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"Crescei na graça e no conhecimento de Jesus Cristo" (Cf. 2Pe
3,18a)
A 'pró-existência' solidária de
Jesus
(Nos 10 anos da
criação da diocese de Baucau)
Hoje somos
convidados a reflectir numa das frases citadas pelo Papa João
Paulo II no decreto de criação da diocese de Baucau: “Crescei
na graça e no conhecimento do Nosso Senhor e Salvador, Jesus
Cristo. A Ele seja dada glória, agora e até ao dia eterno. Ámen”
(2Pe 3,18). Antes de mais, é necessário percebermos o
contexto em que São Pedro escreve esta carta. Ele procura
denunciar erros graves que ameaçavam a fé e os bons costumes e
alerta, por um lado, para aguardarmos vigilantes a última vinda
de Cristo (dimensão escatológica da nossa fé) e, por
outro, para crescermos no conhecimento de Cristo para estarmos
preparados e não nos deixarmos enganar pelos falsos mestres (Cf.
2Pe 2) que “movidos pela cobiça, hão-de explorar-vos com
palavras enganadoras” (Cf. 2Pe 2,3a).
Crescei!
Este é o primeiro imperativo colocado por Pedro. Crescer
significa desenvolver-se, o que exige esforço, mudança e
desinstalação. Não procurar crescer, estudando e aprendendo
novos ofícios, e passando o dia a jogar bilhar ou na conversa
com os vizinhos, por exemplo, é uma falta de respeito para
consigo mesmo – porque o que define a ‘pessoa’ é, precisamente,
o ser integrado, interiorizado, espiritual e criador – e para
com Deus que nos pede para crescer (Cf. Gn 1,22) pondo a
render os ‘talentos’ que nos confiou (Cf. Mt 25,14-30).
Crescei
na graça
de Jesus Cristo! Este é o segundo imperativo colocado por Pedro.
Apesar da graça ser uma ‘força salvadora’ que resulta da
absoluta iniciativa de Deus, ela exige uma abertura do homem a
essa mesma acção salvífica. Deus quer salvar o homem e o homem
deve desejar ser salvo por Deus. Assim também não basta um
cristianismo meramente ritualista, é preciso que os sacramentos
surjam como necessidade resultante de uma alma aberta à ‘graça’
e sedenta de Deus.
Crescei
no conhecimento
de Jesus Cristo! Este é o terceiro imperativo colocado por
Pedro. Para podermos viver como Jesus temos que o conhecer,
temos que nos abeirar dele com humildade e nos fazermos seus
discípulos. É essa também a grande missão de cada igreja local e
de cada bispo: “ensinar todas as gentes” (Lumen
Gentium, nº 24).
É isso
também que, no décimo aniversário da criação da diocese de
Baucau, procuraremos fazer através deste artigo: abertos à graça
de Jesus Cristo, procurar crescer no conhecimento d’Ele,
porque só se O conhecermos e vivermos como Ele é que
podemos, como Ele, chamar Pai a Deus.
Para isso,
teremos que tentar responder à pergunta que Ele fez aos seus
discípulos: “E vós, quem dizeis que Eu sou?” Pedro tomou
a palavra e respondeu: “O Messias de Deus.”
(Cf. Lc 9,18-20). Mas a mesma pergunta continua, hoje, a
ecoar no coração de cada cristão: e para mim, quem é Jesus?
“Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?” (Mc
4,41).
A
‘pró-existência’ de Jesus, escola de solidariedade
Mesmo um
não-crente,
ao olhar para a figura de Jesus de Nazaré, não pode deixar de
se maravilhar com a Sua bondade e amor ao próximo. Ele surge
como um grande profeta da paz e da reconciliação, ao ponto de,
inclusive, pedir aos seus discípulos que amem os seus inimigos e
orem pelos que os perseguem (Cf. Mt 5,38-44). É essa
auto-doação que Jesus faz de si mesmo que nos revela, desde
logo, que Ele é, de facto, Filho de Deus.

H. Schurmann
foi quem começou a usar o termo ‘pró-existência’ para
designar essa atitude de ‘estar aí para os outros’. Toda
a vida de Jesus foi uma vida para os outros. Hans Kessler, diz
que “a ‘pró-existência’ de Jesus se baseia na sua relação com
Deus: a sua vida para os outros flui da sua vida com Deus.”
Na verdade, Jesus relaciona-se com Deus de uma forma totalmente
nova: “Abbá, Pai!” (Mc 14,36). Diz Mário de França
Miranda, um teólogo brasileiro contemporâneo, que “temos
acesso a Deus enquanto fazemos nossa a praxis de Jesus.
Assim experimentamos também o mistério que fundamenta essa
praxis”.
