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Homilia pronunciada por D.
Francisco de Mata Mourisca (Bispo do Uíje) na “Missa do Galo”,
na Paróquia da Sagrada Família do Calhariz de Benfica, dos
Padres Capuchinhos, em Lisboa. D. Francisco sofreu um acidente
em Luanda, e esteve a ser tratado em Lisboa. No dia 3 de Janeiro
já voltou a Angola, onde vai tratar da cerimónia de sagração e
tomada de posse do seu sucessor na diocese de Uíje.

"Não havia
lugar para eles"
1. «Chegou
o dia de Ela dar à luz e teve o seu Filho primogénito.
Envolveu-O em panos e deitou-O numa manjedoura, porque
não havia lugar para eles na hospedaria» (Lc 2,6-7).
Com estas
simples palavras descreve S. Lucas o nascimento e o primeiro
berço que teve o Rei e Senhor do universo, Jesus Cristo, Filho
de Deus feito Homem.
O
Evangelista não nos explica as razões por que não havia lugar
para eles na hospedaria. Porque já estaria cheia? Porque era de
cinco estrelas, e José e Maria aparentavam a condição de pobres?
Talvez por esta razão, se tivermos em conta a clausula «não
havia lugar para eles», insinuando assim que para outros
podia haver.
S. João
Evangelista dá a este episódio uma versão impressionante, que se
lê hoje no Evangelho do dia: «A luz brilha nas trevas e as
trevas não a receberam» (Jo 1,5). E mais: «Veio para o
que era seu e os seus não O receberam» (Jo 1,11).
2. Esta
ignominiosa realidade tem se repetido através da história, e
repete-se duma forma acentuada em nossos dias. Cristo continua a
vir para o que é seu, e muitos dos seus continuam a não O
receber. São todos aqueles que rejeitam os seus símbolos como,
por exemplo, o crucifixo, o presépio, e outros sinais que falam
d’ Ele.
Até o
presépio? É verdade! Quer isto dizer que O começam a rejeitar já
desde o seu nascimento. Exactamente como Herodes.
Está aqui
uma forma requintada de intolerância religiosa. E imposta
em nome da democracia, o que é um sarcasmo contra ela. De facto,
a tolerância, e principalmente a religiosa, constitui um
elemento essencial duma verdadeira democracia. Por isso, temos
que chamar intolerável a esta espécie de intolerância.
3. Para
banir os símbolos religiosos que falam de Cristo, aduzem como
argumento a conveniência de não ferir os sentimentos religiosos
doutros credos. E começam por banir os referidos símbolos
cristãos justamente em certos países cuja população é de maioria
cristã.
Parecem ou
fingem ignorar que a religião cristã está sendo hoje uma força
harmonizadora dos mais diversos credos e culturas. Quem o quiser
ver, vá a Taizé, onde milhares de pessoas, sobretudo
jovens, das mais diversas Confissões religiosas, se concentram
constantemente, para orar, cantar e conviver como irmãos.
Por isso,
neutralizar hoje o espírito cristão em qualquer país é prestar
um péssimo serviço à sociedade humana, que precisa cada vez mais
de ser animada com o espírito de Cristo. «Ele é a nossa paz»,
como afirma o Apóstolo (Ef 2,14). Logo, rejeitá-Lo a Ele é
rejeitar a paz. E então, não nos devemos admirar de o terrorismo
internacional ameaçar, cada vez mais, a segurança dos povos e
das nações.
4. Rogo ao
Senhor que este nosso País, cristão desde o seu nascimento,
jamais venha a ser vítima desse fanatismo anticristão.
Mas se
alguém vier a pensar de outra maneira, certamente deverá começar
por banir, da bandeira da Nação, as cinco quinas, símbolo das
cinco Chagas de Cristo. E, se for coerente, pensará em destruir
essas obras de arte que são fruto e símbolo do espírito cristão:
os monumentos de Tomar, Batalha, Alcobaça, Jerónimos, etc.
Haverá aí alguém que aceite, indiferente, semelhante loucura?
Contudo, essa é a consequência lógica do não aos símbolos
de Cristo.
Não sei o
que diriam os portugueses se, para não ferir os sentimentos dos
adeptos do Benfica como do Sporting, aparecesse um decreto a
suprimir a águia e o leão dos seus emblemas.
Em suma,
esta Europa que se ufana de democrática, neste capítulo que
meditamos, está muito longe de o ser.
5. Quando os
chefes do Sinédrio proibiram Pedro e João de falar ou ensinar
em nome de Jesus, eles responderam: «não podemos deixar
de afirmar publicamente o que vimos e ouvimos» (Act 4,20).
Perante a
ditadura do relativismo laicista que nos envolve, nós,
discípulos de Jesus, não temos outra alternativa senão a atitude
daqueles dois Apóstolos. Como eles, não podemos deixar de
afirmar publicamente a nossa fé, inclusive através dos símbolos
d’Aquele em Quem acreditamos - Jesus Cristo, Nosso Senhor.
Para isto
ser verdade, perguntemo-nos a nós próprios se Cristo encontra
lugar, e o tem bem reservado, no nosso coração, na nossa
família, na nossa vida. Tudo parte daqui.
Demos lugar
a Cristo: no nosso coração, mediante a fé e a graça
santificante; na nossa família e na nossa vida, mediante o
testemunho das nossas obras. E assim seremos dignos dum Feliz
Natal e dum alegre Ano Novo, portador de risonhas esperanças, o
que a todos vos desejo do íntimo do coração.
Lisboa, 25
de Dezembro de 2006
D. Francisco de Mata Mourisca
Bispo do Uíje (Angola) |