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de dois
povos fez um só e destruiu o
muro de
separação (Cf. Ef 2,14)
(Nos 10 anos do
Nobel da Paz de Dom Ximenes Belo e Dr. Ramos Horta)
A Palestina,
no tempo de Jesus, era um pequeno território sob domínio do
império romano (desde 63 a.C.) e onde fervilhavam muitas
religiões e cultos pagãos. Judeus (monoteístas) e pagãos
(politeístas) guerreavam-se mas Cristo veio unir estes dois
povos, formando um só, o Povo de Deus. Assim no-lo diz São
Paulo, na carta aos Efésios: Cristo “anulou a lei, que contém os
mandamentos em forma de prescrições, para, a partir do judeu e
do pagão, criar em si próprio um só homem novo, fazendo a paz, e
para os reconciliar com Deus, num só Corpo, por meio da cruz,
matando assim a inimizade” (Ef 2,15-16).
Na verdade,
Cristo não veio para revogar a lei, mas para a levar à perfeição
(Cf. Mt 5,17), isto é, para, antes de mais, lhe devolver
a simplicidade original porque muitos grupos religiosos,
sobretudo os fariseus e os doutores da Lei, teimavam em carregar
os homens com prescrições legais, fardos demasiado pesados que
eles próprios não carregavam. Por isso lhes disse Jesus: “ai de
vós, doutores da Lei e fariseus hipócritas, porque pagais o
dízimo da hortelã, do funcho e do cominho e desprezais
o mais
importante da Lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade!”
(Mt 23,23).

Mas não só
os fariseus e os doutores da Lei mas também outros grupos
religiosos de então como os saduceus, os samaritanos e os
zelotas impunham aos seus fiéis um conjunto de preceitos que,
naturalmente, teriam como objectivo ajudá-los a reconhecer a sua
natureza frágil e o seu pecado perante Deus e a purificar-se mas
que, pelo contrário, eram, muitas vezes, meramente rituais e
cultuais, prestando pouco importância ao espírito com que eram
vividos; por isso diz o Senhor: “este povo aproxima-se de mim só
com palavras e honra-me só com os lábios, pois o seu coração
está longe de mim e o culto que me presta é apenas preceito
humano e rotineiro” (Is 29,13).
E também por
isso é que João Baptista, “cheio do Espírito Santo já desde o
ventre da sua mãe” (Lc 1, 15b) os convidava a produzir
frutos de sincero arrependimento (Cf. Lc 3,8), como diz o
salmo: “sacrifício agradável a Deus é o espírito arrependido”
(Sl 51,19a). Também Jesus, logo no início da sua vida
pública, em Cafarnaúm, começou a pregar a
conversão (Cf.
Mt 4,17) para logo de seguida, como nota o evangelista
Mateus, subir a um monte e proclamar a nova Lei do Reino onde
os pacificadores serão
chamados filhos de Deus (Cf. Mt 5,9).
Assim, a
conversão surge como um primeiro passo necessário para a
construção da paz porque favorece
relações mais profundas,
transparentes e verdadeiras, ao contrário das relações
entre muitos dos povos que habitavam aquela estreita faixa de
terra entre o Jordão e o Mediterrâneo, onde imperava a atenção
ao culto e à lei, e que se afastavam uns dos outros chamando-se
mutuamente de impuros (a este respeito pode ler-se todo o
capítulo 23 de São Mateus). Criavam-se, assim, divisões e
muros praticamente intransponíveis: os judeus deviam abster-se
de todo o contacto com os samaritanos (Cf. Jo 4,9),
aqueles que não jejuavam eram criticados (Cf. Lc 5,33-35),
bem como aqueles que não lavavam as mãos antes de comer (Cf.
Mc 7,1-4), não era permitido colher espigas (Cf. Mc
2,23-28) ou curar (Cf. Mc 3,1-6) ao sábado, etc. No
tempo de Jesus, só as ‘sentenças’ dos rabinos contavam-se por
613 regras, sendo que a grande maioria se referiam ao puro e ao
impuro.
Ao longo de
toda a sua vida pública, Jesus, aparecerá como um destruidor
desses muros, não ao jeito recente de alguns países que, em nome
da luta anti-terrorista, provocam e levam a cabo terríveis
guerras com todas as consequências que daí advêm, mas com uma
pedagogia única que Ele se propõe ensinar: “aprendei de mim,
porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso
para o vosso espírito. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é
leve” (Mt 11,29-30). Jesus foi ungido para anunciar a
Boa-Nova aos pobres, dar a vista aos cegos e proclamar a
liberdade aos oprimidos (Cf. Lc 4,18), por isso, ao
contrário dos fariseus e dos doutores da Lei, Ele acolhe e come
com cobradores de impostos e pecadores (Cf. Lc 15,1-2),
permite que as prostitutas se aproximem dele (Cf. Lc 7,37-38),
perdoa aos pecadores arrependidos (Cf. Lc 7,36-50), cura
os estrangeiros (Cf. Lc 17,11-19), dá uma grande
importância à mulher num tempo em que ela era religiosa e
socialmente discriminada (Cf. Lc 8,1-3; 10,38-42),
convida todos a amarem os inimigos (Cf. Mt 5,43-48), tem
um olhar bondoso e misericordioso para com todos, mesmo com
aqueles que o negam (Cf. Lc 22,56-62) e oferece a vida
eterna a uma samaritana (Cf. Jo 4,14). Vejamos alguns
exemplos:
jesus escolhe
mulheres como suas discípulas:
“Em seguida, Jesus ia de cidade em cidade, de aldeia em aldeia,
proclamando e anunciando a Boa-Nova do Reino de Deus.
