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Razões para escolher a vida
Em 19 de
Outubro passado, logo após ter sido aprovada na Assembleia da
República a moção que sujeitava a um novo referendo a
despenalização da “interrupção voluntária da gravidez” até às
10 semanas, a Comissão Permanente da Conferência Episcopal
Portuguesa
emitiu uma Nota Pastoral intitulada
“Razões
para escolher a Vida”.
Nela,
começando por confessar a sua «perplexidade acerca desta
situação», os nossos Bispos declaram abertamente que «a vida
humana, com toda a sua dignidade, existe desde
o primeiro momento da concepção»; e porque consideram a vida
humana «um valor absoluto, a defender e a promover em todas as
circunstâncias», acham que «ela não é referendável e que
nenhuma lei permissiva respeita os valores éticos fundamentais
acerca da Vida, o que se aplica também à Lei já aprovada.
Uma hipotética vitória do “não” no próximo referendo –
sublinham – não significa a nossa concordância com a Lei
vigente».
A razão
fundamental é que, «para os fiéis católicos o aborto
provocado é um pecado grave porque é uma violação do 5º
Mandamento da Lei de Deus, “não matarás”, e é-o mesmo
quando legalmente permitido. Mas este Mandamento – recordam –
limita-se a exprimir um valor da lei natural, fundamento de uma
ética universal. O aborto não é, pois, uma questão
exclusivamente da moral religiosa; ele agride valores universais
de respeito pela vida. Para os crentes acresce o facto de, na
sua Lei, Deus ter confirmado que esse valor universal é sua
vontade.»
Os Bispos
reconhecem, depois, que «a escolha no dia do referendo é uma
opção de consciência, que não deve ser influenciada por
políticas e correntes de opinião»; por isso, declaram: «Nós,
os Bispos, não entramos em campanhas de tipo político, mas não
podemos deixar de contribuir para o esclarecimento das
consciências. Pensamos particularmente nos jovens, muitos dos
quais votam pela primeira vez e para quem a vida é uma paixão e
tem de ser uma descoberta.» Daí, acrescentam, «não podemos
deixar de dizer aos fiéis católicos que devem votar “não”
e ajudar a esclarecer outras pessoas sobre a dignidade da
vida humana, desde o seu primeiro momento. O período de debate e
esclarecimento que antecede o referendo não é uma qualquer
campanha política, mas sim um período de esclarecimento das
consciências.»
Por isso, ao
mesmo tempo que encorajam «as
pessoas e instituições
que já se dedicam generosamente às mães em
dificuldade e às próprias crianças que conseguiram nascer», os
membros do Conselho Permanente da CEP, em nome dos Bispos
Católicos do nosso país, pedem «a todos
os fiéis católicos e a
quantos partilham connosco esta visão da vida, que se empenhem
no esclarecimento das consciências», recomendando:
«Façam-no com serenidade, com respeito e com um grande amor à
vida.»
Para isso, dizem, «enunciamos, de modo simples,
as razões para votar “não” e
escolher a Vida:
«1ª.
O ser humano está todo presente desde
o início da vida, quando ela é apenas embrião. E esta
é hoje uma certeza confirmada pela Ciência: todas as
características e potencialidades do ser humano estão presentes
no embrião. A vida é, a partir desse momento, um processo de
desenvolvimento e realização progressiva, que só acabará na
morte natural. O aborto provocado, sejam quais forem as razões
que levam a ele, é sempre uma violência injusta contra um ser
humano, que nenhuma razão justifica eticamente.
2ª.
A legalização não é o caminho
adequado para resolver o drama do “aborto clandestino”,
que acrescenta aos traumas espirituais no coração da mulher-mãe
que interrompe a sua gravidez, os riscos de saúde inerentes à
precariedade das situações em que consuma esse acto. Não somos
insensíveis a esse drama; na confidencialidade do nosso
ministério conhecemos-lhe dimensões que mais ninguém conhece. A
luta contra este drama social deve empenhar todos e passa por um
planeamento equilibrado da fecundidade, por um apoio decisivo às
mulheres para quem a maternidade é difícil, pela dissuasão de
todos os que intervêm lateralmente no processo, frequentemente
com meros fins lucrativos.
3ª.
Não se trata de uma mera
“despenalização”, mas sim de uma “liberalização
legalizada”,
pois cria-se um direito cívico, de recurso às instituições
públicas de saúde, preparadas para defender a vida e pagas com
dinheiro de todos os cidadãos. “Penalizar” ou
“despenalizar” o aborto clandestino, é uma questão de
Direito Penal. Nunca fizemos disso uma prioridade na nossa
defesa da vida, porque pensamos que as mulheres que passam por
essa provação precisam mais de um tratamento social do que
penal. Elas precisam de ser ajudadas e não condenadas; foi a
atitude de Jesus perante a mulher surpreendida em adultério:
«alguém te condenou?... Eu também não te condeno. Vai e
doravante não tornes a pecar.» Mas nem todas as mulheres que
abortam estão nas mesmas circunstâncias e há outros
intervenientes no aborto que merecem ser julgados. É que tirar a
vida a um ser humano é, em si mesmo, criminoso.
4ª.
O aborto não é um direito da mulher.
Ninguém tem direito de decidir se um ser humano vive ou não
vive, mesmo que seja a mãe que o acolheu no seu ventre. A mulher
tem o direito de decidir se concebe ou não. Mas desde que uma
vida foi gerada no seu seio, é outro ser humano, em relação ao
qual tem particular obrigação de o proteger e defender.
5ª.
O aborto não é uma questão política,
mas de direitos fundamentais. O respeito pela vida é
o principal fundamento da ética, e está profundamente impresso
na nossa cultura. É função das leis promoverem a prática desse
respeito pela vida. A lei sobre a qual os portugueses vão ser
consultados em referendo, a ser aprovada, significa a
degenerescência da própria lei. Seria mais um caso em que aquilo
que é legal não é moral.»
Seja-me
permitido um duplo repto: se, como disse o primeiro-ministro, a
questão é só despenalizar e não oficializar o aborto, caso vença
o NÃO – dê também o Governo apoio às mães que desejem ter
os seus filhos; se, para os Bispos, essas mulheres «precisam de
ser ajudadas e não condenadas», caso vença o SIM –
apareça também a Comissão Permanente da CEP a defender as
mulheres condenadas por terem abortado.
Frei Lopes Morgado |