Jesus é o
Emanuel, Deus connosco e por nós.
Ele é auto-esvaziamento, auto-comunicação e auto-doação. Jesus
faz de toda a sua vida uma oferenda permanente a Deus e por isso
é que o seu amor ao próximo é inesgotável, porque vem de Deus.
Não é uma ‘pró-existência’ teórica, ele ama os pobres, sofre
e chora com as pessoas e caminha com elas, e todos quantos
eram por Ele curados, isto é, todos quantos experimentavam a Sua
bondade e misericórdia, não duvidavam estar na presença de um
homem de Deus, ao ponto de até o centurião romano, junto à cruz
de Jesus, ter exclamado: “verdadeiramente este homem era Filho
de Deus!” (Mc 15,39b).
Jesus
solidariza-se e acolhe aqueles que a sociedade rejeita,
come com eles e ajuda-os a crescerem e a sentirem-se capazes de
se tornarem homens novos (Cf. Mc 2,13-17). A
solidariedade humana (‘pró-existência’) de Jesus é para todos,
isto é, não exclui ninguém. Jesus procura, inclusive, que mesmo
aqueles que não o aceitam compreendam que se Deus ama a todos
com um amor infinito, a nossa relação de uns com os outros não
pode ser senão fraterna e cimentar-se no altruísmo, na verdade e
na caridade. Ele ensina-nos a procurar criar relações
reconciliadas e pacíficas, onde se dá lugar permanente ao
perdão. Estes gestos solidários de Jesus que curam, que libertam
e que salvam, não pretendem apenas ter um sentido de salvação
futura, essa salvação é já real e presente.
Confiança
total em Deus
Jesus é
Filho de Deus mas é também verdadeiro ser humano: “o Verbo
fez-se homem e veio habitar connosco.” (Jo 1,14). Por
isso, partilhando das contingências próprias de cada ser humano,
conheceu a alegria e a tristeza, o sucesso e o insucesso,
experimentou a sede e a fome, o cansaço e a dor, mas
compreendeu também que, para além do sofrimento e da dor, havia
um Deus que O amava incomensuravelmente e em quem podia pôr toda
a sua confiança. É, portanto, um homem verdadeiro mas não um
super-homem como alguns filósofos contemporâneos quiseram fazer
crer; Ele é, de facto, diferente dos outros homens mas pela
confiança que deposita em Deus e pelos métodos da sua actuação,
optando sempre pela não-violência, pela humildade, pelo amor
e pelo perdão.
Jesus
tinha uma confiança total no Pai.
Mesmo quando se sentia angustiado, triste ou até abandonado, nem
assim, deixava de confiar, de ter esperança e de colocar toda a
sua vida nas mãos de Deus. A sua entrega a Deus não é uma
entrega parcial, mas total e sem reservas; também por isso é que
não precisava de procurar acumular poder e riquezas, Deus
bastava-lhe. “Olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam
nem recolhem em celeiros; e o vosso Pai celeste alimenta-as”
(Mt 6,26). Trata-se de uma descoberta que também nós estamos
chamados a fazer.
Amor
verdadeiro
Esse
desprendimento e essa confiança total em Deus, garantiram a
Jesus de Nazaré uma imensa liberdade interior, o que lhe
permitia amar o próximo sem reservas, como se sentia
amado por Deus, e servir as pessoas procurando que também elas
crescessem nesse amor desinteressado e gratuito, que não prende
nem magoa. Jesus vem mostrar que esse amor, que não se
corrompe, não só é necessário, como, a partir de Deus, é
perfeitamente possível e pode ser o garante da descoberta de
um sentido para a existência e uma existência plena (Cf. Jo
10,10b).
Jesus
pôde, assim, ultrapassar preconceitos culturais e políticos
que separam e dividem, pôde destruir muros (Cf. Ef 2,14)
e ir ao encontro de todos, especialmente dos mais frágeis, dos
doentes, dos aleijados, das crianças, das mulheres, dos
estrangeiros e, enfim, de todos os excluídos. Ele foi ungido
para anunciar a Boa-Nova aos pobres, dar a vista aos cegos e
proclamar a liberdade aos oprimidos (Cf. Lc 4,18),
por isso, ao contrário dos fariseus e dos doutores da Lei,
acolhe e come com cobradores de impostos e pecadores (Cf. Lc
15,1-2), permite que as prostitutas se aproximem dele (Cf.
Lc 7,37-38), perdoa aos pecadores arrependidos (Cf. Lc
7,36-50), cura os estrangeiros (Cf. Lc 17,11-19), dá
uma grande importância à mulher num tempo em que ela era
religiosa e socialmente discriminada (Cf. Lc 8,1-3; 10,38-42),
tem um olhar bondoso e misericordioso para com todos, mesmo com
aqueles que o negam (Cf. Lc 22,56-62) e oferece a vida
eterna a uma samaritana (Cf. Jo 4,14).