Acompanhavam-no os Doze e algumas mulheres, que tinham sido
curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada
Madalena, da qual tinham saído sete demónios; Joana, mulher de Cuza, administrador de Herodes; Susana e muitas outras, que os
serviam com os seus bens” (Lc 8,1-3).
entra em casa de um chefe de cobradores de impostos
e consegue a sua conversão: Jesus disse a Zaqueu: “‘Zaqueu,
desce depressa, pois hoje tenho de ficar em tua casa.’ Ele
desceu imediatamente e acolheu Jesus, cheio de alegria. Ao verem
aquilo, murmuravam todos entre si, dizendo que tinha ido
hospedar-se em casa de um pecador. Zaqueu, de pé, disse ao
Senhor: ‘Senhor, vou dar metade dos meus bens aos pobres e, se
defraudei alguém em qualquer coisa, vou restituir-lhe quatro
vezes mais.’ Jesus disse-lhe: ‘Hoje veio a salvação a esta casa,
por este ser também filho de Abraão; pois, o Filho do Homem veio
procurar e salvar o que estava perdido’” (Lc 19,5b-10).
permite que uma prostituta lhe lave e beije os pés:
“(…) certa mulher, conhecida naquela cidade como pecadora, ao
saber que Ele estava à mesa em casa do fariseu, trouxe um frasco
de alabastro com perfume. Colocando-se por detrás dele e
chorando, começou a banhar-lhe os pés com lágrimas; enxugava-os
com os cabelos e beijava-os, ungindo-os com perfume. (…) E Jesus
disse à mulher: ‘A tua fé te salvou. Vai em paz’” (Lc
7,37-38.50).
perdoa a uma mulher adúltera
em vez de a apedrejar como era normal naquela época: “(…) os
doutores da Lei e os fariseus trouxeram-lhe certa mulher
apanhada em adultério, colocaram-na no meio e disseram-lhe:
‘Mestre, esta mulher foi apanhada a pecar em flagrante
adultério. Moisés, na Lei, mandou-nos matar à pedrada tais
mulheres. E Tu que dizes?’ Faziam-lhe esta pergunta para o
fazerem cair numa armadilha e terem de que o acusar. Mas Jesus,
inclinando-se para o chão, pôs-se a escrever com o dedo na
terra. Como insistissem em interrogá-lo, ergueu-se e disse-lhes:
‘Quem de vós estiver sem pecado atire-lhe a primeira pedra!’ E,
inclinando-se novamente para o chão, continuou a escrever na
terra. Ao ouvirem isto, foram saindo um a um, a começar pelos
mais velhos, e ficou só Jesus e a mulher que estava no meio
deles. Então, Jesus ergueu-se e perguntou-lhe: ‘Mulher, onde
estão eles? Ninguém te condenou?’ Ela respondeu: ‘Ninguém,
Senhor.’ Disse-lhe Jesus: ‘Também Eu não te condeno. Vai e de
agora em diante não tornes a pecar’” (Jo 8, 3-11).
A conversão
e a
adequação do nosso
agir ao de Jesus faz de nós, necessariamente,
construtores de paz
e destruidores de muros. E hoje continuam a ser muitos os
muros a dividir os homens e os povos: o muro que separa os
países ricos dos países pobres, o muro que esconde a violência
doméstica e o trabalho infantil, o muro que impede o acesso de
todos à educação, à saúde e a um emprego com dignidade, o muro
que, nalguns países, proíbe a liberdade religiosa e o acesso das
mulheres a cargos políticos, o muro que impede o acesso dos
portadores de deficiência a uma vida com dignidade, etc.
