felicidade dos eleitos. Esteve no mundo como “peregrino e forasteiro”, como São Francisco de Assis pedia aos seus Irmãos, e vive agora ressuscitado numa eterna Primavera junto do “Altíssimo, Omnipotente e Bom Senhor”.

Além das excelsas qualidades humanas que ele possuía, como a fácil empatia com as pessoas, a sua proximidade com toda a gente, o relacionamento simples e alegre, na linha da genuína tradição dos Irmãos Capuchinhos como “homens do povo”, e um coração muito humano e “maternal” que a todos encantava, o Fr. Avelino era dotado de um timbre de voz muito peculiar, que ele utilizou ao serviço do ministério sacerdotal, quer no canto, quer na pregação popular. Devemos realçar, entre os seus apostolados mais brilhantes, as “Missões Populares” (pregação popular), que se realizaram ao longo de várias décadas. O Fr. Avelino participou, desde 1959, na Missão de Aveiro e de Santa Bárbara (na Ilha Terceira), Mesão Frio, Viana do castelo, S. João da Madeira, Guimarães, Montemor-o-Novo, Lamego, Missões regionais da diocese do Porto (1965-1966), Celorico da Beira, Oliveira de Azeméis, Missão da Covilhã, Póvoa de Varzim e Bragança, entre outras. A nível individual, dedicou-se ao anúncio da Palavra de Deus em todo o país, sobretudo no norte e no interior, e também no estrangeiro (Canadá). Escreveu também várias reflexões sobre os textos bíblicos da liturgia dominical publicados pela revista «Bíblica».

Dedicou-se, ao longo da sua vida, também a várias actividades culturais e desportivas, integrando, por exemplo, o grupo dos “Amigos dos Comboios” e “Sport Progresso”, de Paranhos. Dele escreveu o «DN» (7-3-2008), por ocasião do centenário deste clube desportivo:

«É impossível falar do Progresso sem falar do padre Avelino. Este frade franciscano, de 76 anos, sempre gostou muito de futebol e costumava ir ver os últimos minutos dos jogos do clube, até ao dia em que lhe pediram para pagar bilhete. Fez-se sócio e não hesitou quando convidado para assumir a presidência da Assembleia-Geral. Quando era novo, jogava com os colegas de seminário. E conta que "os eléctricos paravam para ver os frades jogar descalços e de hábito". Tinha tanto jeito que chegou a ser convidado para jogar no Futebol Clube do Porto. Não aceitou, mas foi jogando umas peladinhas com Barrigana, Perdigão, Carlos Duarte, Nuno Brás, aqueles que poderiam ter sido seus colegas de equipa.»

O jornal “Mensageiro do Carvalhido” assim definia o Fr. Avelino, em 2004:

«Na comemoração das Bodas de Ouro Sacerdotais deste Homem Grande e Bom, dinâmico e alegre, generoso e Amigo, de sorriso franco e coração aberto, andarilho do mundo, arauto de Deus, diremos apenas: Bem hajas, Frei Avelino! … de Amarante… do Carvalhido… de Jesus Cristo!»

 

Fr. Avelino de Amarante

A festa destes 50 anos de Sacerdote
não é dedicada a mim, mas ao
Sacerdócio de Jesus Cristo!

Homilia nas Bodas de Ouro Sacerdotais
Porto, 01 de Fevereiro de 2004

“Viestes aqui para darmos todos graças a Deus pelos 50 anos da minha Vida Sacerdotal. Sacerdócio Ministerial. Sacerdócio Ordenado. Se viemos para dar graças, começamos por agradecer a Deus, à Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, que me criou, que pensou em mim desde toda a eternidade e, como no livro de Jeremias, da primeira leitura, antes de ser concebido no seio materno, Ele já pensou em mim. Antes de eu nascer, já desde o seio de minha Mãe, Ele me escolheu, me consagrou, para ser Profeta, para ser Sacerdote, participante da realeza de Cristo pelo Sacerdócio e também pelo seu Corpo Místico, porque, se Deus não me criasse, não havia bodas de ouro, nem sacerdote, nem capuchinho. O meu primeiro agradecimento vai para o Filho de Deus, o meu Senhor, Aquele que São Francisco contemplava, o que me tirou do nada, me deu existência, que deu o dia, que criou o homem… Obrigado, ó meu Deus, pela Tua obra criadora.

Tenho 72 anos e nove meses de Vida. De vida humana. Mas eu não quero só agradecer a Deus, quero agradecer também à Igreja, que me acolheu no seu seio, naquela comunidade, perto de Amarante, na paróquia da Chapa, onde os meus pais e a minha irmã viviam e foi ali que eu fui concebido filho da Igreja e, ao nascer filho da Igreja, nasci filho de Deus.

