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Profissão Perpétua de frei Hermano Filipe

 

 

«Sei em quem acreditei!»

(2 Tm 1,12)

 

 

Homilia na

Profissão Perpétua de frei Hermano Filipe

 

 

Queridos Irmãos Capuchinhos – portugueses e cabo-verdianos –

das Fraternidades do Porto,

de Gondomar,

de Barcelos,

de Fátima,

de Lisboa,

da Baixa Banheira…

 

mas também das Fraternidades de Díli e de Laleia, em Timor-Leste,

e das Fraternidades de Luanda, do Lubango e de Kamabatela, em Angola,

 

Reverendo Sr. Padre Alípio, Pároco de Gondomar,

Caríssimos pais, irmãos e familiares do frei Hermano Filipe,

Caríssimos irmãos e irmãs,

 

Querido frei Hermano Filipe,

 

Antes do tempo ser tempo,

antes de existir o irmão Sol, a irmã Lua e as irmãs Estrelas…

mesmo antes de aparecerem sobre a terra os irmãos homens e as irmãs mulheres;

muito antes de dois jovens esposos – José Hermano e Carolina Leonor – te acolherem como seu querido filho primogénito, a 16 de Abril de 1977, como um dom de Deus a embelezar o seu lar, mais tarde enriquecido com o nascimento do Carlos e da Ana, e mais recentemente com a entrada da Sónia na tua família pelo casamento com o Carlos, e da maravilhosa Bárbara, tua sobrinha,

Deus-Pai pensou em ti, com amor e ternura,

criou-te à imagem e semelhança de seu Filho,

que é todo o prazer da sua vida,

e derramou sobre ti, com a abundância que lhe é própria,

os dons do Espírito Santo,

sobretudo o dom da paixão pela vida em fraternidade,

do encanto pela beleza de estar com os pobres e os humildes,

do amor à sabedoria da entrega e do serviço…

 

A Santa Igreja, Mãe fecunda de Vida, gerou-te pela água e pelo Espírito para uma vida nova e eterna no Sacramento do Baptismo, celebrado a 31 de Julho de 1977, na Igreja Paroquial de São Cosme / Gondomar. Desde esse dia, foste consagrado ao Senhor em aliança de amor e fidelidade, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo!

 

No teu percurso universitário, frequentando uma licenciatura em Geografia, o Espírito acenou-te com outros mapas, outros espaços, outros poços mais profundos. E nessa nova cosmovisão encontraste o Irmão Francisco de Assis e sua plantazinha, a Irmã Clara.

 

Bateste à nossa porta. Connosco, e sob a orientação do frei Fernando Alberto, do frei João Santos Costa, do frei José Maria e do frei João Guedes, iniciaste uma peregrinação ao interior de ti mesmo e do coração de Cristo. E no dia 31 de Agosto de 2003, no Convento de São Lourenço de Brindes, em Cabanas de Viriato, disseste (juraste) que querias unir-te mais intimamente ao Senhor pelo novo e especial título da profissão religiosa como Franciscano Capuchinho, para seguir em tudo os passos de Cristo, a exemplo de São Francisco de Assis;

querias amar a Deus com todo o coração na castidade,

abraçar a altíssima pobreza de Nosso Senhor Jesus Cristo e de sua Mãe, a Pobrezinha,

viver na obediência do Filho de Deus, que colocou a sua vontade na vontade do Pai.

 

Não está registado nos livros. Mas eu sei que está gravado em teu coração. Aquele Sim do dia 31 de Agosto de 2003, embora vivido na provisoriedade destes quatro anos – seja aqui no Porto, seja nas longínquas terras de Timor-Leste, o País do Sol Nascente – tinha no seu bojo um carácter indelével e definitivo…

 

«O essencial só se vê bem com o coração». Também só se escuta bem com os ouvidos do coração. Hoje, movido pelo Espírito do Senhor, tu concedes-nos a graça de auscultar e sentir o pulsar do teu coração, batendo a uníssono com o coração de Cristo na sua entrega ao Pai e no lavar os pés aos irmãos. Jurando que este Sim é «por todo o tempo da tua vida».

 

Escutámos a Palavra do Senhor para este Domingo XXIII do Tempo Comum, enriquecido com a segunda leitura, por ti mesmo proclamada, mas já antes por ti meditada, mastigada, saboreada e vivida (2 Tm 1,7-12). «Sei em quem acreditei!» é o grito que te sai da alma, o sussurro para os tempos difíceis de sofrimento, quando, como a Beata Teresa de Calcutá, sofreres o «silêncio de Deus» ou o «abandono» dos irmãos e amigos.

 

Não temas! Como a Paulo de Tarso, o Senhor concedeu-te um espírito «de fortaleza, de amor e de bom senso».