Temos ainda
os muros de betão armado que rapidamente se constroem mas
dificilmente se derrubam: ainda estará na memória de todos o
muro que, depois da II Guerra Mundial, durante muitos anos,
separou a República Democrática Alemã da República Federal
Alemã, bem como muitos milhares de famílias. Também os
frequentes muros erguidos na faixa de Gaza parecem perpetuar um
conflito e condenar os sonhos de paz de milhares de pessoas. E,
ainda não refeitos de tantos muros, uma lei recentemente
aprovada nos Estados Unidos da América determinou a construção
de um muro de 1.226 quilómetros na fronteira com o México. Mas
ele será, muito provavelmente, insuficiente para resolver o
problema da imigração ilegal e levará muitos mexicanos, que não
desistirão de procurar uma nova oportunidade de vida, a
arriscar-se ainda mais para entrar em território americano, por
exemplo, através do deserto do Arizona. Pode parecer estranho
como é que uma sociedade que nasceu com a imigração não é capaz
de criar políticas migratórias eficazes, mas, na verdade, isto
acontece porque no mundo
há falta de homens com a pedagogia e o amor de Jesus.

Duas pessoas
não se podem abraçar quando estão separadas por um muro, por
isso, é necessário que mais pessoas aprendam de Jesus manso e
humilde e, convertidas, procurem, como Francisco de Assis e
tantos outros, ser instrumentos de ‘paz
e bem’.
O trabalho
de alguns destes homens e mulheres em prol da paz e do respeito
pelos direitos humanos, é anualmente reconhecido pela comunidade
internacional através da atribuição do prémio
nobel da paz. O
Nobel da Paz é um legado do sueco Alfred Nobel. De acordo com a
sua vontade, o prémio deveria distinguir “a pessoa que tivesse
feito a maior ou melhor acção pela fraternidade entre as nações,
pela abolição e redução dos esforços de guerra e pela manutenção
e promoção de tratados de paz”.
Assim, por
exemplo, em 1979, Madre Teresa de Calcutá, ganhou o Nobel pela
luta contra a pobreza na Índia; em 1990 foi a vez de Mikhail
Gorbachev (antiga URSS), pela sua contribuição para o fim da
Guerra-fria; em 2004 a laureada foi Wangari Maathai,
ambientalista e activista dos direitos humanos queniana; e em
2006 foi a vez de Muhammad Yunus (Bangladesh) e do seu banco de
microcrédito, Banco Grameen, por ajudar milhares de famílias nos
países mais pobres a conseguirem financiamento para montarem o
seu próprio negócio.
Em 1996, foi
a vez de dois timorenses, Dom Carlos Filipe Ximenes Belo, bispo
católico, e José Ramos-Horta, pelo seu contínuo esforço para
terminar com a opressão vigente em Timor-Leste, esperando que “o
prémio despolete o encontro de uma solução diplomática para o
conflito em Timor-Leste com base no direito dos povos à
autodeterminação.”
Hoje, dez
anos depois, Timor-Leste é um país independente mas em profunda
crise de identidade, vivendo num permanente clima de
instabilidade e violência, a exigir novos esforços de paz. Com
um pouco de bom senso, facilmente poderemos verificar que, num
país com 99% de católicos, não é apenas aquele 1%, que professa
outras religiões, que está a provocar estragos nesta frágil
democracia; se calhar esta é, antes, uma oportunidade para todos
nós, católicos e discípulos de Jesus, reflectirmos sobre o que
professamos no nosso Baptismo e iniciarmos uma caminhada de
verdadeira conversão, valorizando menos a forma e a ‘lei’ e
procurando
amar a Deus e
aos irmãos em espírito e verdade (Cf. Jo 4,23). No
tempo da ocupação indonésia, alguns ‘asuwa’in’
(heróis/guerreiros das FALINTIL) tinham uma máxima que dizia:
“taka kapote hamutuk ho inimigu” (trad. lit.: fechar o capote
junto do inimigo). Hoje, os tempos são outros, é preciso começar
a
abrir o nosso coração
aos outros e não a fechá-lo e, sobretudo, a
despirmo-nos de nós
mesmos para nos revestirmos das vestes – sentimentos e
atitudes – de Cristo.

Talvez nunca
nenhum de nós chegue a ganhar o Nobel da Paz mas também não
corremos atrás de uma coroa corruptível (Cf. 2Tm 9,25)
porque a nossa herança é incorruptível e imaculada, e está
reservada no Céu para nós (Cf. 1Pe 1,4). Talvez nunca
nenhum de nós chegue a ganhar o Nobel da Paz mas ninguém nos
liberta da obrigação, como baptizados, de nos tornarmos
destruidores de muros e de tudo quanto afasta e divide os
irmãos. Talvez nunca nenhum de nós chegue a ganhar o Nobel da
Paz mas Jesus deixou-nos a promessa de, também nós, com ou sem
prémio Nobel, nos chamarmos
filhos de Deus,
se nos tornássemos pacificadores (Cf. Mt 5,9). Temos uma
grande oportunidade para o fazer, tornando-nos instrumentos de
paz: fazer destes ‘dois povos’, lorosa’e e loromonu, um só,
Timor ida de’it, povu ida de’it, Maromak ida de’it nia povu!
(Um só Timor, um só povo, povo de Deus).
Frei Hermano Filipe
in FINI-Fiar Ida, Neon Ida, Dezembro de
2006 |