Tenho 72 anos e oito meses de Cristão, de filho de Deus, nesta Igreja Santa, Católica e Apostólica, que também tem pecadores e eu sou um deles, mas agradeço à Santa Mãe Igreja o ter acolhido esta criança (…). Sou filho, sou cristão e também sou sacerdote. Quero agradecer à Ordem Capuchinha.

56 anos e nove meses que eu fiz a minha Profissão Religiosa. Sou Capuchinho com toda a alegria e quem me dera que todos os meus Irmãos Capuchinhos sentissem a alegria e a felicidade que eu tenho e que eu sinto ao ser frade capuchinho! É que eu sou feliz! No início da minha vocação o pároco do Carvalhido propôs que eu fosse para pároco da diocese, mas eu disse: ‘Quero ser um fradinho como o Frei Jerónimo, quero pregar como o Frei Jerónimo!’ Ele fez um sermão a São Francisco que me derreteu… Por isso, agradeço à Ordem Capuchinha que me acolheu, onde professei e iniciei a minha vida de consagrado, e aos meus irmãos (…).
50 anos de Sacerdócio!

Há cinquenta anos, na Igreja do Carvalhido, o senhor D. António Ferreira Gomes impôs-me as mãos e eu recebi, da Igreja, este Sacramento: o Sacerdócio Ordenado, o Sacramento das Ordem. O Sacerdote, ao ser Sacerdote, não se pertence a si mesmo, é um dom de Deus para o Povo. Pertence totalmente a Deus e aos Homens e, tanto Um como outros, têm direito a exigir-lhe coisas. O Sacerdote é para Deus e para os Homens. Bem dizia o Profº Ernâni Cidade: «O Padre é tanto mais irmão dos homens quanto mais se sente filho de Deus». Lembro-me das enfáticas expressões dum famoso pregador: «Ó Sacerdote, quem és tu? Não és tu porque és de Deus, não és de ti porque és servo de todos, não és por ti porque és mediador de Deus, não és para ti porque foste tirado do nada! Quem és tu, pois, ó Sacerdote? Mártir, porque Sacerdote, todo para o Povo». Tem o poder de dar Deus ao Povo. Como aquele santo que dizia a Nossa Senhora: «Ó Virgem Maria, eu sou mais do que Tu! Eu posso perdoar e consagrar o pão e o vinho no Corpo e Sangue de Jesus, e Tu só o destes uma vez!» (…). O Sacerdote é para o Povo, não é para si. Se eu não sou para mim, se eu não sou para o Povo, para quem é que sou? Para vós. Por isso, vejo tanta gente, tantas pessoas, tantos cristãos, que têm grande devoção aos sacerdotes! Mas não é a um sacerdote em particular, é ao Sacerdócio de Jesus Cristo: vós estais a fazer uma Festa, mas não é a mim! Eu fico esmagado com a vossa piedade, com a vossa ternura… mas é ao Senhor que esta Festa é dedicada. Ele disse estas palavras: «Tudo quanto fizerdes a um destes é a Mim que vós fazeis». Eu sou apenas ocasião de vós louvardes o Senhor, de cantardes as maravilhas de Deus! (…)

Obrigado a todos. Vejo aqui tanta gente que veio de Belói, do Instituto de Oncologia, do Sport Progresso, os Grupos Corais, a minha Família toda, que eu tenho cá em Portugal… Termino, agradecendo a todos, se me esqueci de alguém, abençoo-vos de todo o coração e que Deus vos proteja. 

 

Celebração das Bodas de Ouro Sacerdotais em Mira (14 de Abril de 2004)

“Estou muito feliz
pelo bem que realizei como sacerdote,
em benefício do Povo de Deus
e da Igreja de Jesus Cristo!”

“(...) Do Evangelho de hoje, recolho a expressão: “Não nos ardia o coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?” (Lc 24,32) Isto é a intimidade com o Senhor: todos nós sentimos este calor, este ardor dentro de nós, quando nos encontramos, de facto, coração com coração – coração sacerdotal de Jesus com o nosso coração sacerdotal. Nós também temos um coração de sacerdotes, não de um sacerdócio meramente cultual, mas de sacerdócio ordenado para estar ao serviço do Povo de Deus. Se eu tenho o sacerdócio baptismal, que é para louvar a Deus, para ser filho de Deus, para poder prestar culto a Deus, o sacerdócio ordenado é para os outros e, então, todos nós como sacerdotes para Deus, não nos pertencemos, somos dos outros.

Fazendo uma revisão à minha vida de cinquenta anos de sacerdote, sei que não fui tanto para os outros como devia, mas do muito que fui, pois sei que fui muito para os outros, estou muito contente pelo bem que fiz como sacerdote, em benefício do Povo de Deus e da Igreja de Jesus Cristo.”