 

Espírito de fortaleza, para seres pobre e humilde, ao serviço do Reino do Abbá.

Espírito de amor, para seres casto e virgem, amando o Amor não amado.

Espírito de bom senso, para seres obediente, serviçal e disponível, como Jesus de Nazaré, o Filho de Deus feito Filho do Homem.

 

«Apoiado na força de Deus» e não nos teus conhecimentos, méritos ou capacidades. Por Cristo, com Cristo e em Cristo tu estás chamado a «destruir a morte e a irradiar vida e imortalidade, por meio do Evangelho» de quem o Senhor hoje te constitui publicamente «arauto, apóstolo e mestre».

 

Arauto, como sentinela da manhã, anunciando e gerando em todas as noites surpreendentes manhãs de Páscoa.

 

Apóstolo, como enviado pelo Espírito do Senhor a contagiar as pessoas com o amor e a misericórdia do Abbá.

 

Mestre, pela humildade em seres discípulo e seguidor das perfumadas Palavras do nosso santíssimo Senhor Jesus Cristo.

Por isso, querido frei Hermano, deixa-nos repetir contigo, hoje e por todo o tempo da tua vida: «Sei em quem acreditei!»

 

A primeira leitura é extraída do capítulo 9 do Livro da Sabedoria, a última parte de uma intensa e extensa oração a pedir a Deus o dom da sabedoria (Sb 9,13-19). Porque há interrogações que nos abalam e perturbam:

«Mal podemos compreender o que está sobre a terra

e com dificuldade encontramos o que temos ao alcance da mão.

Quem poderá então descobrir o que há nos céus?

Quem poderá conhecer, Senhor, os vossos desígnios?»

 

O sábio do Antigo Testamento encontrou uma resposta suplicante: Que o Senhor lhe dê a sabedoria e lhe envie o seu espírito santo!

 

A ti, frei Hermano, já te foi revelado que a Sabedoria tem um Nome: Jesus Cristo. Tem um Programa: o Evangelho. Tem um Mestre: o Espírito Santo. Tem uma Sede: Maria, a Mulher do Sim, do Fiat e do Magnificat.

 

Só em Deus-Trindade-Família se encontra o Sentido para a tua vida, a Fonte da tua felicidade, a Paz em todos os teus combates e inquietações.

 

Por isso, querido frei Hermano, deixa-nos repetir contigo, hoje e por todo o tempo da tua vida: «Sei em quem acreditei!»

 

O salmista (Sl 90, 3-17) reflecte e implora, cantando:

«Mil anos a vossos olhos são como o dia de ontem que passou

e como uma vigília da noite.

Ensinai-nos a contar os nossos dias,

para chegarmos à sabedoria do coração.»

 

Querido frei Hermano, a tua gesta de hoje revela-nos que o Senhor te agraciou com a «sabedoria do coração», dando-te a conhecer a beleza dos dias e das vigílias da noite na luz do mistério de Cristo morto e ressuscitado.

Por isso, deixa-nos repetir contigo, hoje e por todo o tempo da tua vida: «Sei em quem acreditei!»

 

 No Evangelho de hoje (Lc 14,25-33), Jesus é seguido por «uma grande multidão». Mas, Jesus não cede à tentação da demagogia, da caça ao voto, da publicidade enganosa do mais fácil e do mais cómodo. Três vezes pronuncia a expressão forte e severa: «Se alguém…não pode ser meu discípulo, não pode ser meu discípulo, não pode ser meu discípulo». A proposta de Jesus é para todos. A resposta é pessoal, de cada um.

 

Frei Hermano, o Pai das misericórdias concedeu-te a graça de seres discípulo de Jesus, atraindo-te para «ires ter com» Ele. «Ir ter com» Jesus exige opções contundentes, radicais, corajosas. «Ir ter com» Jesus para viver como Jesus e para Jesus.

 

Assim, em caso de conflito perante os valores da família (pai, mãe, esposa, filhos, irmãos, irmãs…) tu radicalizas, «optimizas» o amor de Cristo, tornando-te deste modo «esposo, irmão e mãe de nosso Senhor Jesus Cristo», como canta o nosso Pai São Francisco na Carta a todos os fiéis:

 

«És esposo de Cristo, quando pelo Espírito Santo a tua alma se une a nosso Senhor Jesus Cristo.

És irmão de Cristo, quando cumpres a vontade de seu Pai que está nos céus;

és mãe de Cristo, quando o levas no coração e no corpo pelo divino amor e pela pura e sincera consciência, e quando o dás à luz pelas santas obras, que devem brilhar aos olhos de todos para seu exemplo». (cf. 1 CF 9-10).