Nós,
Cristãos, habituamo-nos a fixar o significado soteriológico (salvífico)
de Cristo apenas na sua paixão e morte mas, na verdade, toda a
sua vida terrena, tudo o que Ele fez, é igualmente testemunho
da bondade salvífica e redentora de Deus. Verdadeiramente
solidário, Ele ia ao encontro dos impuros e pecadores (Cf. Lc
19,1-10), para lhes dar a conhecer esse amor infinito de
Deus e oferecer o Seu perdão, porque “é da ‘vontade’ de
vosso Pai que está no Céu que não se perca um só destes
pequeninos” (Mt 18,14; Cf. Lc 15,4-7). Na verdade,
tudo o que Ele faz é por obediência ao Pai, procurando ser-lhe
fiel e cumprir a Sua ‘vontade’: Quando reza o Pai-Nosso (Cf.
Mt 6,10) pede a Deus que se cumpra a Sua ‘vontade’ e
chama irmão, irmã e mãe àqueles que fazem a ‘vontade’ de
Seu Pai (Cf. Mt 12,50) e, por isso, adverte que só
entrará no Reino do Céu quem fizer a ‘vontade’ de Deus
(Cf. Mt 7,21). Quando se encontra no Getsémani, sentindo a
dor do abandono e da solidão, ainda assim, é mais forte o desejo
de que se cumpra a ‘vontade’ de Deus (Cf. Mt 26,42)
porque o Seu alimento é fazer a ‘vontade’ d’Aquele que o
enviou e consumar a Sua obra (Cf. Jo 4,34). Esta entrega
amorosa de Jesus ao outro é, portanto, o reflexo da Sua relação
com Deus que lhe pede que cumpra a Sua ‘vontade’ de ser
anúncio e portador da salvação a toda a criatura (Cf. Lc 3,6).
Vidas
transformadas
Jesus tem
uma relação muito íntima com Deus mas não O quer só para si.
Porque ama a todos, deseja mostrar-lhes a grandeza de uma
vida em Deus e ensina-lhes como chegar a Ele: “Eu sou o
Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém pode ir até ao Pai senão
por mim.” (Jo 14,6). Jesus ensina os seus discípulos a rezar
(Cf. Mt 6,9-15) e incita-os a acreditarem e a confiarem as
suas vidas a Deus, “porque a Deus tudo é possível” (Mc 10,27).
Esse é um
dos grandes ensinamentos de Jesus: o modo como nos podemos
relacionar com Deus, como diz Kierkegaard, “se sou cristão […]
isso é puramente um relacionamento com Deus”. Com a aceitação do
amor de Deus, tudo quanto d’Ele nos separa – o pecado – tende a
desaparecer e inunda-nos uma grande paz interior e o desejo de,
também nós, criados à Sua imagem e semelhança (Cf. Gn 1,26),
estabelecermos relações reconciliadas com todas as criaturas na
certeza de pertença a essa grande fraternidade cósmica. O
homem reconciliado com Deus cura as suas muitas feridas
interiores e experimenta um novo modo de se relacionar com os
outros e com as criaturas.
O ‘moralismo
barato’, hoje como ontem, de pouco serve. Jesus é o Bom Pastor,
que dá a vida pelas suas ovelhas (Jo 10,11), que as
acolhe, sem pressas e só as deixa partir quando estão curadas. E
embora curasse também as feridas físicas dos coxos e aleijados,
Jesus sempre procurava a cura a um nível bem mais profundo,
capaz de transformar a vida inteira, eliminando o seu
sentimento de culpa e oferecendo o perdão ilimitado de Deus (Cf.
Mt 18,21-22).
Um novo
sentido
Como já
vimos, geralmente, a vitória sobre o pecado e o mal anda
associada à morte de Jesus na cruz e à Sua exaltação mas, essa
vitória, na verdade, acontece já na actuação terrena de Jesus de
Nazaré. A queda de Satanás (Cf. Lc 10,18) é já um sinal
da presença do Reino de Deus. Jesus fala com autoridade e com a
Sua palavra é capaz de expulsar os demónios (Cf. Mt 8,32).
Com os espíritos malignos vão-se também todos os medos e
todas as superstições que entorpecem o nosso andar. Por
isso, Jesus dá aos seus discípulos poder sobre o mal (Cf. Lc
10,19) e, se tiverem fé, nenhuma tempestade, por mais
violenta que seja, os pode afectar (Cf. Mt 8,23-27).