 

Com a tua consagração definitiva ousas «tomar a cruz e seguir Jesus Cristo». Uma cruz que é sinal da vitória sobre a morte e a corrupção. Sinal de luta contra as injustiças e terrorismos, e nunca expressão de uma aceitação passiva e resignada do sofrimento e da violência.

 

Hoje permaneces crucificado com Cristo. Com Ele estás disposto a não descer da cruz, a ires até à morte, para que outros tenham vida. A tua liturgia é o teu quotidiano, transformado pelo Espírito em sacramento de Cristo, em pão e água para todos os famintos e sedentos de amor e justiça.

 

Esta tarde, na presença de alguns Irmãos Capuchinhos, como tuas testemunhas, assinaste um documento em que «renuncias a todos os bens». Assim, já podes ser discípulo do Senhor Jesus. Só Ele é o teu «sumo bem, todo o bem, o bem completo». Hoje e por toda a tua vida tu queres ser «Irmão Menor», caminhando de mãos dadas com duas inseparáveis irmãs gémeas, a irmã Fraternidade e a irmã Pobreza.

 

Só agarrado, qual criancinha, à mão de Deus-Abbá encontrarás um Mundo de irmãos: os cerca de 11.000 Irmãos Capuchinhos, espalhados por 101 Países de todos os Continentes, e os mais de seis biliões de irmãos e irmãs que povoam a nossa mãe e irmã Terra. Só rodeado de Irmãos sentirás o calor e o carinho de Deus-Abbá. Só no esvaziamento de ti mesmo e no despojamento dos bens que atrapalhem o teu caminhar para Cristo, poderás experimentar a mão benfazeja, protectora e maternal do Abbá.

 

Por isso, querido frei Hermano, deixa-nos repetir contigo, hoje e por todo o tempo da tua vida: «Sei em quem acreditei!»

 

Para construíres, no dia a dia, a «torre» da tua vocação franciscana-capuchinha, tu contas com o sólido alicerce: Cristo Jesus. Ele é o centro da tua Pobreza, o sim da tua Obediência, o amor da tua Castidade.

 

Na «guerra» a travar contra o inimigo (que pode apresentar-se com o rosto atraente e sedutor do hedonismo, da superficialidade, do consumismo…), tu contas com um aliado invencível: o Crucificado-Ressuscitado. Com Cristo a teu lado, com Cristo dentro de ti, nada nem ninguém te poderá vencer!

 

Foi este Cristo que, há 800 anos, propôs ao jovem Francisco de Assis a surpreendente missão: «Francisco, vai e repara a minha casa que, como vês, está quase em ruína» (1 Celano 10).

 

No passado dia 17 de Junho, o papa Bento XVI quis viver uma jornada de intensa peregrinação em Assis. Ao comentar o encontro de Francisco com o Cristo de São Damião, o papa lançou aos jovens alguns desafios:

«Deixemo-nos encontrar por Cristo! Confiemos nele, ouçamos a sua Palavra.

A Assis as pessoas vêm para aprender de São Francisco o segredo para reconhecer Jesus Cristo e fazer a Sua experiência.

 

Francisco era um verdadeiro apaixonado por Jesus. Encontrava-O na Palavra de Deus, nos irmãos e na natureza, mas sobretudo na sua presença eucarística.

 

Com Paulo, ele podia realmente dizer: “Para mim, viver é Cristo” (Fl 1, 21). Se se despoja de tudo e escolhe a pobreza, o motivo de tudo isto é Cristo, é somente Cristo. Jesus é o seu tudo: e basta-lhe!»

 

Frei Hermano, deu-te o Senhor a graça de viveres em Assis uma experiência radical, não apenas de um dia, mas ao longo de uma semana inteira, de 13 a 19 de Agosto. Como Francisco, deixa-te encontrar por Cristo! Sê um apaixonado de Jesus e da sua Palavra! Com o Espírito do Ressuscitado, reconstrói a casa que é a Igreja, a nossa Província, a Sociedade! Conclui a construção da «torre»! Avança, firme e decidido, para a «guerra» da Paz e do Bem, da Reconciliação e da Solidariedade!

 

Graças te sejam dadas, ó Pai, pelo dom que fazes à Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, à Igreja e ao Mundo na entrega do frei Hermano Filipe!

 

Bem hajas, querido frei Hermano! Contigo aprendemos a repetir, hoje e por todo o tempo da tua vida: «Sei em quem acreditei!»

 

«Louvai e bendizei a meu Senhor,

e dai-Lhe graças e servi-O com grande humildade!»

 

 

Porto, 09 de Setembro de 2007

frei Acílio Mendes – ofmcap.

Ministro Provincial

 

 
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