Os bens
materiais e o poder, em si, não são coisas más mas
absolutizá-las é que é um erro tremendo porque dão a falsa
sensação de segurança, tomam conta de nós, tornam-se ídolos,
falsos deuses e escravizam-nos. Ainda por cima, escravizam-nos
com o nosso consentimento e, inclusive, desejo, quando o
nosso coração devia era estar cheio de Deus, a transbordar de
bondade, pronto para se abrir ao outro e às suas necessidades.
O cuidado excessivo com a beleza do corpo quando comparado com o
cuidado com o espírito e o coração podem ser disso exemplo.
Quando o
homem procura ser algo que não é ou não ser algo que é e
valoriza mais o ter do que o ser, entra num círculo vicioso, “um
processo de auto-destruição que o leva, com o tempo, a deixar de
saber quem realmente é” (Erich Fröm) e a viver
constantemente na superficialidade. A vida deixa de fazer
sentido e à medida que o medo nos invade, começamos a procurar
esse sentido no mundo ou em nós mesmos, fechando-nos à
transcendência. Viver com medo é, certamente, uma experiência
horrível. Medo de perder quem se ama, medo do insucesso e tantos
outros medos, entorpecem o homem e não o deixam caminhar. Dizia
o Cardeal de Retz que, “de todas as paixões, o medo é aquela que
mais debilita o bom senso.” Só uma confiança muito grande em
Deus nos permite superar esses medos, viver tranquilos “como
criança saciada ao colo da mãe” (Sl 131,2b) e
voltarmos a sermos nós mesmos numa existência livre e voltada
para os outros (pró-existente) e, nisso, temos muito – senão
tudo – a aprender de Jesus.
A resposta
de Deus à ‘pró-existência’ de Jesus
Foi a
‘pró-existência’ de Jesus que levou a um cumprimento mais
perfeito da Sua morte e ressurreição e a ressurreição de
Jesus não é, senão, a resposta de Deus à sua ‘pró-existência’,
à Sua entrega total por nós, dando-lhe sentido. Sem a
ressurreição, a vida e, sobretudo, a entrega de Jesus até à
morte não fariam sentido mas, com a ressurreição, a
‘pró-existência’ não só faz sentido como tem valor divino e
eterno.

De maneira
glorificada, junto do Pai, Ele é sempre Deus connosco. A vida de
Jesus aperfeiçoa-se na sua paixão e morte, por isso, a
eucaristia, memorial da Sua entrega por nós, é caminho para a ‘pró-existência’:
“‘Isto é o meu corpo, que vai ser entregue por vós’ (…) ‘Este
cálice é a nova Aliança no meu sangue, que vai ser derramado por
vós.’” (Cf. Lc 22,19-20). Já o Evangelista São João,
na narração da última ceia, preferiu destacar o gesto do
lava-pés (Cf. Jo 13,3-15), a indicar que o serviço aos
irmãos é também um memorial da presença de Jesus.
Conclusão
Só um homem
sem medos, é capaz de procurar o outro e estabelecer relações
altruístas e verdadeiras. Jesus liberta a pessoa para crescer,
para não voltar a pecar, para ter confiança e perder todos os
medos, para ser livre e iniciar relações novas e solidárias com
os outros.
Um homem
livre é capaz de se aceitar a si mesmo como é, dos dons e
valores que tem e que deve colocar ao serviço dos outros,
sobretudo dos marginalizados, dos pobres, dos doentes e dos
oprimidos. Um homem capaz de estabelecer relações verdadeiras,
não só acolhe como deseja ser acolhido pelos pobres e oprimidos
porque reconhece a presença de Cristo nesses irmãos mais
pequeninos (Cf. Lc 18,15-17).
Hans Kessler
afirma que “Deus se faz o ser humano que nos torna mais
humanos”, prontos a doar a nossa própria vida em favor dos
outros.
Por isso, a
liberdade e o amor de Cristo têm de sair da Igreja e ser
testemunhadas nas nossas relações e gestos de cada dia. A
solidariedade, os gestos de paz e a busca da justiça, serão
sinais da presença amorosa, reconciliadora, pró-existente e
salvífica de Cristo na nossa sociedade, na nossa comunidade e na
vida de cada um de nós.
Enquanto
felicito a diocese de Baucau, na pessoa do seu bispo, Dom
Basílio do Nascimento, pelos dez anos da criação desta diocese,
faço votos que todos os cristãos se sintam chamados a amadurecer
a sua Fé e a procurar conhecer Jesus de Nazaré e a reconhecer
n’Ele o modelo de verdadeiro homem, pró-existente, a ser
imitado, seguido e testemunhado por cada um de nós. “A Ele
seja dada glória, agora e até ao dia eterno. Ámen” (2Pe
3,18b).
Frei Hermano Filipe
in FINI-Fiar Ida, Neon Ida, Março de 2007 |